Sobral e a desinformação na esquerda

O site “vermelho.org.br” tem por objetivo manter a esquerda bem informada e pretende combater o neoliberalismo, conforme se lê no seu facebook: “O Portal Vermelho é o galo da mídia alternativa, que trabalha para dissipar a treva neoliberal e prenunciar a alvorada dos povos” – diz. Tem feito, em geral um bom trabalho, mas em matéria de educação tem episódios recorrentes de desinformação quando se trata de Sobral (CE).

Nestes últimos anos, mais precisamente desde 2016, o site tem publicado matérias (ou republicado de outros meios de comunicação) que colocam a cidade de Sobral como um modelo de política para a educação brasileira. Não só o site tem feito isso, mas recentemente uma das lideranças do PCdoB, partido que tem conexão com o Portal Vermelho, mais precisamente Orlando Silva, visitou Sobral e voltou deslumbrado também com aquelas políticas. Orlando comemorou pelo Twitter e o próprio PCdoB também noticiou em seu Site oficial:

“Como nordestino, Orlando Silva disse que sente orgulho da região ao ouvir elogios à educação do Ceará. “Sempre que ouço isso fico imaginando o orgulho que vocês aqui no Ceará sentem ao ouvir isso também”, destacou.”

Leia aqui.

Sobral é área política dos Gomes (Ciro e Cid e, antes, o pai). Na cidade estão aliados com o PT. Trata-se de uma aliança com a participação de José Clodoveu de Arruda Coelho Neto ou simplesmente “Veveu”, professor e advogado, e que acompanhou, no período de 1997 até 2016 a implantação da política educacional de Sobral como Secretário Municipal e também como Vice-Prefeito. Veveu criou também uma ONG que atua em 14 Estados para difundir a política educacional de Sobral, chamada “Associação Bem Comum”.

Leia mais aqui.

A Associação atua, basicamente, segundo seu site, a partir de dois programas: um denominado “Educar pra Valer” em parceria com a Fundação Lemann, que presta “assessoria técnica gratuita aos municípios partícipes” na implementação “de boas práticas de gestão”. Um segundo programa denominado Parceria pela Alfabetização em Regime de Colaboração criado pela Associação para “apoiar o poder público estadual no desenho e implementação de uma política de melhoria da aprendizagem nos anos iniciais do ensino fundamental, com ênfase na alfabetização.”

A mais recente divulgação sobre Sobral no Portal Vermelho é a tradução de um artigo sobre as maravilhas das políticas de Sobral publicado pelo The Economist – o porta voz do neoliberalismo – com o título: “O que o Ceará pode ensinar ao mundo sobre educação”.

Leia aqui, aqui ou aqui.

Não é esta a primeira vez que o Vermelho louva Sobral e suas políticas educacionais neoliberais (veja aqui, aqui, aqui e aqui) – mesmo se propondo, teoricamente, a “dissipar a treva neoliberal e prenunciar a alvorada dos povos”.

Sim, porque as políticas “sobralinas” não nasceram no Ceará e são as mesmas adotadas em outros países que vivem desde os anos 80 e 90 o neoliberalismo – incluindo o Chile que acaba de se propor a dar um basta nestas políticas (veja aqui) com o novo presidente eleito.

A única diferença, por enquanto, é que não se nota em Sobral o veio da privatização explícita via contratos ou vouchers. Mas isso não surpreende, pois na ordem de implementação das políticas neoliberais para a educação, contratos e vouchers são projetos que nem sempre aparecem no início e só têm lugar depois que as redes receberam, via ONGs e Fundações as políticas endógenas de privatização via ênfase na avaliação, materiais didáticos, estreitamento curricular para português e matemática, bônus por mérito, sem contar a preparação ideológica para eles.

As políticas neoliberais começam por onde começou Sobral. A ênfase dos reformadores empresariais e da mídia nesta cidade é para criar “uma evidência empírica” de mão única e nos termos que eles estipulam, sem considerar o contraditório – querem emplacar uma espécie de “efeito demonstração” – com o que o Portal Vermelho contribui no âmbito da esquerda fornecendo legitimação.

