Doria e a privatização da educação paulistana

Doria é eleito em primeiro turno e assumirá a Prefeitura da cidade de São Paulo, pelo PSDB. Surpreso e com cara de “cheguei e não sei bem o que fazer: privatizemos”, ele tentará se tornar uma referência na aplicação da reforma empresarial da educação. Ele mesmo faz questão de dizer que é gestor e empresário e não um político. Hoje anunciou a ampliação de creches fazendo convênios com Organizações Sociais.

O vazio que existe em sua proposta é bem ilustrado por medidas intempestivas que propõe tomar. Questionado pela BBC Brasil sobre as 315 mortes a menos que o prefeito Fernando Haddad associa à medida (redução da velocidade em marginais), o populista desconversa:

“Não haverá genocídio. Vamos fazer o que a Prefeitura não fez: programas de educação de trânsito usando rádio, televisão, internet e escolas públicas para que as pessoas compreendam e respeitem as regras.”

Enquanto não aprendem, morrem. Sempre que pode, ele reafirma que não é político:

“Sou gestor e empresário, embora respeite os políticos.”

Com um patrimônio declarado de 180 milhões, é fundador e presidente do GRUPO DORIA, grupo de Comunicação e Marketing composto por seis empresas: DORIA ADMINISTRAÇÃO DE BENS, DORIA EVENTOS, DORIA EVENTOS INTERNACIONAIS, DORIA EDITORA, DORIA MARKETING & IMAGEM e LIDE – Grupo de Líderes Empresariais, que reúne mais de 1.700 empresas filiadas, que representam 52% do PIB privado nacional. Acesse aqui quem é Doria.

A argumentação fútil é prodiga. Questionado sobre a relação de sua história com a de pais de família que vivem com um salário mínimo, Doria diz que respeita a todos:

“Eu vejo sem discriminação. Eu nunca discriminei os pobres nem os ricos. Não há o bem ou mal. Não há o rico ou o pobre no ponto de vista da diversidade. Temos que melhorar a qualidade de vida no ponto de vista da cidade.”

Isto acontece quando pessoas sem nenhuma tradição são alçadas à categoria de candidatos e acabam sendo eleitos por circunstâncias especiais nas quais estamos vivendo (há mais voto banco, nulo e abstenções do que o número de votos que ele recebeu). Vinicius Mota, na Folha, afirma que:

“Pela terceira vez desde a redemocratização, os eleitores de São Paulo colocaram na prefeitura um candidato sacado da cartola de um oligarca partidário. A moda começou em 1996 com Celso Pitta, inventado por Paulo Maluf, reincidiu em 2012 com Fernando Haddad, imposto ao PT por Lula da Silva. Repete-se agora com João Doria, concebido na proveta do tucano Geraldo Alckmin.”

Pelo menos Haddad vinha com oito anos de experiência política no Ministério da Educação. Qual a experiência política de Doria. Zero. Nem quer tê-la. Vai atuar baseado na crença de que sabendo gerir suas empresas, basta aplicar o mesmo método na administração pública da cidade.

Mas, Doria tem muito claro a que veio:

“Eu defendo o Estado mínimo, e vou fazer isso. A Prefeitura vai vender tudo aquilo que não for essencial para a gestão pública e a assistência à população que mais precisa. Vamos começar vendendo o estádio do Pacaembu, o autódromo de Interlagos e o parque de convenções do Anhembi. Numa mostra clara e definitiva de que o Estado não pode e não deve estar onde ele não é necessário. Quem deve administrar estes locais é o setor privado.” (Grifos meus.)

O Grupo Doria, como é conhecido, é o articulador da LIDE – Grupo de Líderes Empresariais.

“LIDE é uma organização de caráter privado, que reúne empresários em doze países e quatro continentes. O LIDE debate o fortalecimento da livre iniciativa do desenvolvimento econômico e social, assim como a defesa dos princípios éticos de governança corporativa no setor público e privado. Fundado no Brasil, em 2003, o LIDE é formado por líderes empresariais de corporações nacionais e internacionais, que promove a integração entre empresas, organizações e entidades privadas, por meio de programas de debates, fóruns e iniciativas de apoio à sustentabilidade, educação e responsabilidade social. O LIDE reúne lideranças que acreditam no fortalecimento da livre iniciativa no Brasil e no mundo.”

