MEC: a “escolha”

Bolsonaro, como a realidade demonstrou, perdeu a oportunidade de conciliar-se com a direita liberal (incluindo a social-democracia) ao recusar o nome de Mozart. Com isso,  interrompeu abruptamente toda uma política educacional que vinha sendo construída nos últimos anos desde Dilma ou até mesmo antes. A esta política costuma-se chamar de reforma empresarial da educação. Em seu lugar, o MEC de Bolsonaro colocou em prática a política do “retrovisor”, andando para trás.

Mozart poderia ter mantido a política da reforma e, hoje, o governo Bolsonaro estaria em uma situação política mais confortável – com o Todos pela Educação apoiando. Não teria que ler na Folha de hoje uma manchete sobre seu governo dizendo que é preciso “remover o entulho” do MEC. Nada mais correto, o nome certo é entulho mesmo – um pessoal que ainda está ressentido com a revolução francesa.

Parece que depois de amanhã, dia 8-4-19, haverá outra janela de oportunidade para Bolsonaro fazer as pazes com os liberais. Os jornais arriscam dizer que ele trocará o atual ministro. A questão parece ser quem colocar no lugar.

Tenho dúvidas se aproveitará a nova janela indicando Mozart ou mesmo qualquer outro liberal do âmbito da educação. A visão do governo, ainda é a de que o MEC é um órgão importante do ponto de vista ideológico e, por outro lado, que tanto ele como a própria Educação brasileira estão aparelhados pelo marxismo cultural – um conceito amplo que inclui tudo aquilo que é diferente do que o conservadorismo pensa. Isso faz com que o futuro ministro tenha que estar comprometido com esta agenda conservadora e ele terá dificuldades para encontrar lideranças liberais competentes na área da educação para levar isso adiante, o que o obrigará a valer-se novamente de militares, olavetes, evangélicos ou congêneres da tal “escola sem partido”.

Por isso, pode ser que não encontre liberais e tenha que apelar para mais do mesmo. Quem vai querer comandar um órgão complexo com uma verdadeira mixórdia de indicados para postos internos, com o aval de Olavo de Carvalho, milicos e demais? Quem vai aceitar ser ministro sem poder de nomear seus auxiliares? Portanto, a troca pode ser mais do mesmo, com o objetivo apenas de eliminar tropeços administrativos e adicionar mais gestão ao que já se viu.

Outra dificuldade para Bolsonaro achar um novo ocupante para o MEC é que o novo ministro terá que aceitar a privatização proposta por Guedes: a destruição do sistema público de educação por terceirização e vouchers.

Para nós que discordamos tanto da reforma empresarial como da política conservadora, tal situação incomoda, pois o sistema educacional brasileiro estará andando para trás com os conservadores, como já demonstrou Velez, ou permanecerá andando de lado  – com a reforma empresarial dos liberais. Não nos interessa um MEC que ande para trás ou de lado, como caranguejo.

De um jeito ou de outro, os próximos governos progressistas terão que reconstruir a educação pública brasileira. Infelizmente, a escolha será entre a “política do retrovisor” e a “política do caranguejo”.

Alguém poderia dizer que ainda é melhor andar de lado do que para trás. Infelizmente, isso não se aplica quando andar de lado significa a destruição da escola pública pela privatização.

Sobre Luiz Carlos de Freitas

Professor aposentado da Faculdade de Educação da Universidade Estadual de Campinas - UNICAMP - (SP) Brasil.
Esse post foi publicado em Assuntos gerais, Velez no Ministério e marcado , . Guardar link permanente.

4 respostas para MEC: a “escolha”

  1. Ivone Garcia Barbosa disse:

    Meu dedo bateu na tecla errada. São cinco estrelas… lastimável momento histórico

  2. Cláudia E. Silva disse:

    Foi exatamente essa a impressão que tive ao ouvir as palavras da deputada Tabata Amaral e a entrevista do Mozart Neves ao Roda VIva, tendo em vista o que vem ocorrendo na rede estadual paulista, onde, ao que parece, vamos continuar andando de lado.

  3. Andréa Fetzner disse:

    Adorei a definição “um pessoal que ainda está ressentido com a Revolução Francesa”. Eu avalio que, quando a administração tem o ideal destrutivo, tal qual afirmou o Bolsonaro no exterior, quanto pior estiver assessorada, mais dificuldade em promover a destruição que deseja e isso tornaria positivo deixar a turma do astrólogo lá. Ao mesmo tempo, não é admissível os ataques à escola democrática, mesmo que apresentados de forma tão tosca (enfileirar estudantes para cantar o hino e recitar lemas partidários) e facilmente combatidos e vencidos. O problema, nesta posição que expressei, é que estas práticas incompetentes, de forma recorrente e acompanhadas de discursos rasos, frágeis, ignóbeis, reforçam uma parcela da população brasileira que pensa exatamente assim, sem conhecimento, encharcada de preconceitos, inclusive contra si mesmo. Essas pessoas desqualificadas, colocadas nos holofotes, tal qual estão, formam escolas, seguidores, impulsionam a ignorância. Vê-los perder poder, cargos e voltarem a suas carreiras inexpressivas pode diminuir este impulsionamento da ignorância, mesmo que o inimigo venha a ser a transformação da educação em “mercadoria” (inimigo conhecido, inclusive).

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