Campinas: subordinando o pedagógico à gestão

Apesar da pressão de alguns dirigentes da Secretaria Municipal de Educação de Campinas para as escolas “optarem” pela entrada da assessoria privada nas escolas, elas continuam a organizar-se para enfrentar tais assessorias que acreditam que a pedra filosofal da melhoria da educação é a gestão.

Com a desculpa de que não interferirão no pedagógico, prometem conter-se em alterações de gestão. O que esta visão esconde é que ela, de fato, acredita que a melhoria da educação é uma questão apenas de gestão, ou seja, para ela não é preciso mesmo mexer no pedagógico. Basta melhorar os sistemas e gerir bem (leia-se controlar os professores) e as coisas melhorarão pela subordinação do pedagógico ao controle da gestão. Com isso, a autoria e necessária autonomia do professor são prejudicadas, em nome de se cumprir metas.

Esta sistemática baseada na pressão, como já demonstramos aqui (veja-se a área chamada “segregação” neste blog) pode criar ilhas de melhoria na rede que exportam alunos de menor desempenho para outras escolas no mesmo território, aumentando os processos de segregação educacional e a formação de “guetos”. Pode ainda dar uma falsa impressão de que os índices de desempenho melhoraram, na média, mas as escolas  que atendem populações com níveis socioeconômicos menores, em si, continuam na mesma.

A tese de que a gestão é o que importa é muito antiga, remonta a 1972 quando se pretendeu instaurar o gerencialismo no sistema de ensino brasileiro, e que alguns autores chamam de “tecnicismo”. Era a vertente preferida da ditadura.

O tecnicismo parte do princípio de que os problemas da educação são antes, problemas técnicos e de gestão. Formando-se bem o gestor e dotando-o de sistemas de controle, então haverá melhoria na educação. Naquela época já não deu resultado algum, já que obtidos sob pressão tais resultados não se sustentam ao longo do tempo e geram um grande número de efeitos colaterais indesejáveis.

Esta é a razão pela qual se diz que a assessoria privada não vai mexer com o pedagógico – eles acreditam no controle do pedagógico através da instauração de uma gestão forte. Esta visão certamente vai treinar gestores autoritários nas escolas, aumentar a pressão sobre os atores da escola e ampliar o nível de atritos ao longo do tempo. Vai na direção contrária da gestão democrática, contrária à confiança nos atores escolares, contrária à sua participação.

Campinas, caminha hoje, em direção ao passado.

Mais uma escola protesta contra o retrocesso.

  FotoDulceBento

Sobre Luiz Carlos de Freitas

Professor da Universidade Estadual de Campinas - UNICAMP - (SP) Brasil.
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2 respostas para Campinas: subordinando o pedagógico à gestão

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