É um “bunker” em defesa das teses da livre iniciativa e do livre mercado. Seu “modelo de atuação política” é, como ele mesmo declarou recentemente, “Bloomberg”, o magnata também adepto do livre mercado que governou a cidade de Nova York por 12 anos. A LIDE organiza empresários para lutar em mais de 20 áreas. Um destes campos é a educação, comandada por Osmar Zogbi, que preside o Comitê. Empresário com 40 anos de experiência no Setor de Celulose e Papel, foi presidente da Ripasa e da Associação Brasileira de Celulose e Papel. Preside, atualmente, a EcoBrasil Florestas e a EAZ Participações.

Segundo consta em sua página, a LIDE Educação considera que:

“A educação é a principal via capaz de desenvolver potenciais, transformando-os em competências e habilidades para que o indivíduo possa viver, conviver, conhecer e produzir com sucesso na complexa sociedade do século 21.

E esta é a maior urgência de nosso país: prover milhões de alunos com educação pública de qualidade para que possam aprender, passar de ano e ter sucesso na trajetória escolar e no seu projeto de vida.

Para ajudar a responder a essa urgência, formamos um grupo de líderes empresariais de organizações de origem, porte e setores bastante distintos e que, no seu conjunto, representam uma fração importante da economia nacional. Nossa resposta proativa ao desafio social brasileiro foi a opção de agir coletiva e estrategicamente, atuando em larga escala.

Isto porque, pela magnitude do desafio, só alcançaremos resultados efetivos se empresas que acreditam em um Brasil melhor e mais justo unirem seus ideais e recursos em favor da educação pública.”

 

Não tendo conhecimento na área da educação a LIDE Educação firmou uma “aliança” com o Instituto Airton Senna:

“A ideia de aliança social do LIDE Educação traduz o conceito de corresponsabilidade em que empresas, atuando em grupo, unindo esforços, assumem o compromisso pelo futuro do país, impactando mais crianças e mais jovens para transformar realidades inteiras. E somente por meio dessas alianças é que mudanças reais e em escala podem acontecer, saindo da esfera de ações pontuais para mudar redes de ensino de cidades e estados, alcançando amplas vitórias. (…)

Baseada nesses princípios foi concretizada a aliança entre a LIDE Educação e o Instituto Ayrton Senna.”

E continua:

“O LIDE Educação decidiu atacar os problemas da educação direto na fonte – ou seja, na rede de ensino fundamental -, e foi buscar inspiração na experiência de trabalho bem-sucedida do Instituto Ayrton Senna.”

O relatório de realizações do LIDE educação é o próprio relatório anual do Instituto Airton Senna. Na página do LIDE o mais recente é o de 2014. Pelo relatório, pode-se fazer uma ideia das propostas que serão feitas à rede paulista de educação.

Mas há também o programa de Doria para sua gestão.

“Promover foco no currículo e nas aprendizagens esperadas. Todas as diretrizes, programas e ações administrativas devem ser priorizadas, planejadas e acompanhadas a partir desse foco;

Estabelecer processos e parâmetros para acompanhamento e avaliação das aprendizagens, de forma que os gestores, equipes escolares e a sociedade possam realizar escolhas que favoreçam e ampliem o conhecimento, atribuindo a cada unidade escolar autonomia para definir a ação corretiva;

Criar a agência regulatória de convênios que reunirá os setores da sociedade para implementação, acompanhamento e avaliação da oferta de vagas para as crianças de 0 a 3 anos.

Criar programas de desenvolvimento de habilidades sócio-emocionais para os alunos da rede municipal de ensino.”

Entre outras ações propostas.

O foco é avaliação da aprendizagem associada ao conceito de “ação corretiva”. Mas o programa tem como objetivo implementar a privatização. A agência regulatória de convênios é a chave desta interpretação, começando com 0 a 3 anos. Ela vai intermediar a relação com Organizações Sociais.

E por aí… vai.

Sobre Luiz Carlos de Freitas

Professor da Universidade Estadual de Campinas - UNICAMP - (SP) Brasil.
Esse post foi publicado em Doria na Prefeitura de SP, Escolas Charters, Privatização, Vouchers. Bookmark o link permanente.

2 respostas para Doria e a privatização da educação paulistana

  1. Silvia disse:

    São os reformadores empresariais avançando cada vez mais,rumo à privatização da educação, e pior, com a aval da sociedade que ,”ingenuamente”da condições para tal feito,elegendo a elite empresarial, ignorando a ideologia meritrocrata enraizada nas vontades políticas de tais governantes.

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