BNCC: quem pediu a opinião do INEP?

Saíram, em parte, os resultados do Sistema de Avaliação da Educação Básica Brasileira – SAEB – vulgo Prova Brasil. Sobre isso voltaremos oportunamente. Mas, o que chama a atenção, neste momento, é outro ponto. Não bastasse a recente censura a pesquisadores do INEP que apresentavam propostas mais avançadas do que as praticadas atualmente, agora o INEP, um órgão que deveria ser de Estado, passa a ser apêndice de divulgação das políticas de governo. Novamente a credibilidade do órgão é atingida.

Não temos relatório decente sobre os resultados do SAEB de longa data. O que temos nestes momentos é um “press release” que a direção do INEP prepara para o Ministro da Educação divulgar ante a imprensa. Chamo de relatório decente a divulgação do NAEP americano, por exemplo.

Desta vez, avançaram o sinal. O “press release” vergonhosamente assume a Base Nacional Comum Curricular do Ensino Médio (e por tabela, assume a Reforma do Ensino Médio) que é um assunto que não tem nenhuma relação com o trabalho específico do INEP – um órgão que deve ser imparcialmente dedicado à avaliação da educação nacional – principalmente depois que foi convertido em central de avaliação.

No “press release” pode-se ler em tom panfletário:

“As evidências demonstram que o EM tem agregado muito pouco ao desenvolvimento cognitivo dos estudantes brasileiros, em média.

A baixa qualidade, em média, do Ensino Médio brasileiro prejudica a formação dos estudantes para o mundo do trabalho e, consequentemente, atrasa o desenvolvimento social e econômico do Brasil.

A BNCC para toda a educação básica é uma medida importante para reduzir as desigualdades educacionais. Na Educação Infantil e no EF, estados e municípios já estão revendo os seus currículos (primeira etapa da implementação). Para completar o ciclo, a aprovação da BNCC para o Ensino Médio é urgente e necessária uma vez que é um passo importante para essa mudança.”

Tudo parece ter sido feito para direcionar a imprensa nacional a associar o desempenho do ensino médio brasileiro, medido no SAEB, à “solução” do problema: a implantação da Base Nacional Comum Curricular deste nível de ensino e sua reforma.

O Ministro da Educação foi na mesma direção em sua entrevista dizendo que o ensino médio brasileiro está falido, mas que a solução já está a caminho. Surpreendentemente, ao contrário da catástrofe global da educação brasileira anunciada anteriormente pelo ex-ministro Mendonça Filho, agora temos apenas uma catástrofe no ensino médio. Já melhorou.

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About Luiz Carlos de Freitas

Professor aposentado da Faculdade de Educação da Universidade Estadual de Campinas - UNICAMP - (SP) Brasil.
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3 Responses to BNCC: quem pediu a opinião do INEP?

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  2. Sem contar o fato de o MEC ter excluido os dados da educação profissional integrada ao ensino médio, contrário ao que havia anunciado ano passado. Que (des)organização deixa de cumprir suas próprias decisões e se utiliza da estatística educacional para panfletar sobre uma proposta de reforma que deseja enfiar goela abaixo de professores e estudantes, com os quais se nega a dialogar?

  3. Avatar de Inês Aparecida Pieretti Inês Aparecida Pieretti disse:

    O que ocorre é a grande falta de interesse do aluno em aprender.
    Sou professora da Educação Básica, estudamos, preparamos, recebemos alunos com TOD, TDAH, TOC, DOWN entre outros e temos que trabalhar na equidade. Quando chegam as avaliações são avaliados na igualdade. Que educação estão buscando?
    Que resultado teremos, se algumas crianças por falta de medicação e laudos não podem ter um auxiliar?
    Tenho 32 alunos do 4º ano. Um tem TOD e TOC, outro TOD, uma convulsivo que só consegue fazer as atividades caso tenha alguém ao lado, e ainda mais 4 com déficit de atenção. Alguns pais negligentes não médicam e muito menos se convencem de que o filho precisa de ajuda. Na Educação Básica, conseguimos ter um olhar diferenciado, mas o ensino médio é completamente diferente….. 50 minutos de tortura ao professor, caso tenha um aluno com os problemas cidatos que não estejam medicados. O Ensino Médio não precisa de crítica e sim de um “novo olhar”.

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