Aprendendo com a matriz: programa de 7 bi fracassa

Não há atalhos para a boa educação. É o que Richard Kahlenberg da “The Century Foundation” mostra ao chamar a atenção para um estudo americano que acaba de ser divulgado: “School Improvement Grants: Implementation and Effectiveness”.  Publicado em janeiro, avalia as reformas conduzidas pela administração Obama (incluindo o Race to the Top). A amostra para a avaliação incluiu 22 estados e aproximadamente 60 distritos e quase 500 escolas. O programa desenvolvido por Obama gastou bilhões de dólares e os resultados divulgados neste estudo mostram que ele foi um fracasso. Segundo Kahlenberg:

“Quando a administração Obama chegou ao fim, lançou discretamente um estudo descobrindo que sua maior iniciativa na educação – um programa de 7 bilhões de dólares para melhorar drasticamente o desempenho das escolas em dificuldades – foi um fracasso. O investimento maciço do School Improvement Grant “não teve nenhum impacto significativo na matemática ou nas pontuações dos testes de leitura, nem na graduação do ensino médio, ou na matrícula em faculdade,” o estudo concluiu.”

Mas isso não é tudo, na esteira do fracasso e até valendo-se dele, Trump quer justificar colocar mais 20 bilhões de dólares em estratégias similares e igualmente fracassadas. A experiência americana mostra que quando a reforma empresarial (responsabilização, meritocracia e privatização) toma conta da educação, a responsabilização pelos resultados proclamada pelos reformadores deixa de ser, de fato, importante. Responsabilização só para a escola pública.

O programa de Obama requeria as seguintes práticas das escolas que não eram bem avaliadas nos testes:

• Transformação. Este modelo exigia que as escolas substituíssem o diretor, adotassem um sistema de avaliação do diretor e do professor que se responsabilizasse pelo crescimento do desempenho dos alunos como fator significativo, adotassem uma nova estrutura de governança, instituíssem reformas educacionais abrangentes, aumentassem o tempo de aprendizado, criassem escolas orientadas para a comunidade e flexibilidade operacional.

• Reorganização. Este modelo exigia que as escolas substituíssem o diretor, substituíssem pelo menos 50% do pessoal da escola, instituíssem reformas educacionais abrangentes, aumentassem o tempo de aprendizado, criassem escolas voltadas para a comunidade e tivessem flexibilidade operacional.

• Reinicio. Este modelo exigia que as escolas se convertessem a uma escola charter ou fechassem e reabrissem sob a gestão de uma organização de gestão charter ou organização de gestão de educação.

• Fechamento da escola. Esse modelo exigia que os distritos fechassem escolas e inscrevessem seus alunos em escolas de melhor desempenho dentro do distrito.

“As principais conclusões do estudo foram:

• Embora as escolas que implementaram modelos financiados pelo SIG relataram usar mais práticas promovidas pelo SIG do que outras escolas, não encontramos nenhuma evidência de que o SIG tenha levado essas escolas a implementar de fato mais práticas. Nossa análise descritiva descobriu que as escolas que implementaram um modelo financiado pelo SIG usaram significativamente mais práticas promovidas pelo SIG do que outras escolas (22,8 das 35 práticas examinadas [65 por cento] versus 20,3 práticas [58 por cento], uma diferença de 2,5 práticas). Nossa análise mais rigorosa de RDD encontrou uma diferença semelhante de 3,3 práticas, mas não foi estatisticamente significativa. Portanto, não podemos concluir que o SIG causou a diferença observada no uso de práticas.

• Em todas as escolas do estudo, o uso de práticas promovidas pelo SIG foi maior em estratégias abrangentes de reforma instrucional e menor em flexibilidade operacional e apoio. Na área abrangente de estratégias de reforma instrucional, as escolas de estudo relataram usar, em média, 7,1 das 8 práticas promovidas pelo SIG examinadas (89 por cento). Na área de flexibilidade operacional e apoio, as escolas de estudo relataram usar, em média, 0,87 das 2 práticas promovidas pelo SIG das examinadas (43%).

• Não houve diferenças significativas no uso de práticas focadas em Estudantes do  Idioma Inglês (ELL) entre as escolas que implementam um modelo financiado pelo SIG e outras escolas.

• Em geral, em todos os graus, descobrimos que a implementação de qualquer modelo financiado pelo SIG não teve impactos significativos nas pontuações dos testes de matemática ou leitura, nem na graduação no ensino médio ou na matrícula em faculdade.

• Quando comparamos os ganhos de desempenho de alunos de diferentes modelos nas séries elementares (2ª a 5ª), não encontramos evidência de que um modelo estivesse associado a ganhos maiores do que outro. Para os graus superiores (6 a 12), o modelo de reorganização foi associado com maiores ganhos em matemática do que o modelo de transformação. No entanto, outros fatores além do modelo SIG implementado, como as diferenças de linha de base entre as escolas que implementam diferentes modelos, podem explicar essas diferenças nos ganhos de desempenho.”

Baixe o estudo aqui.

Segundo Richard Kahlenberg a estratégia de Obama voltada para reorganizar as escolas e finalmente transformá-las em charters não é o que pensa fazer Trump que quer a implantação de um programa de 20 bilhões que distribuirá recursos diretamente para que os estudantes de baixa renda estudando em escolas de baixo desempenho, possam mudar-se para uma escola diferente, mesmo que seja privada. O recurso ainda pode ser usado tanto em vouchers como em escolas charters. Trump não acredita na escola pública, por princípio.

Os adeptos da política de vouchers argumentam que estudos randomizados controlados mostram que distribuir vouchers para escolas privadas é mais promissor do que as estratégias usadas por Obama e que, ao final, os estudos mostram que há indicações de que os resultados dos estudantes não poderiam, de toda forma, ser piores do que os que têm em suas escolas públicas de origem. Mas há controvérsia.

“Mas outros discordam. Embora a abordagem de Duncan [Secretário de Educação de Obama] não tenha melhorado, um estudo sobre vouchers para escolas privadas em Louisiana sugeriu que a estratégia realmente levou a reduções no desempenho. Escrevendo no The New York Times, Harris Tulane observou que “os estudantes que participaram do programa de vouchers tiveram declínios nas pontuações dos testes de desempenho de 8 a 16 pontos percentuais.” Ohio também teve resultados negativos.”

Sobre Luiz Carlos de Freitas

Professor da Universidade Estadual de Campinas - UNICAMP - (SP) Brasil.
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