Ensinar para o teste não é educar

A educação, como processo formativo, está sendo reduzida a aprendizagem nas teses dos reformadores empresariais. Não sabendo como lidar com a educação (uma relação ampla entre educandos e educadores) eles a reduziram a aprendizagem (um resultado do aluno, medido pelo seu desempenho em testes de habilidades e competências). Com esta redução, a noção de qualidade fica igualmente reduzida à pontuação que o aluno obtém. Toda a complexidade e riqueza da ação educativa desaparece e com isso, as soluções mágicas e as receitas, tomam lugar da boa educação. Ela pode ser terceirizada, ou como os liberais gostam de dizer “desestatizada”.

Uma vez eliminada a complexidade do fenômeno educativo, é fácil estabelecer que se a média do aluno sobe, temos boa educação. Igualmente, se ela desce, temos má educação. Essa simplificação é uma ação fundamental para viabilizar a privatização por terceirização de gestão das escolas.

A privatização da educação via transferência de gestão para a iniciativa privada, no modelo escolas charters americano, é uma modalidade de privatização via contrato de gestão. Para evitar chamar de privatização, algo que politicamente não convém, constrói-se uma nova “interpretação” do que é considerado “público”. Entende-se por “pública”, em contraposição a “estatal”, uma escola que seja administrada por uma terceirizada, reservando-se a denominação de escola pública regular, que temos hoje, para a categoria “estatal”.

Para poder “terceirizar” é preciso que se estabeleçam metas e “regulação”. Os privatistas brasileiros consideram que o segredo está na “boa regulação”. Para eles, quando a privatização não vai bem é falha da regulação e não do conceito. Pensam que poderão fazer, no Brasil, uma regulação melhor do que foi feita nos Estados Unidos, Suécia, Chile etc. Eles farão melhor. Será a versão 3.0. É questão de fé ideológica.

É aí que jogam papel relevante duas iniciativas – IDEB e BNC – mencionadas acima. Sem elas, não há “objetividade” na contratação. Uma fixa quanto o IDEB tem que estar ao final do contrato de gestão em um determinado ano, e a outra estabelece o que é obrigatório para a terceirizada ensinar e avaliar em cada ano escolar.

Quando assumem uma rede, as Organizações Sociais contratam seus profissionais para a escola via CLT, sem estabilidade portanto. Alinham o professor, os objetivos de ensino, os conteúdos, os métodos (apostilado) e os testes (com treinos em simulados) e passam a ensinar para obter índices e médias em testes, estreitando o ensino das crianças em duas dimensões: primeiro estreitam a educação restringindo a atenção da escola às disciplinas que caem nos testes e depois, aos conteúdos e habilidades que são incluídos nos itens dos testes, e a tradição de testes anteriores se constitui em uma tradição de exame que orienta o que se ensina. Quem passou por cursinho sabe como funciona.

O que mais entusiasma os gestores do PSDB e outros é que, ao terceirizar, eles fazem um “contrato de índices a serem obtidos” e esperam dormir tranquilos aguardando os resultados. Não correm riscos com a lei de responsabilidade fiscal, pois os gastos com terceirizadas não entram no cômputo desta lei. E nem com a da responsabilidade educacional.

É, no entanto, o maior atestado de incompetência administrativa. Não tendo competência para educar a juventude, resolveram estreitar a educação através de uma BNC conteudista e fixa, e apostar no ensino para o teste. Alinham o conteúdo ao teste, treinam as crianças como se fosse um cursinho preparatório e “batem a meta”. De quebra se apresentam à sociedade como “competentes”, pois aumentaram a média dos índices.

A questão é que aumentar médias em provas restritas em que os alunos respondem fazendo “x”, não é sinônimo de boa educação. É mero treino para o teste.  E ensinar para o teste, não é educar. Quanto mais rapidamente professores, pais, estudantes e gestores se derem conta deste engodo que está sendo vendido pelos políticos ao povo brasileiro, mais rapidamente superaremos esta farsa que se instala na nossa educação – como de resto acontece em vários outros espaços da vida nacional.

Sobre Luiz Carlos de Freitas

Professor da Universidade Estadual de Campinas - UNICAMP - (SP) Brasil.
Esse post foi publicado em Estreitamento Curricular, Meritocracia, Responsabilização/accountability e marcado . Guardar link permanente.

12 respostas para Ensinar para o teste não é educar

  1. paulo césar de almeida raboni disse:

    Talvez seja um comentário grotesco, simplista, ingênuo: se uma empresa vai ficar entre o governo (que destina os recursos) e os professores (que recebem parte deles em seus salários), e se a empresa vai ganhar (óbvio!) então vai chegar menos dinheiro para os professores. Como é que alguém pensa que isso pode dar certo? Essa é só uma parte do problema. Bons professores estão fugindo atrás de melhores salários. Bons alunos das licenciaturas migram para outras carreiras. Agora, se o estado quiser mesmo melhorar a educação, destine os recursos, afaste-se das prescrições curriculares, perceba o que está ocorrendo nas escolas que foram ocupadas. A solução é por ali. O próprio currículo “novo” de SP diz isso, nas palavras do seu nobre ex-secretário: “formar alunos protagonistas da história”.

  2. A questão aqui é dar certo para quem. Vai dar certo para as operadoras privadas de escolas charters. Trata-se de criar mercado e não de educar. Quando pior a escola pública de gestão pública se sair, mais eles argumentarão que a solução é privatizar. Cria-se mercado diminuindo a qualidade da escola pública para justificar sua privatização. É como estrada: deixa-se esburacar para depois justificar privatizar a estrada. O usuário da estrada até gosta, pois o buraco sumiu.

