Postado originalmente na Uol em 27/06/2011
Recentemente, houve uma discussão sobre o uso ou não de pesquisas educacionais como uma contribuição na formulação das políticas públicas. A questão aqui é antiga. Os profissionais que não estão familiarizados com a forma de pesquisa no campo das ciências humanas, em especial na educação, tendem a achar que neste campo há muita discussão e pouca conclusão, em matéria de pesquisa.
Tais profissionais gostariam que houvesse uma posição predominante na pesquisa que pudesse orientar a formulação da política. Ocorre que a educação, e as ciências humanas em geral, são afetadas pela visão de mundo que os pesquisadores têm sobre os fenômenos que pesquisam. Isso faz com que, na dependência da visão de mundo em questão, um determinado problema de pesquisa tenha uma ou mais formas de solução. Daí que haja um grande debate sobre os problemas de pesquisa, na proporção das variadas formas de ver o mundo que existem dentro da área.
O que os políticos não gostam é isso. Eles querem, na administração, uma solução. Não há apenas uma, mas várias. E como não entendem esta variedade de soluções, acham que isso “é coisa de pedagogos”, “falta de objetividade”, etc.
Mas há ainda outra posição pior que essa. Ela não reconhece a diversidade de opiniões e assume apenas aquelas soluções que estão de acordo com uma determinada visão de mundo. É o caso dos reformadores empresariais. Eles assumem que se as regras do jogo dos negócios, da visão gerencialista, forem assumidos na educação, então a área ganha objetividade e encontra solução para seus problemas. Ela desqualifica as demais formas de solução em favor de uma visão de mundo empresarial da educação.
No Brasil, esta questão da relação entre a pesquisa educacional e a formulação de políticas públicas é mais complexa ainda, por conta de que os governos, embora sejam os financiadores da pesquisa, não se reportam a ela na hora de pautar as suas próprias políticas.
Não é assim nos Estados Unidos, onde os planos de educação do governo são informados pelas revisões de literatura e opções de pesquisa que foram tomadas como base para a formulação de políticas. Os profissionais podem ter acesso a estas decisões e submetê-las a crítica mostrando como o governo deixou ou não pesquisas importantes de lado. Ou como foi parcial na escolha dos estudos que fundamentaram suas políticas.
O MEC acaba de fazer o PNE – Plano Nacional de Educação – para os próximos 10 anos sem fazer uso de pesquisa educacional, ou explicitar em que se baseou.
Esta relação entre pesquisa (pesquisadores) e política pública (governos) não será tranquila, pois as lógicas e os tempos são completamente diferenciados. Como a decisão é dos governos, a tendência é incorporar as soluções mais fáceis e de rápida aplicação. Aparece, então, a busca por soluções milagrosas tipo bônus, privatização, etc.