Denuncismo: hora da paciência histórica

O denuncismo como foma de impedir o pensamento crítico sempre foi aliado de ditaduras. Este tipo de denuncismo coloca o denunciante em uma condição degradante. Na minha infância, o “alcagueta”, como era chamado quem denunciava, era visto como um ser desprezível, sem espinha dorsal. Era alguém a ser evitado. Denunciar para impedir o outro de pensar sempre foi um procedimento covarde, pois ao invés de promover o diálogo honesto e franco, impõe o seu silenciamento recorrendo a algum elemento repressor (pais, chefes, autoridades etc.).

Os pais deveriam pensar muito, antes de estimular seus filhos a entrar na fila dos delatores: eles dificilmente conseguirão se justificar perante seus próprios pares e carregarão para sempre esta condição. A escola não pode deixar de refletir sobre esta questão que afeta a formação e o bem-estar psicológico das crianças e jovens. Até mesmo quem se preocupa com a produtividade em ambiente de trabalho, nas empresas, vê com reservas o denuncismo: ele prejudica o relacionamento da equipe e reduz a produtividade. Uma sociedade não pode ter como objetivo formar alcaguetas: neste sentido, discordo do presidente eleito – não há nenhum orgulho nisso.

Em tempos de denuncismo, é hora da paciência histórica. Não devemos fazer enfrentamento ao alcagueta, principalmente se você está em uma sala de aula ou no interior de uma escola. Estes espaços não são destinados a enfrentamentos, mas sim a aprendizagens.

É importante manter o foco na tarefa formativa da escola. Do ponto de vista pedagógico, todos os jovens devem ser acolhidos – inclusive os alcaguetas. Devem ser um acontecimento educativo para ele e para os demais. A escola é uma instituição formadora. É preciso que o vejamos como alguém que precisa, primeiro, aprender sobre democracia e convivência social – não importando qual sejam os conceitos ou pré-conceitos que ele tenha. Não é o conteúdo de sua objeção que deve incomodar, mas o processo que ele usa.

Estas eleições mostraram que a precária e limitada democracia liberal parece que não foi sequer aprendida ainda. A ascensão de Bolsonaro deve ser uma boa oportunidade para que ensinemos aos jovens a democracia liberal. Se nem esta a juventude aprender, dirá então outras mais exigentes. E essa constatação é também uma crítica à atual forma de organizarmos nossa escola e à atual forma que boa parte de nossos professores têm em sua relação professor-aluno – contraditoriamente, uma relação que o bolsonarismo deixará mais autoritária ainda nas escolas. Mostrei em posts anteriores como a democracia liberal está sendo atacada pela aliança do liberalismo econômico com o autoritarismo social.

Ao considerarmos a sala de aula um espaço em que a “autoridade” é do professor, somos levados ao enfrentamento quando lidamos com o denuncismo. Tenho ouvido diálogos mostrando estes confrontos em sala de aula e é gritante como o professor ou a professora se equivocam ao “dar combate” desde uma posição de “autoridade” no interior da sala de aula, ao invés de envolver os demais estudantes, por exemplo.

Devemos aproveitar as dificuldades com a prática da democracia para colocá-la na ordem do dia nas escolas e salas de aula, em substituição a uma posição autoritária inclusive na relação professor-aluno. Isso implica em aceitar que os estudantes tenham maior protagonismo nas relações e tenham possibilidade de se auto-organizar. A onda que vem por aí aponta para o oposto e se deixarmos que as escolas formem pessoas autoritárias, mais difícil será defendermos a democracia dentro delas e nos processos sociais.

O fato das pessoas estarem flertando com posições autoritárias e elegendo teses como as defendidas por Bolsonaro, indica que pode ser que não fizemos um bom trabalho ao ensinar (e vivenciar) democracia nas nossas escolas, de forma que os jovens pudessem adotá-la como linha de base social.

A prática do denuncismo é autoritária. Quem denuncia está convicto de certas teses inabaláveis, fundamentalistas, e assumiu a tarefa de impô-las. Neste sentido, o denuncismo é profundamente anti-democrático, pois irrompe em um determinado momento para intimidar e fazer com que suas teses prevaleçam pelo silêncio e obediência. Os alcaguetas não discutem com os próprios pares e, neste sentido, acabam sendo autoritários não apenas com o professor, mas com seus próprios colegas de turma. Subestimam a capacidade dos colegas. Esta característica é uma oportunidade para ilustrar a falta de democracia e torná-la um momento para reflexão para todos os alunos.

Em situações como estas, penso que o professor deve sempre envolver os demais estudantes no processo, evitando a polarização. Serve para que todos aprimorem seu entendimento de democracia. Ao invés de discutir diretamente com o “denunciante”, deve-se indagar o que pensam os demais alunos sobre o questionamento feito por ele – pensando em criar condições para que se debata a necessidade de atuarmos democraticamente. O que pensa a maioria da classe? Concorda com os argumentos da denúncia? Acha que devem ficar sem discutir um determinado conteúdo? O que dizem as diretrizes curriculares? O que dizem os juristas sobre o cerceamento ao debate? Por que denunciar ao invés de debater com todos? O que significa impor ao professor (e aos demais estudantes) uma decisão pessoal a partir de uma autoridade externa à sala de aula, ou à escola? Tudo isso deve ser pautado como estudo para a turma, com finalidade educativa, de maneria transparente e aberta.

Fora da sala de aula, as escolas, como instituições sociais, precisam também ser chamadas a se posicionar. O que pensa a direção sobre tais demandas do denunciante? E os outros colegas? Há uma posição já tomada pela instituição?

E os pais, o que pensam? A escola já promoveu reuniões com os pais para debater tais situações. Todos os pais pensam?

E fundamental ampliar o debate chamando todos os atores a se manifestar e evitando que o professor se isole em sua sala de aula, enfrentando sozinho a onda de denuncismo – típica de ditaduras. Formar jovens implica em correr riscos e às vezes temos que ousar – os estudantes saberão valorizar.

Todas estas situações podem constituir-se em excelentes momentos de debate que estabeleçam padrões institucionais democráticos para se lidar com tais questionamentos e posicionamentos – com respeito, mas sem abrir mão do processo democrático.  Ao invés de enfrentamento, promover a abertura da questão aos demais alunos, professores, gestores e pais com o objetivo de se criar referências para a comunidade, reagir à quebra da democracia e do direito dos estudantes se formarem criticamente.

Vamos ter que pautar nas escolas a aprendizagem das regras da democracia e seu exercício. Até a Base Nacional Comum Curricular defende que a formação do estudante deva permitir a ele “tomar decisões com base em princípios éticos, democráticos, inclusivos, sustentáveis e solidários” (Responsabilidade e Cidadania). O denuncismo é ético? É democrático, inclusivo, sustentável e solidário?

Portanto, é preciso “absorver o impacto” do denuncismo e do autoritarismo recorrendo à própria lógica da democracia e de suas instituições, mesmo que limitadas, e ampliando o envolvimento de todos os atores. Eis uma forma de resistência institucional. Ter paciência histórica, não significa não fazer nada.

Sobre Luiz Carlos de Freitas

Professor aposentado da Faculdade de Educação da Universidade Estadual de Campinas - UNICAMP - (SP) Brasil.
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