    • paulo césar de almeida raboni disse:

      Estou de acordo prof. Luiz Carlos. Isso já foi feito num passado recente com as telefonicas, com as distribuidoras de energia elétrica, com pontes e estradas. É o mesmo procedimento, e feito pelo mesmo grupo que implantou no Brasil as idéias que já estavam dando errado (certo para eles!) nos EUA de Reagan e na Inglaterra de M. Thatcher.

  3. Marlon disse:

    Maravilhoso artigo! Estamos treinando estudantes para provas de caráter duvidosos..elitistas.. achei ótimo o título deste artigo! Enfático! Vou usá-lo para debater com os meus colegas professores no ATCP. Por favor retire essa neve caindo pela página (bolinhas brancas), elas incomodam o leitor.

  4. Remo Bastos disse:

    Muito triste constatar para onde caminha a educação pública em nosso país. Nos EUA, a adoção desse modelo educacional está tendo consequências catastróficas tanto para a sociedade, como um todo (gritantes níveis de desigualdade educacional (gap) inter étnico e socioeconômico), como para a sociabilidade (injustiça social exacerbando os já gritantes níveis de criminalidade, com a maior população carcerária do mundo) e até mesmo a própria economia da nação. Pois é esse fracassado modelo, imediatista, mercantilizante e adestrador, intrinsecamente divorciado das mais básicas necessidades pedagógicas e de desenvolvimento humano e social do corpo discente, que está sendo promovido aqui, em nosso país, pelos reformadores empresariais, com forte apoio do governo federal e da maioria dos estaduais.

    Precisamos agir com firmeza, rapidez e obstinação, em defesa da educação pública brasileira, antes que seja tarde demais. O futuro nos cobrará por nossa pusilanimidade.

  5. ailza Freitas disse:

    Excelente texto. Como alguns outros do autor que li recentemente.
    Concordo com as colocações. E lamento com o rumo que a educação vem tomando.

  6. Boa tarde Professor. Aqui no Estado do Rio de Janeiro, durante os dois mandatos de Cabral e agora com o Pezão as políticas educacionais foram implementadas nas direções que você aponta. Meritocracia para os professores e exames periódicos para os alunos. O pior é que os exames são feitos e organizados por uma instituição educacional pública e federal, a Universidade Federal de Juiz de Fora. Resultados dos alunos formam a base para a meritocracia dos professores. O resultado? Uma lástima. Para esse governo os professores são os culpados. E tome convênios com fundações que interferem na autonomia das escolas. Ayrton Senna, por exemplo, é uma delas. Deve ser por isso que o nosso Estado está falido (?), os professores receberam ZERO % de reajuste salarial em 2015 e estão sem a parte final do 13º salário. A educação pública é o filé que essas fundações e organizações querem colocar no próprio prato. Tudo isso, naturalmente, às custas do professorado.

  7. Não discordemos, mas questionemos sem polemizar: “E qual seria então processo educacional ideal (sem fazer inferências a procedimentos escusos de partidos políticos)? No meu incipiente alcance, enquanto leigo, o que nos restou na Educação foi um amontoado de inutilidades, decorrente e imposto pela jactância acadêmica que emana dos gabinetes dos que gerem a Educação do País. Muitos sequer sabem o que é uma sala de aula. Insisto em repetir que cerca 50% dos conteúdos das grades curriculares são puro lixo, perfeitamente descartáveis e que se repensados, eliminados, trariam o efetivo aprimoramento educacional! Um aglomerado de detalhamentos prolixos, promíscuos, complexos e de difícil assimilação que apenas dificultam o aprendizado verdadeiramente. E ai acontece o pior: Desestímulo do educando! Como fazer o que não somos estimulados a praticar, gostar? Falta um conscientizar de que a Escola é a porta de todas as profissões e da vida e que paralelamente às diversões, é imprescindível. São tantas inutilidades que não estimulam, apenas cansam os discentes. Acrescente-se a isso a prevalência do interesse mercantilista das escolas particulares e editoras que se sobrepõe ao fundamento essencial que seria o preparar para a vida através de um processo de conscientização e aprioramento cidadão. Uma das grandes falhas nessa área é que não se deveria promover apenas e tão somente para incrementar as estatísticas. É um crime imperdoável! Reprovem sim!, sem peso na consciência os relapsos e os que não têm competência para se promover. É uma forma de mostrar que sem esforço não alcançaremos o que pretendemos (cidadania) e isto ocorre em todos os espaços da nossa atribulada vida. Tentemos, através de uma conscientização simultânea de alunos e pais, se possível conjuntamente, no sentido de deixa-los conscientes do quão importante é a Educação para sua formação não só técnica como também de caráter, cidadã.
    Paralelamente considere-se que, por decorrência da precarização da nossa combalida economia, os casais são forçados a trabalhar e se eximem de determinadas responsabilidades paternas descarregando (isto mesmo!) os filhos, muitos dos quais rebeldes, na Escola. E ai consiste um dos grandes erros da nossa Educação. Os professores, em alguns casos até despreparados para compartilhar conhecimentos, é ainda mais sobrecarregado de responsabilidades outras para as quais não estão preparados. Há um brutal desvirtuamento de suas funções. Cada escola deveria ter um psicólogo ou alguém da área capacitado para lidar com os casos de eventuais desvios comportamentais. A carga imposta ao professor é perversa. Salas com superlotações (30, 40, 50 alunos). E não falemos de que já percebem salários aviltantes, mesmo os que com formação superior. É difícil e precisa de um repensar global ou então continuaremos sem melhores perspectivas na área educacional.” (É como penso…)

  8. Daltron disse:

    É tão verdadeira essa tese que os indicadores permanecem próximo de onde estão desde quando foram inventados. E permanecerão próximos de onde estão enquanto existirem. É só engodo para justificar as canetadas.

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