Revogação da DCN da Formação?

Setores do governo comentam que as Diretrizes Curriculares Nacional da Formação de Professores serão revogadas. Luiz Dourado, artífice das DCNs, fez um excelente trabalho, recentemente, enquanto membro do Conselho Nacional de Educação, coordenando a sua produção. Foi um trabalho exaustivo em âmbito nacional, dialogando com as mais variadas vertentes da formação e com múltiplos envolvidos neste complexo processo. Tudo isso, agora, corre o risco de ser abandonado.

Era de se imaginar que a ida dos reformadores empresariais para o ministério levasse a esta decisão – como ocorreu com outras mais recentemente. É época de retrocesso. A nova equipe não tem nem condições (por não ser da área educacional) e nem interesse em estabelecer diálogos amplos com a área da educação. Veja ocaso da MP 746 do ensino médio, entre outras. De fato, nutre um escárnio pelos educadores, pois se consideram os possuidores da “sabedoria inequívoca” a respeito da condução da política educacional brasileira.

Os reformadores se portam assim em todos os lugares do mundo. É típico da reforma empresarial promover as reformas contra os profissionais da educação e não com estes profissionais. Esta é uma das razões pelas quais nunca funcionam. Pensam que a educação não melhora porque os governos não têm coragem para enfrentar o corporativismo dos educadores. E eles se propõe a isso. Quer deixar um reformador contente? Diga que ele está fazendo uma reforma autoritária, sem diálogo com a a área da educação. Sentem-se elogiados, pois são todos candidatos à canonização algum dia por terem dado esta contribuição à “salvação nacional”.

A versão de exportação, no entanto, fora dos círculos internos dos reformadores, é outra. Afirmam querer o diálogo com todos. Mas quem já dialogou com a equipe do MEC nos tempos de FHC sabe que a regra é: “ouvimos todos, sim, fazemos o que queremos, depois”. É apenas uma estratégia para esconder soluções já prontas – baseadas na “experiência internacional” – e conhecer as objeções da “oposição”. Vez  por outra, algo irrelevante ou que não comprometa a linha geral, é incorporado. Para que cedam, de fato, são necessários movimentos de contestação fortes.

Portanto,  a conduta do “Santíssimo Ministério”, está dentro do esperado.

Quando se aprovou a exigência de uma Base Nacional Comum para a Formação de Professores, já se vislumbrava que isso poderia ocorrer, na dependência de quem viesse a implementá-la. Ela não é necessariamente incompatível com as DCNs, no entanto, face às mudanças de orientação no Ministério, não só em relação ao que os novos ocupantes pensam ser uma Base Nacional Comum de Formação, mas também, as mudanças conceituais sobre o que seja formar um professor, deve-se aguardar por este desfecho, ora antecipado dentro do próprio governo.

Os reformadores guiam-se por uma visão pragmatista da formação de professores centrada na prática e, portanto, anti-formação teórica. É claro que as DCNs iriam incomodar. Trata-se, agora, de criar as bases para que a formação seja simplificada, aligeirada, pois o papel que reservam para o professor na sala de aula, cercado por sistemas on line e controles, não é outro senão uma versão aligeirada também. Para exercer este papel, não é preciso um professor qualificado teórica e praticamente.

Setores do governo também já pensam em retomar as escolas normais superiores como local de formação de professores, contribuindo para a retirada da formação do interior de Universidades e Faculdades.

O esforço do colega Luiz Dourado e de outros que trabalharam com ele, no entanto, não será perdido. O que foi feito por eles, servirá de base para que, no futuro, as DCNs voltem a ser referência para a retomada do real desenvolvimento da formação de professores no Brasil – depois que a tempestade passar. E ela passará, a despeito de que os produtores de tempestades sempre pensem que elas sejam eternas. A razão disso é que elas trazem, contraditoriamente, dentro de suas próprias reformas, as bases para a articulação e mobilização da resistência e da luta dos educadores. No máximo, estas tempestades conseguem atrasar a roda da história.

Sobre Luiz Carlos de Freitas

Professor da Universidade Estadual de Campinas - UNICAMP - (SP) Brasil.
Esse post foi publicado em Assuntos gerais, Avaliação de professores, Mendonça no Ministério, Meritocracia, Responsabilização/accountability e marcado . Guardar link permanente.

3 respostas para Revogação da DCN da Formação?

  1. Pingback: Revogação da DCN da Formação? – Blog do Carrano

  2. Everardo Paiva de Andrade disse:

    Deixo aqui a lembrança do poema “Sobre o fim da história”, de José Paulo Paes: que nossos filhos comecem bem a vida!

  3. Sonja Santos disse:

    me encoraja ler seus escritos….
    um beijo no coraçao…..

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s