Boa educação é ir bem no PISA?

Postado originalmente na Uol em 20/12/2010

Telma Mildner coloca, em email que dirigiu ao blog, uma questão da maior relevância para retomarmos. Ela o faz trazendo à tona uma apreciação de Diane Ravitch sobre a situação americana. Diane, ao lamentar a situação americana, considera que “foi errado apoiar a expansão dos testes e da responsabilização”. Diz ela:

“Eu creio que esta abordagem criou a maior fraude nacional, quanto mais nós confiamos nos testes e mais nós enfatizamos a responsabilização, menos interesse há em algo que você ou eu poderíamos reconhecer como sendo uma boa educação.” E continua: “Quem, hoje, ainda fala sobre “boa” educação? Ao contrário, nós estamos enredados em um discurso vazio sobre dados sem sentido, e mais e mais crianças passam pela sua escolarização sem qualquer envolvimento real com artes, ciência, história, projetos, atividades, ou qualquer outra coisa que não seja aumentar a pontuação de leitura e matemática.”

Assim fala quem de perto vivenciou a tragédia americana da responsabilização desde Reagan até Bush filho.

Esta é uma temática e tanto: o que consideramos uma boa educação?

Para os liberais a resposta seria: obter nota 600 no Pisa, a nota dos líderes Shangai e Korea, em leitura, matemática e ciências. Tanto que pregam que a educação se paute pelas exigências do Pisa. Basta ler a Folha de São Paulo de ontem (19-12-2010). O Editor Chefe ocupou espaço nobre para dizer que o PNE do governo peca em três aspectos: metas, avaliação e monitoramento. Ora estes são os ingredientes da responsabilização americana. A mesma que agora é execrada por Ravitch.

Mas obter 600 no Pisa é um desejo de parte da sociedade: das corporações que olham para a educação como sendo esta um subsistema dos negócios, destinada a fornecer mão de obra. Toda a discussão gira em torno disso: quão competitiva é nossa força de trabalho. Daí que seja a Organização para Cooperação do Desenvolvimento Econômico – OCDE – que promova o PISA. É a visão dos homens de negócio o que define os objetivos do PISA. Mas a educação não deve se restringir a isso. A pergunta, portanto, persiste: o que é uma boa educação? E quem deve discutir isso? Os elaboradores de teste ou a sociedade? E onde?

Parece-me uma boa questão para o Conselho Nacional de Educação.

Sobre Luiz Carlos de Freitas

Professor da Universidade Estadual de Campinas - UNICAMP - (SP) Brasil.
Esse post foi publicado em Assuntos gerais, Pisa, Postagens antigas da UOL e marcado . Guardar link permanente.

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