Armadilha da renda média

Um dos primeiros estágios de exploração da força de trabalho é a absorção de bolsões de mão de obra barata: pessoas do campo, mulheres, entre outros. Nesta fase, os empresários não necessitam de boa educação. A tecnologia é simples e o salário é baixo, pois a mão de obra é abundante.

Quando tais bolsões diminuem, continua-se a necessitar de mais mão de obra.  Entram em cena os estrangeiros desocupados em seus países. Chegam, só em São Paulo, 30 por dia. A contínua necessidade de mão de obra pode fazer com que a renda média paga aos trabalhadores de setores inteiros da economia comece a crescer. Salários pagos são um componente fundamental na definição do lucro. Usualmente, os processos de fabricação também tendem a se sofisticar para intensificar a força de trabalho, exigindo tais processos mais educação.

Quando um país aumenta o salário médio de sua força de trabalho sem ampliar sua produtividade, os empresários ficam “desestimulados” pela queda de rentabilidade em seus investimentos  e mudam de casa. Há um limite para se ampliar a renda média dos trabalhadores, sem derrubar lucros. Daí o termo “armadilha”.

Ocorre que o aumento da produtividade é dependente de fatores importantes e que sofrem o efeito de passivos históricos: é o caso da educação. Portanto, não são de fácil e rápida solução. Mas para os empresários, os quais só agora se interessaram pela qualidade da educação, isso não conta. É preciso resolver de imediato o problema educacional para puxar o aumento de produtividade de imediato. Sem isso, dizem, perde-se competitividade internacional – ou seja, os lucros não são os esperados.

O conflito que aparece entre educadores e empresários diz respeito ao que se entende por boa educação: para os empresários é saber ler, escrever, contar e algumas competências mais que estão sendo esperadas na porta da fábrica, medidas em um teste. Se as notas aumentam, então houve melhoria. Se há mais formandos houve melhoria. Para os educadores, isso é apenas uma pequena parte da tarefa. Nota alta não é sinônimo de boa educação.

O conflito se amplia porque para os empresários – à imagem e semelhança de sua empresa – tudo é uma questão de gerenciamento. Portanto, se os educadores não dão conta de seu pedaço (leia-se atender às necessidades das empresas)  é porque não sabem gerenciar os recursos que são dados. E se as empresas já desenvolveram métodos de administração bem sucedidos para elas, porque não transplantá-los para as escolas e redes de ensino? Se eles têm a solução, os governos é claro agradecem. Eles também precisam mostrar à população que as escolas estão melhorando.

Esta urgência, que é assumida também pelos governos, ocorre porque um país que pague renda média menor a seus trabalhadores pode produzir bens e serviços mais baratos e permitir maiores lucros aos empresários: melhora a competitividade. Sem educação de qualidade não se amplia o número de formandos e com poucos formandos o salário médio sobe ao invés de descer. Lei da oferta e procura. A armadilha da renda média consiste no aumento do salário médio dos trabalhadores sem que se consiga alterar fatores de infraestrutura como educação, responsáveis pelo aumento da produtividade e simultaneamente, dispor de uma maior quantidade de formandos que reduza pressões salariais (veja a queixa do ensino médio, por exemplo).

A matéria abaixo toca nisso:

“Se não se colhe o bônus neste momento, não se colhe nunca mais. Se não se enriquece o país neste momento, é muito difícil enriquecê-lo depois. Para colher o bônus é preciso ter emprego e educação de qualidade. Os europeus, EUA, Japão, Cingapura, Coreia, China, Taiwan, todos esses países aproveitaram. O Brasil precisaria crescer ao menos 4%. Se o PIB fica abaixo de 2%, não é possível. Além do que deixamos a desejar em educação. Estamos presos à armadilha da renda média.”

Leia matéria completa aqui.

Neste quadro, os empresários estão se organizando para atacar estas questões de infraestrutura que afetam o aumento da produtividade. Vários movimentos estão se organizando há algum tempo: LIDE, Movimento Todos pela Educação e seus adjacentes, disfarçados de “especialistas em educação” organizados em ONGs e empresas de assessoramento educacional. Há um grupo mais ideológico e há outro mais operacional, o pessoal do faturamento. Não acreditam no serviço público e querem sua privatização. Na verdade ganham bem para denegrir o serviço público – mesmo sem evidência de que suas receitas são melhores.

Há portanto uma disputa pelo conceito de educação e pelos métodos de formação da juventude. Os empresários e seus apoiadores defendem uma versão instrumentalizada de educação a qual disfarçam muito bem com bandeiras como “primeiro o básico”, “os direitos da criança têm que vir primeiro”, etc. Coisas com as quais nós concordamos, mas sob outra concepção. Os educadores querem uma educação de qualidade social, voltada para os valores, para a formação humana ampla e entendem que a educação não é matéria para ser privatizada, pois é um bem público. Como tal, não pode ser entregue ao controle de um setor da sociedade, os empresários. Isso não é democrático.

Sobre Luiz Carlos de Freitas

Professor da Universidade Estadual de Campinas - UNICAMP - (SP) Brasil.
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