TRUMP

O mundo capitalista que tem no “american way life” seu melhor representante, será administrado pela sua própria criatura: Donald Trump. Soa hipocrisia, por parte daqueles que defendem o “modo de vida americano”, que agora se insurjam contra seu melhor representante: um homem de negócios bem sucedido, individualista, ardiloso, sem escrúpulos – para citar algum dos atributos que orientam boa parte dos homens de negócio em sua trajetória para o sucesso na terra chamada “wall street”. Para saber como funciona este território, basta ver o filme O Lobo de Wall Street.

Uma das razões pelas quais Trump saiu vitorioso foi a timidez do debate conduzido por Hillary Clinton, sua indefinição política em relação às teses à esquerda de Trump. Pregou paz e amor para pessoas que estão perdendo o emprego (ou estão no sub-emprego) e que querem alguma ação concreta contra esta situação produzida pelos próprios magnatas para proteger suas taxas de acumulação de riqueza.

Basta comparar o discurso de Bernie Sanders, também democrata, e que perdeu a convenção para Hillary Clinton. Bernie teria uma maior definição que poderia ter sido uma âncora para os americanos falidos e desempregados, os que se sentiam os “abandonados do interior”, empobrecidos pela crise de hegemonia norte americana e a crise econômica interna onde a globalização – com a transferência de empresas americanas para locais de mão-de-obra mais barata – tem um lugar de destaque. Órfãos com o discurso de Hillary, viram em Trump seu melhor representante: magnata bem sucedido e que se colocou como o anti-político. Temos nossos representantes por aqui, também.

Na cabeça do povo americano ralado, é culpa do governo (e curiosamente não de magnatas como Trump) que as empresas tenham sido deslocadas para outros países à caça de mão-de-obra barra, tirando-lhes o emprego. O senso comum formado pela mídia sob as teses neoliberais, convenceu o povo sofrido que a fonte de seu sofrimento é o Estado e não os capitalistas que migraram as empresas para a China.

No entanto, eles se “esqueceram” de que, para os magnatas como Trump, passadas as eleições, estes serão devolvidos à sua condição de vencidos e não de vencedores. E é assim que serão tratados. A lógica de Trump é clara: “seja rico ou tente ser” – não há outra alternativa na vida.

A questão mais preocupante é que a direita, para resolver a crise contemporânea do capital, baixou os critérios para escolher seus representantes, face ao crescimento da esquerda. Até cafajestes como Trump merecem seu apoio. É um vale tudo. Sabemos também que ela não hesitará em apelar para a força, caso seus interesses estejam em risco. É isso que faz com que alguns temam por um renascimento do fascismo, já que as crises continuarão batendo no povo.

Nós temos o mesmo fenômeno por aqui. Igualmente estamos colocando a culpa da crise no Estado: corrupção, tamanho do Estado, gastos públicos, previdência, etc… Com isso, a população tem se convencido de que os políticos não conseguiram administrar bem o Estado e precisam de anti-políticos (Doria, Kalil, etc…). Assim, isentam exatamente seus algozes, os empresários, da responsabilidade pela crise. Se eles soubessem como funciona a agiotagem empresarial internacional promovida pelos magnatas, possivelmente se arrependeriam de seu voto. Cabe à esquerda explicar isso.

Sobre Luiz Carlos de Freitas

Professor da Universidade Estadual de Campinas - UNICAMP - (SP) Brasil.
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