Aqui no Brasil, a cada certo tempo, a mídia desenterra Sobral para exibí-la como um facho de luz a ser seguido pela educação brasileira. O sub-texto é mostrar que as políticas de responsabilização baseadas em testes frequentes, seguidos por pagamento de professores por bônus, funcionam. Como diz Orlando Silva, Sobral prova que melhorar a educação “é simples”.

Marcos de Aguiar Villas-Bôas resolveu conferir o milagre Sobral de perto e informou no Jornal GGN o que encontrou. Nas palavras dele:

Sobral se destaca por ter, de fato, realizado medidas administrativas boas, mas também por ter manipulado engenhosamente o Ideb, o que testemunham diversos educadores do própria sistema público do município e ligado a eles.

No caso da aprovação, por exemplo, diferentes professores contam que alunos bons do mesmo ou de outros anos são postos para fazer provas de alunos ruins ou doentes ou detentos, por orientação de alguns professores, que recebem, como renda variável, em torno de 500 reais a mais no salário quando a nota no Ideb é boa. Casos em que alunos recebem notas maiores do que realmente tiraram, a título de “motivação”, também são corriqueiros, conforme reforçam alguns pais de alunos, que ouviram isso em reunião entre professores, pais e alunos.

Uns acham que a Secretaria Municipal de Educação não sabe, outros acham que ela finge que não sabe desses fatos. Se este autor os descobriu em apenas três meses de pesquisa, a Prefeitura de Sobral, comandada pelo mesmo grupo há 20 anos, deveria ter conhecimento.

O autor ainda afirma que:

Quanto ao aprendizado, também há manipulações, segundo os educadores. Todo o programa é focado em Português e Matemática, disciplinas do Ideb, ficando as demais matérias em segundo plano ou em plano nenhum.

Um professor de História contou que recebe alunos de outra escola e pergunta quem era o professor deles antes, então eles frequentemente respondem que mal viam a disciplina, o que o deixa desacreditado e triste com o sistema.

Leia mais aqui.

E por aí vai, reproduzindo o que já se sabe que acontece em outras experiências de uso da “responsabilização baseada em testes” em outros países.

A pesquisa acadêmica mais recente também começa a mostrar as consequências destas políticas e os pontos cegos que o Portal Vermelho, o PT e o PCdoB se negam a ver. Um estudo que foi concluído em 2020, de Karlane Holanda Araújo, ajuda a desvendar como as relações embutidas nestes processos de pressão por responsabilização e pagamento de bônus começam a se estabelecer desde os anos iniciais no Ceará. Nas conclusões pode-se ler:

“Ao final da pesquisa, constatou-se que a cultura produtivista e de reconhecimento do mérito da política accountability escolar, representada pelo Prêmio Escola Nota Dez, reverbera na ação educativa, de modo que a escola e sua equipe escolar, durante todo o ano letivo, empreendem esforços (sermão da recompensa e controles aversivos) com o propósito de instruírem o aluno para alcançar a performance de excelência (standard student) explicitada nos descritores do Spaece-Alfa e, por efeito, serem reconhecidas e agraciadas com a premiação em dinheiro.

Nessa perspectiva, a criança que se encontra em fase de formação e constituição de sua subjetividade e identidade é reduzida à posição de “objeto” passivo, estimulada a se acomodar ao processo de ensino-aprendizagem e pressionada a responder à demanda da “eficácia escolar”. Nesse sentido, o Prêmio Escola Nota Dez reforça práticas pedagógicas à luz da lógica do capital, práticas essas socialmente valorizadas, produzindo efeitos na subjetivação dos valores, das condutas e dos laços sociais das crianças das escolas de alto rendimento do ensino fundamental (2º ano) do estado do Ceará.

Diante desse achado, considera-se que a formação dessas crianças não irá melhorar caso se continue a focar apenas a leitura e a matemática nos testes como um meio de decidir o destino dos estudantes, professores, diretores e escolas, enquanto se ignorarem os outros estudos que são elementos essenciais de uma boa educação. É preciso romper o circuito de anseios mercadológicos.”

Baixe o texto aqui.

