Sobre meritocracia,  “nepo babys” e suas Fundações

Nos últimos dias tornou-se conhecido o problema da dívida das Lojas Americanas, cujos acionistas incluem Jorge Paulo Lemann. Destaco Lemann pela sua inserção na educação. Um histórico da atuação de Lemann foi publicado pelo canal Brasil 247.

Sem querer entrar no mérito da questão econômica desta empresa, que não é nosso tema por aqui, vale destacar um aspecto daquele texto: Diz:

“No site de sua “fundação filantrópica”, Lemann é descrito como um “self-made man” e um “herói da classe empresarial brasileira”. Existe, de fato, toda uma “hagiografia” corporativa devotada ao bilionário. Ele é considerado um dos ícones máximos da seita do empreendedorismo de palco e do nicho da auto-ajuda empresarial.”

A narrativa procura colocar a acumulação de riqueza como produto do empreendedorismo e do esforço pessoal. E continua:

“E, assim como ocorre com outros bilionários, Lemann também costuma ignorar os detalhes da história que contradizem a fábula do “self-made man“. A verdade é que Lemann já nasceu herdando uma das maiores empresas do Brasil.”

Afirma também que:

“Em 1991, o empresário criou a Fundação Estudar, uma ONG supostamente voltada a “incentivar a educação”. Sua atuação vem através da organização de cursos e palestras e da concessão de bolsas de estudo de graduação e pós-graduação. Em 2001, estabeleceu a Fundação Lemann voltada à “formação e lideranças” e ao apoio de “iniciativas úteis à resolução dos grandes desafios do país”.

A função das Fundações de Lemann, segue o texto, é:

“(…) pressionar os governos a adotarem uma lógica empresarial no ensino público e a submeter as instituições do Estado aos interesse do capital financeiro. Tal estratégia está alinhada aos crescentes investimentos de Lemann no ensino privado, por intermédio da Gera Venture Capital e da holding Eleva Educação, e sinaliza interesses futuros na privatização dos sistemas públicos de ensino do Brasil.”

Leia mais aqui.  

São esses bilionários, como Bill Gates nos Estados Unidos com uma longa lista de políticas educacionais desastrosas que incentivaram, que com suas Fundações veiculam suas teses no interior da escola pública, contribuindo para alimentar o mito da meritocracia.

Sonali Kolhatkar, comentando em recente artigo sobre filhos de bilionários que ela chama de “Nepo Babys” diz que eles “são filhos de gente rica e famosa e cuja presença atesta o nepotismo e expõe o mito da meritocracia americana.” Diz:

“Os bebês nepo que defendem seu status reforçam a noção de que riqueza, fama e privilégio equivalem a brilhantismo, talento e genialidade. (…)

Ou seja, contribuem para que a juventude acredite na mentira de que trabalhar duro trará recompensas e, se isso não ocorrer, é por culpa dela mesma e não de um sistema social voltado para produzir desigualdades.

E finaliza dizendo :

“A meritocracia do capitalismo americano é um mito construído sobre fumaça e espelhos, sobre mentiras e falsa confiança. A atual conversa há muito esperada em torno dos bebês nepo pode ajudar a promover a consciência de classe entre os americanos, que podem ver um pouco mais claramente agora o quão escassamente vestido o imperador realmente está.

Leia mais aqui.

Vale, portanto, a observação de Joseph Stiglitz, um liberal que tem tomado como objeto de estudo a “desigualdade social” e  prêmio Nobel de Economia, em seu livro “El precio de la desigualdade: 1% da população têm o que os 99% precisam”:

“90% dos que nascem pobres morrem pobres por mais esforço ou mérito que façam, enquanto que 90% dos que nascem ricos morrem ricos, independentemente de que façam ou não mérito.”

Acesse aqui a entrevista.

Sobre Luiz Carlos de Freitas

Professor aposentado da Faculdade de Educação da Universidade Estadual de Campinas - UNICAMP - (SP) Brasil.
Esse post foi publicado em Camilo Santana no MEC, Meritocracia, Privatização, Responsabilização/accountability e marcado , , . Guardar link permanente.

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