A nova prova do MEC: o Inafinho. A quem interessa?

Postado originalmente na Uol em 4/12/2010

Qual o interesse dos setores empresariais ligados ao Movimento Todos pela Educação em patrocinar mais uma prova para o ensino fundamental, o INAFINHO – índice nacional de analfabetismo funcional? Qual o interesse da Instituto Paulo Montenegro do IBOPE em arcar com todos os custos de mais esta prova?

Quem é o Movimento Todos pela Educação?

O Movimento Todos pela Educação, é o Business Roundtable brasileiro, como já comentamos em outras postagens. Seu objetivo é ideológico – colocar a lógica de mercado no campo educacional. Daí que seja financiado por grandes indústrias.

Seu site diz: “O Todos Pela Educação é um movimento financiado exclusivamente pela iniciativa privada, que congrega sociedade civil organizada, educadores e gestores públicos que tem como objetivo contribuir para que o Brasil garanta a todas as crianças e jovens o direito à Educação Básica de qualidade.”

Neste mesmo site pode-se ler quem são os patrocinadores: Fundação Itau, Gerdau, Instituto Camargo Correia, Fundação Bradesco, Instituto Unibanco, Odebrecht, Banco Real/Santander, D Paschoal, Suzano Papel e Celulose.

Há também os apoiadores, entre eles o Instituto Paulo Montenegro que é do IBOPE.

Quem é o IBOPE?

Diz em seu site “O Grupo IBOPE é composto por três grandes negócios: IBOPE Media, IBOPE Inteligência e IBOPE Educação, além de algumas parcerias estratégicas. O IBOPE Media, conhecido no Brasil como IBOPE Mídia, é responsável pelas pesquisas de mídia, investimento publicitário e hábitos de consumo. Oferece uma ampla linha de produtos que atende às necessidades de veículos de comunicação, agências de publicidade e anunciantes”.

Clicando no link acima, Ibope Educação, você obterá a seguinte informação:

“O IBOPE Educação é uma nova área de negócio do Grupo IBOPE que atua no segmento de educação executiva com o objetivo de capacitar profissionais envolvidos no processo de tomada de decisões estratégicas”.

Por esta via, você poderá navegar até a seguinte informação:

“Em homenagem a Paulo de Tarso Montenegro, um dos fundadores do IBOPE, foi criado em 2000, o Instituto Paulo Montenegro – uma organização sem fins lucrativos que desenvolve e executa projetos educacionais, a partir dos conhecimentos acumulados pelo IBOPE em 68 anos de pesquisa. Seus dois programas – Nossa Escola Pesquisa Sua Opinião (Nepso) e o Indicador de Alfabetismo Funcional (Inaf) são realizados em parceria com a ONG Ação Educativa, uma das entidades mais respeitadas no Brasil na área educacional. Mais informações em www.ipm.org.br.” A atuação é feita através de polos operados pelo Instituto e de núcleos parceiros, estes operados em parceria com a Ação Educativa.”

Embora o Instituto Paulo Montenegro se apresente como uma instituição sem fins lucrativos, ela está ancorada em uma área da organização que é chamada Ibope Educação e que é definida por este grupo como “uma nova área de negócio do Grupo Ibope” e que tem produtos para colocar no mercado.

Estas são as relações.

A lógica da medição é usada por setores empresariais com a finalidade, para uns, de mostrar que a educação pública está em crise. Em seguida, por outros, para oferecer a solução: privatizar a educação. Ou seja, implantar a lógica do mercado e dos negócios no âmbito da educação. Uma solução atrativa pois reune os interesses de grupos que estão no poder político, com grupos que estão no poder econômico e que promete estatísticas favoráveis em curto prazo.

É assim nos Estados Unidos desde 1983 com o relatório “A nation at risk”. Sempre se exacerba a questão educacional, a crise educacional, para em seguida o mercado oferecer soluções milagrosas.

O Inafinho não escapa a isso. Em fevereiro de 2011 quando for aplicada, seus resultados serão alardeados pela mídia. Será mais uma prova para que a mídia, com seus “experts liberais” de plantão, usualmente ligados a estas organizações, denigram a educação pública, criem a ideia de crise no sistema educacional público, de forma que os salvadores da educação – e de seus interesses empresariais privados – se apresentem no momento seguinte com a solução.

O governo não está conseguindo controlar o impacto destes setores empresariais no MEC, em especial no INEP. Com a palavra, o PT – Partido dos Trabalhadores…

O pessoal da indústria da avaliação – Cesgranrio, Avalia, etc. – abre caminho para o pessoal da indústria da tutoria – Alfa e Beto, Acelera Brasil, Geempa, Ibope, etc. – todos vendedores de sistemas educacionais. Os três primeiros operam diretamente em correção de fluxo em alfabetização, por exemplo.

Dessa forma, o MEC dá mais um passo em direção à implantação da lógica de mercado para a solução dos problemas educacionais.

Note que o INEP já apoia as escolas com um instrumento chamado Provinha Brasil, produzida pelo MEC, para acompanhar o desempenho dos alunos nestes anos iniciais. É a melhor solução que o INEP já produziu pois é aplicada pelo próprio professor, não tem ranqueamento, não é divulgada pois os dados ficam com o município e o professor. No entanto, não serve para a indústria educacional pois não gera mercado para ela.

Daí a ênfase em mais uma prova externa sobre a escola e seus profissionais.

Sobre Luiz Carlos de Freitas

Professor da Universidade Estadual de Campinas - UNICAMP - (SP) Brasil.
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