Uso de Vouchers: Fundações que forçam a barra…

Postado originalmente na Uol em 19/04/2011

Novo relatório da Fundação Friedman sobre o uso de vouchers em educação não convence. Vouchers são programas que dão recursos públicos para aos pais dos alunos escolherem a escola que gostariam para seus filhos. É uma das muitas formas de privatização da educação pública em uso nos Estados Unidos.

O novo relatório ganha-ganha sobre escolas vouchers ainda não é um vencedor

http://nepc.colorado.edu

Boulder, CO (19 de abril de 2011) – Em 2009, a Fundação Friedman para a Escolha Educacional publicou um relatório intitulado “Uma solução ganha-ganha: a evidência empírica sobre como os vouchers afetam as Escolas Públicas”. O relatório foi revisto  pelo professor Chris Lubienski da Think Twice – projeto da Universidade de Illinois –  que concluiu que o relatório de 2009, pretendia reunir todos os dados empíricos disponíveis sobre a questão dos efeitos da concorrência usando vales, encontrando um forte consenso de que os vouchers ajudavam as escolas públicas. Entretanto, o relatório, baseado em uma revisão de 17 estudos, seletivamente interpretava a evidência para apoiar as conclusões da própria Fundação.

A Fundação Friedman já lançou uma versão atualizada do relatório, combinando a antiga discussão sobre os efeitos da competição escolar com uma nova discussão dos vários resultados de participantes de programas de voucher. O novo relatório, no entanto, é igualmente falho.

O relatório anterior da Friedman afirmava que “contrariamente à tese generalizada de que os vales prejudicam as escolas públicas, a evidência empírica consistentemente apoia a conclusão de que os vouchers melhoram as escolas públicas. Nenhum estudo empírico jamais indicou que os cheques tenham um impacto negativo sobre as escolas públicas “(vide sumário executivo do relatório).

A revisão de Lubienski explica que o Relatório de 2009 escolhe evidencias e que a maioria dos estudos citados “foram produzidos por um grupo muito pequeno de pessoas em grande parte associados a organizações que apoiam a opção pela escolha [uso de vouchers]” (p. 6).

A revisão de Lubienski sobre o relatório original explica que “Os estudos incluem alguns trabalhos rigorosos feitos por pesquisadores respeitados. Mas questões de metodologia, interpretação e generalização emergem quando a pesquisa é empacotada simplesmente para apoiar uma agenda estreita, como a da Fundação Friedman. Então, a tentação para seletivamente fazer um balanço da investigação distorce os resultados reais “(p. 5).

Por exemplo, Lubienski aponta o mal uso feito do relatório de pesquisa de Carnoy e seus colegas “(2007). O novo relatório continua a usar inadequadamente o trabalho de Carnoy, bem como outros, a fim de afirmar que os cheques têm um efeito de “concorrência” positivo sobre os sistemas de escola pública. De fato, como afirma Lubienski, o estudo que Carnoy e colegas conduziram para testar os efeitos da concorrência dos sistemas de voucher “não encontrou nenhum efeito da concorrência” em seus resultados (p. 5).

Lubienski também critica o relatório Friedman anterior por defender a expansão dos programas de vouchers sem reconhecer que expansões anteriores não aumentaram os efeitos positivos que poderiam ser atribuídos à concorrência. O novo relatório novamente evita uma explicação para esta falta de sucesso, exceto para apresentá-la como prova da necessidade de ampliar os programas de forma mais agressiva.

O que o novo relatório agrega é uma discussão sobre pesquisas relativas a efeitos dos programas de voucher sobre os estudantes que recebem os vales. O relatório cita oito estudos, a maioria deles realizados por declarados defensores dos vouchers.

É notável como o relatório não tem limites para procurar encontrar conclusões sobre os “efeitos positivos” do sistema de voucher, quando uma leitura compreensiva desses estudos mostraria que o efeito é mínimo ou inexistente. Mais desconcertante é a fraude e a distorção utilizadas pelo relatório na tentativa de descartar o notável estudo, revisado por pares, de Alan Krueger e Pei Zhu, de Princeton, que não encontrou efeitos do programa de voucher na Cidade de Nova York.

Enquanto o novo relatório ganha-ganha melhora os argumentos do relatório original em algumas áreas, a lógica global e as provas correspondentes ainda estão aquém de torná-lo defensável. O relatório não é uma revisão útil dos efeitos da concorrência escolar promovida por programas de vouchers.

Sobre Luiz Carlos de Freitas

Professor da Universidade Estadual de Campinas - UNICAMP - (SP) Brasil.
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Uma resposta para Uso de Vouchers: Fundações que forçam a barra…

  1. Pedro Accioli disse:

    O sistema de voucher é muito lindo na teoria, porém, na prática é muito dificil de dar certo no Brasil, aqui 85% dos estudantes da educação básica estudam em escola pública e consequentemente, privatizando todo o ensino público iria gerar uma grave consequencias: dos pais de 85% dos estudantes de escola pública, apenas 15% deles conseguiriam pagar mensalidades em uma escola particular das mais baratas sem precisar dos vouchersr! O resto do povo NÃO! E na primeira crise econômica futura, o governo com certeza cortaria vouchers de parte estudantes e consequentemente estes teriam que estudar na casa do c*****! Ou seja, melhor o filho dos pais mais pobres estarem em uma escola publica gratuita em tempo de crise, mesmo com baixa qualidade de ensino, porém, com vaga para estudar do que seu filho estar fora de uma escola!

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