Vale a pena destacar mais um trecho das conclusões que identifica a ação destas políticas na conformação da subjetividade meritocrática das crianças:

“Nessa prospecção, essas escolas que se rendem a essa face obscura da política de responsabilização e correm em busca de altos resultados a qualquer custo tendem, por um lado, a reprimir os desejos e as necessidades próprios da infância, subjugando-se à lógica mercantilista, produtivista e recompensadora; por outro lado, colocam em risco todo o processo de ensino-aprendizagem das crianças, desprezando seu desenvolvimento metacognitivo e socioafetivo e degradando os valores humanísticos constituídos nas relações sociais dentro do ambiente escolar. A criança passa a ser alvo da missão aluno nota dez, visto que seu desempenho na prova do Spaece-Alfa é tributo para ganhar status, menção honrosa e premiação financeira, capitalizando, assim, a relação entre professor e aluno.

As crianças são monitoradas quanto ao seu desempenho nas proficiências do Spaece-Alfa através de formulários e quadros expostos nas paredes das salas de aula. Os quadros dos alunos nota dez servem de vitrine midiática para a comunidade escolar no sentido de apresentar ao público local o tipo de discente que se quer ter, ou seja, o modelo de aluno objetivado no contexto das escolas de alto rendimento.

As crianças do 2º ano do ensino fundamental que se destacam, que leem com fluência e atendem satisfatoriamente às proficiências exigidas nas áreas de Português e Matemática são protagonistas de uma história forjada pela maquinaria do poder, já as crianças que não estão localizadas na escala de proficiência verde-escura nos quadros de ranqueamento das escolas nota dez de ensino fundamental (séries iniciais) do Ceará correm o risco de ser estigmatizadas e marginalizadas. A exposição classificatória dos resultados de desempenho educacional acarreta tensões no cotidiano da sala de aula, gerando, muitas vezes, bullying entre os colegas da turma, descontentamento, desinteresse, acirramento de competições, individualismo e uma série de sentimentos que pode ocasionar baixa autoestima no educando.

Em outro fluxo, vamos ter o ideário do Estado, objetivado pelo professor, rendendo-lhe bônus financeiro, status e ego infladoA exclusão e a marginalização da criança com déficit nos resultados de desempenho, provenientes do frisson avaliativo e da expectativa pelas melhores posições na premiação escolar, passam despercebidas e sem importância no processo educativo.” (p. 254/255)

Eis as consequências da requentada receita neoliberal vigente em Sobral e recomendada para o sucesso da educação brasileira, apoiada pelo Portal Vermelho.

Nos círculos educacionais sérios, sabe-se muito bem a que levou tais proposições: à criação de um mercado educacional de quase um trilhão de dólares só nos Estados Unidos que favoreceu o faturamento de grandes corporações e de organizações sociais com e sem fins lucrativos.

Como diz Ravitch; “nota mais alta não é sinônimo de boa educação”.

Sobre Luiz Carlos de Freitas

Professor aposentado da Faculdade de Educação da Universidade Estadual de Campinas - UNICAMP - (SP) Brasil.
Esse post foi publicado em Estreitamento Curricular, Ideb, Meritocracia, Responsabilização/accountability e marcado , , , , , , . Guardar link permanente.

2 respostas para Sobral e a desinformação na esquerda

  1. Cláudia Piccinini disse:

    Muito bom demonstrar os limites das políticas de Sobral, pois sabemos bem o que esperar do futuro próximo.

  2. Heloisa R. Herneck disse:

    Triste demais ver, mais uma vez, que o PT e PCdoB, visam o mesmo caminho neoliberal que estamos seguindo desde a década de 1990. Essa forma deles analisarem a educação em Sobral não me surpreende nem um pouco, pois nos mandatos Lula/Dilma ouve continuidades e aprofundamentos nas políticas neoliberais para a Educação. O pior é que não temos alternativas de propostas de governo diferentes e possíveis de ser eleito. É o que falo: no Brasil está tudo dominado com esse congresso, com esse judiciário, com o empresariado e na atualidade com a perversidade de um governo sem escrúpulos. Vamos tirar esse governo (tomara) e trazer o LULA de volta… mas já sabendo que meritocracia e privatizações na educação vão continuar. E continuar lutando!

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