Pesquisadores questionam avaliação socioemocional

Grupo de pesquisadores da UNICAMP questiona a proposta de uma avaliação em larga escala sobre competências socioemocionais. O tema também foi tratado aqui quando divulgamos a manifestação da ANPED criticando a medida.

Especial para o Blog

Reflexões sobre a avaliação de competências socioemocionais como política pública

 Ana Luiza Smolka; Adriana Laplane; Debora Dainez e Lavinia Magiolino

 A iniciativa impulsionada pelo Instituto Ayrton Senna, em parceria com a OCDE e a Secretaria de Estadual de Educação do Rio de Janeiro, que inclui a medição de competências socioemocionais em estudantes do 5o. ano do ensino fundamental ao 3o. ano do ensino médio, antecipa a formalização desse tipo de avaliação como política pública a ser adotada no Brasil.

A proposta de avaliação das competências socioemocionais vem sendo apresentada como inédita, consensual e inovadora. Contudo, ela já tem uma história de aplicação e de contestação nos EUA, por quase duas décadas (Cf. Block, 2010). A proposta foi construída e se sustenta essencialmente em pressupostos e procedimentos metodológicos, principalmente a análise fatorial. Embora os autores façam menção a modelos anteriormente desenvolvidos, falta a essa proposta uma consistente ancoragem teórica com relação ao desenvolvimento humano e à formação da personalidade. Aspecto que, diga-se de passagem, os proponentes ressaltam como positivo, argumentando pela objetividade e colocando-se à margem dos vieses teóricos.

Como afirmado no Relatório do estudo piloto, “Os resultados estão em plena sintonia com a extensa revisão de literatura realizada por Almlund et al. (2011)”. No entanto, essa literatura torna-se referência sem ser debatida, sem incluir qualquer discussão com outras correntes teóricas que incluem e enfrentam a complexidade, as dificuldades, as con(tra)dições do desenvolvimento.

Até o momento, os resultados do estudo piloto evidenciam a correlação de determinadas habilidades/competências com o desempenho escolar (conscienciosidade, por exemplo, positivamente relacionada com desempenho em matemática; abertura a experiências positivamente relacionada com desempenho em português; o efeito negativo da extroversão sobre as notas de português é sensivelmente maior para os meninos do 5o ano; etc.). Ou seja, a proposta unifica características da personalidade que podem contribuir ou não para aprendizagem, padronizando um determinado modo de formação escolar bem sucedida do aluno.

Quais os sentidos e os efeitos dessa avaliação para os sujeitos, para as escolas e para a sociedade em geral? Por que essa forma de avaliação das competências socioemocionais como política pública?

Ao procurarmos conhecer as origens das ideias que sustentam esse tipo de avaliação, encontramos as formulações psicofísicas de Francis Galton (1822-1911), elaboradas com vistas à medição e ao aperfeiçoamento artificial das faculdades mentais da espécie humana. Galton foi o primeiro a esboçar o que hoje é chamado de “hipótese lexical” salientando que as diferenças e particularidades da personalidade das pessoas são eventualmente codificadas na língua. Seguindo o mesmo raciocínio, Gordon Allport e Henry Odbert (1936) realizaram uma investigação buscando identificar “disposições pessoais autênticas” através de termos que remetem a condições genéticas e relativamente estáveis da personalidade. O acervo por eles compilado, integrando inicialmente cerca de 18.000 termos, foi retomado por Raymond Cattell (1970) que, propondo uma análise científica da personalidade, reduziu para 171 o número de traços encontrados. A predição de comportamentos através de tais testes de personalidade foi, no entanto, fortemente questionada por psicólogos sociais na década de 1980.

Em 1981, Lewis Goldberg e mais três colegas propuseram o modelo dos “Big Five”, que destaca cinco traços de personalidade construídos com base em análise fatorial e tidos como universais: extroversão, amabilidade, neuroticismo, conscienciosidade, abertura a experiências. Tal modelo tem sido extensivamente utilizado como base para testes e avaliações de desempenho escolar e profissional, sendo que a proposta que chega ao Brasil nos últimos anos se “encaixa” curiosamente bem na sigla SENNA: “Social and Emotional Non-cognitive Nationwide Assessment”.

Os proponentes dessa avaliação proclamam que a personalidade é dinâmica e afirmam que o desempenho escolar e/ou profissional não é só cognitivo, mas também envolve aspectos socioemocionais que podem, inclusive, ser ensinados. No entanto, um dos problemas é a concepção implícita da personalidade, que se evidencia, nesse modelo avaliativo, como um conjunto de categorias e subcategorias identificáveis e mensuráveis separada e gradualmente, pressupondo um componente genético e um caráter estático, o que pode facilmente gerar um sistema de rotulação e de classificação dos alunos.

Formulada com base em condutas de outras pessoas apresentadas em situações prototípicas, a proposta reúne um conjunto de habilidades e competências, convocando os sujeitos a se identificarem com comportamentos e reações dos protagonistas em tais situações. Desconsidera, portanto, que motivação, interesse, curiosidade, protagonismo, organização, envolvimento, etc., mobilizam-se nas relações sociais, configuram-se em face de objetivos que se produzem em condições concretas e que orientam ações e emoções dos sujeitos. Podem, assim, variar e significar de diferentes modos, devido a múltiplas determinações. Além disso, as crianças sabem o que é desejável, ou seja, participam do imaginário social que valoriza certas características e estão cientes das expectativas às quais elas devem corresponder. Logo, cabe indagar como isso afeta as respostas dadas pelas crianças?

Outra questão, explicitada claramente no título da proposta, é que se descartam, por princípio, as intrínsecas relações entre emoção e cognição. Enquanto, no campo mais abrangente das ciências, da Neurologia à Sociologia, os esforços vão ao sentido de buscar novas formas de compreensão e de investigação dessas intrincadas relações, o pressuposto reiterado na avaliação é que falar de emoção e de personalidade dispensa a dimensão cognitiva (Non-cognitive Assessment).

Sobre o instrumento, é possível dizer que a facilidade da aplicação, a ilusão da objetividade, a pretensão de consensualidade e a obviedade dos resultados levam a uma rapidez na divulgação e a uma inquestionável “confiança” nos procedimentos e métodos. Ecos e rumos de uma psicometria?

Outra pergunta que fica é com relação ao projeto de sociedade que se evidencia nessa forma de avaliar e à vinculação da educação escolar ao rendimento social e ao desenvolvimento (econômico) do país. Fazendo parte da lógica da avaliação em massa, a proposta encontra-se sustentada por e orientada para um modelo de homem e de sociedade que privilegia a normatização e a padronização enquanto ressalta o individualismo e o produtivismo no processo de escolarização e nas relações de trabalho e produção. Ecos e rumos da teoria do capital humano?

             Conceitos, construtos presentes nesse modo de conceber, abordar e avaliar a personalidade – habilidades e competências socioemocionais – nos incitam a prosseguir nos debates e a ampliar as discussões, explicitando princípios, controvérsias e argumentos que possam ancorar de maneira consistente políticas e práticas de educação.

Sobre Luiz Carlos de Freitas

Professor da Universidade Estadual de Campinas - UNICAMP - (SP) Brasil.
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