A questão de fundo

O pós-eleitoral só confirma que o mal estar em relação a Dilma está ligado a uma análise já feita aqui mostrando que a elevação do salário médio do trabalhador brasileiro nos últimos 12 anos em clima de não elevação significativa da produtividade deste trabalhador, reduziu a rentabilidade dos empresários. Reforça também que o interesse dos empresários pela educação se deve a que ela é considerada importante – ainda que não seja a única responsável – para a elevação da produtividade (e da competitividade). Esta é uma das fontes de desconforto que levou o “mercado” a atuar em favor de Aécio.

Como mostra reportagem de hoje da Folha, o volume de investimento produtivo direto revela que há um grande interesse dos empresários internacionais pela nossa economia, a questão é o pessimismo interno local ligado à não elevação da produtividade do trabalhador brasileiro. Os salários médios aumentaram e não houve aumento significativo da produtividade, na ótica empresarial. Aécio representava a garantia de que não haveria aumento significativo do salário médio e, por outro lado, haveria elevação da produtividade com a adoção das regras da reforma educacional dos reformadores empresariais. Ou seja, a subordinação das redes de ensino às necessidades do empresariado.

Por isso, a afirmação de que Aécio ia segurar os salários não era terrorismo eleitoral, mas dedutível do próprio compromisso que assumiu com o empresariado. O Brasil somente poderia voltar a aumentar salários se elevasse a produtividade, segurando portanto o salário médio até que a produção média por trabalhador se elevasse. Isso é mascarado dizendo que é preciso “aumentar a credibilidade dos empresários no governo” para que a economia volte a aquecer.

Não é outra coisa que escreve Abilio Diniz, hoje na Folha: para o país retomar o crescimento é necessário que haja investimentos em infraestrutura e que, entre outras coisas, se aumente a produção média do trabalhador, ou seja, se aumente a produtividade. Vale dizer, produzir mais com o mesmo salário. Bate, portanto, na mesma tecla.

Note-se que os empresários internacionais continuam de bem com a economia.

“O problema maior é com os empresários locais. O Brasil continua atraindo muitos investimentos estrangeiros diretos”, diz Victor Bulmer-Thomas, analista do think tank londrino Chatham House. O Brasil atrai, em média, US$ 55 bilhões (R$ 139 bilhões) em investimentos estrangeiros diretos por ano – e essa média não caiu este ano, mesmo diante do pessimismo registrado no mercado financeiro.

Ou seja, se Dilma resolver atender os empresários locais, teremos o atrelamento da educação à lógica empresarial e além disso, vai haver mudança na correção do salário mínimo no Brasil. A questão é saber com qual compromisso (empresários ou trabalhadores) ficará o governo Dilma. Aqui, dificilmente, haverá meio termo – como se viu nas eleições.

Sobre Luiz Carlos de Freitas

Professor aposentado da Faculdade de Educação da Universidade Estadual de Campinas - UNICAMP - (SP) Brasil.
Esse post foi publicado em A proposta PSDB 2014, Responsabilização/accountability. Bookmark o link permanente.

Uma resposta para A questão de fundo

  1. Andre Luis disse:

    Caro professor, no atual governo da Dilma. o salário mínimo real cresceu menos do que no governo FHC e menos ainda do que no governo Lula. Entendo que se quisermos um desenvolvimento econômico (não me refiro à crescimento econômico, acúmulo de riquezas), precisaremos produzir mais e gerar mais empregos, os dois juntos. Assim,poderemos ter maior arrecadação e possamos investir ainda mais no social.
    O investimento no social hoje está comprometido se não mudarmos a atual política econômica. Acredito que de fato o problema seja o empresariado local, que não confia nos mandos e desmandos do atual governo, sem uma política consistente e confiável. E são estes empresários (micro, pequeno, médio e grande) que geram emprego e renda. Se eles não confiam na atual política econômica, é porque algo precisa ser mudado.
    Você não precisa escolher um lado. Empresários e trabalhadores precisam caminhar juntos, pois um não vive sem o outro. Fato que as pessoas estão chegando despreparadas ao mercado de trabalho, embora as universidades continuem acreditando que estão preparando bem seus alunos para os desafios atuais. Algo na educação precisa mudar!

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