Privatização: o fracasso chileno

O NEPC acaba de divulgar um estudo sobre a educação no Chile mostrando o fracasso das políticas de reforma educacional baseadas nas teses empresariais da livre concorrência entre escolas como forma de aumentar a qualidade da educação.

O Chile é especialmente importante para o Brasil. Primeiro, porque está localizado na ambiência da América Latina, sendo nosso vizinho; segundo porque o experimento liberal iniciado com Pinochet foi planejado com ajuda dos pais contemporâneos do liberalismo, especialmente James McGill Buchanan, americano financiado pelos irmãos Koch, que são empresários do ramo da petroquímica, e que desenvolveu uma agenda para a nova direita. Tal agenda inclui a defesa da retirada do Estado da vida social, feita por Antonio Cabrera na Folha de São Paulo de 12-06-2018, propondo o fim do Ministério da Educação.

Monbiot, em artigo no Guardian, escreve que Buchanan ajudou a escrever a constituição chilena do ditador Augusto Pinochet e seus apontamentos foram todos aprovados.

Buchanan foi influenciado por F. A. Hayek, austríaco naturalizado na Inglaterra, que por sua vez teve como mentor o liberal Ludwig Von Mises. Hayek visitou o Chile durante a ditadura de Pinochet e em carta ao The Times afirmou não ter conhecido nenhum chileno que houvesse dito que sob Pinochet havia menos liberdade do que sob Allende, o presidente derrubado pelo sangrento golpe militar de Pinochet. Para Hayek a democracia é um meio e não um fim. Ele também esteve três vezes no Brasil durante a ditadura militar.

Ambos faziam parte de um grupo liberal radical (no sentido de que estavam empenhados na recuperação da filosofia do liberalismo clássico) que estiveram na base do que chamamos hoje de neoliberalismo.

Segundo Monbiot, Buchanan teve seu poder ampliado quando:

“Charles Koch, hoje o sétimo homem mais rico nos EUA, dicidiu que Buchanan tinha a chave para a transformação que desejava. Para Koch, mesmo ideólogos neoliberais como Milton Friedman e Alan Greenspan eram vendidos, já que tentavam aperfeiçoar a eficiência dos governos, ao invés de destruí-los de uma vez. Buchanan era o realmente radical.”

Leia mais aqui.

O livro de N. MacLean, a que faz referência Monbiot, pode ser encontrado aqui.

Foi neste ambiente ditatorial que nasceu a experiência nacional de uso de vouchers no Chile, para financiar com dinheiro público escolas particulares, dando dinheiro diretamente aos pais e permitindo que eles definissem a escola de seus filhos matriculando-os em uma escola pública ou particular.

Além do estudo que agora publica o NEPC, uma série de outros relatórios têm apontado o fracasso dos vouchers dentro dos Estados Unidos também e podem ser acessados na página “Links e Relatórios”, neste blog.

BOULDER, CO (7 de junho de 2018) – O governo Trump está apoiando ativamente os vouchers para financiar as escolas particulares, e alguns governos estaduais seguiram o exemplo. O principal objetivo desses programas de escolha é expandir as alternativas para escolas públicas, especialmente para alunos que não têm acesso a uma educação de qualidade. Além disso, sustentam os partidários, tal competição motivará a melhoria nas escolas públicas. Em contraste, os oponentes afirmam que, ao retirar dinheiro das escolas públicas, os vouchers e a privatização vão exacerbar as desigualdades, beneficiar poucos e deixar muitos estudantes para trás.

Para ajudar a informar essas questões, o National Education Policy Center divulgou hoje um estudo: “O que poderia acontecer se os vouchers escolares e a privatização das escolas se tornassem universais nos EUA: aprendendo com um experimento nacional – Chile”, escrito por Ernesto Treviño, Rick Mintrop, Cristóbal Villalobos e Miguel Órdenes.

Experimentos com vouchers ainda são relativamente periféricos nos EUA, onde a grande maioria dos estudantes frequenta escolas públicas. Nesse sentido, os autores deste novo resumo se voltam para a experiência do voucher universal no Chile, a fim de explorar o que poderia acontecer se os vales se tornassem características universais da educação financiada por fundos públicos americanos. Analisando a experiência do Chile, uma política fracassada que também provocou vários resultados prejudiciais, podemos imaginar o que poderia acontecer se os EUA tomassem o caminho da privatização universal e dos vouchers.

Baixe o estudo “O que pode acontecer se os vouchers escolares e a privatização das escolas se tornassem universais nos EUA: aprendendo com um experimento nacional – Chile”, preparado por Ernesto Treviño, Rick Mintrop, Cristóbal Villalobos e Miguel Órdenes.

Sobre Luiz Carlos de Freitas

Professor aposentado da Faculdade de Educação da Universidade Estadual de Campinas - UNICAMP - (SP) Brasil.
Esse post foi publicado em Links para pesquisas, Meritocracia, Responsabilização/accountability, Vouchers e marcado , , , , , . Guardar link permanente.

Uma resposta para Privatização: o fracasso chileno

  1. Ivan Oliveira disse:

    Gostaria de aqui agradecer pelas excelentes publicações deste blog. Todos os posts são ricamente fundamentados e de grande relevância para quem se interessa pelas questões da educação. Por isso, muito obrigado professor pelo empenho e espero que continue com o belo trabalho de nos informar tão bem.

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