Mais uma vez o SARESP

Postado originalmente na UOL em 8/03/2012

Os resultados do SARESP – sistema de avaliação do rendimento dos alunos do Estado de São Paulo – foi divulgado. Refere-se a medição feita no final de 2011. Como sempre, a divulgação é lacônica – um press release – sem maiores informações técnicas e de análise. Nada sabemos sobre a qualidade das provas aplicadas. Seja no site, seja na Folha de São Paulo, não se encontra muita coisa.

Um dado passado pela Folha é o de que o número de alunos que faltou à prova no 3º. ano do ensino médio chegou a 20%, e é maior do que o de 2010. Mesmo tendo o governo anunciado sorteio de laptops como brinde para quem fosse fazer a prova. Quanto sabiam estes alunos? Se tivessem vindo fazer a prova, a média melhoraria? Pouco provável pois sabemos que as escolas desestimulam os alunos com dificuldades a comparecer na prova. A Secretaria além de distribuir brindes, estabeleceu que para efeito do cálculo de bônus, o aluno que falta entra com valor “0”. Parece que nesta série não houve resposta às medidas. Não há dados de outras séries.

Houve uma pequena melhora no 5º. Ano. Esta é a única tábua de salvação que restou à Secretaria. Nesta série tanto em matemática como em língua portuguesa houve um aumento, considerado pela Secretaria “expressivo”, de 5 pontos – mas nenhum cálculo de significação estatística da diferença foi divulgado nem para este série e nem para nenhuma das outras. Matemática passou de 204,6 para 209,0 e língua portuguesa passou de 190,4 para 195,0. Diz a Secretaria que isto deverá nos próximos anos, refletir-se em outras séries.

Entretanto, como também não há indicadores de fatores associados divulgados, em especial nenhum cálculo de nível sócio-econômico, não sabemos se tal melhoria se deve a ações de caráter escolar ou se a uma melhoria vegetativa ligada à emergente “nova classe média”. Chicago nos Estados Unidos passou por este problema. Quando todos acharam que a educação estava melhorando, descobriram que havia uma movimentação na economia, na posição de nível sócio econômico dos alunos, inclusive com fatores de migração fortes.

Se esta é a situação na 5ª. Série, descrita pela Secretaria como “avanço expressivo”, nas demais séries o fiasco é geral. Na 9ª. Série o avanço em matemática é de 1,9 pontos passando de 243,3 para 245,2. Em leitura o “avanço” é de 0,4 ponto, passando de 229,2 para 229,6 a média.

Quanto à 3ª. Série do ensino médio a Secretaria usa o termo “estabilidade” para descrever que nesta série o ensino empacou de vez. A média em matemática passou de 262,2 para 262,7 e em língua portuguesa permaneceu a mesma com 265,7.

O Saresp existe há mais de 15 anos e ninguém se animou para fazer um gráfico que mostre a evolução destes anos todos – nem a própria Secretaria. Talvez porque não haja evolução. Neste quadro os governos preferem trabalhar com dados recentes, sem comparações. Por exemplo: em 2007 a média de português no 9º. Ano do ensino fundamental era de 242,6 e agora é de 229,6. Ninguém tenta explicar esta queda. O ensino médio está praticamente paralisado deste 2007, quando tinha 263,2 e agora tem 265,7. Ainda em português, na 5ª. Série, tínhamos 186,8 pontos de média e agora temos 195. Apenas poder-se ía comemorar o avanço em matemática na 5ª. Série do ensino fundamental que em 2007 era de 182,5 pontos e agora é de 209. Mas, como não temos os tais dados de nível sócio-econômico e sabemos que está havendo mudanças no posicionamento das classes sociais, nada pode ser afirmado sobre esta diferença positiva.

Ou seja, muito barulho por pouco. Muito pouco. Bônus, sorteios, pressões gerenciais, apostilamento da rede, etc. mostram-se mais uma vez medidas pouco eficazes na melhoria do ensino.

Mas a Secretaria tentará mostrar um “avanço expressivo” na educação paulista e alardeará que ele se deveu a esta política. Os assessores farão a divulgação deste “avanço” e a educação paulista continuará como está.

A Secretaria alega que melhorou a distribuição nos níveis de desempenho (abaixo do básico, básico, adequado, avançado). Desde Paulo Renato, mudaram os níveis com algumas fusões. Naquela época já mostramos que isso “melhorou” ou podemos dizer “maqueou” o problema. Segundo a Folha, no entanto, no nível “adequado” estão colocados apenas 4,2% dos alunos do 3º. ano do ensino médio em matemática. Neste mesma série temos 58,4% dos estudantes abaixo do básico. Esta categoria era de 57,7% em 2010, portanto, aumentou – ou na conveniente linguagem da Secretaria – está “estável”. Somente 37,1% dos estudantes estão no nível “adequado” e no avançado apenas 0,3%. Se somarmos os 58,4 (abaixo do básico) com os 37,1 do básico, temos 95,5% dos alunos com conhecimento básico ou abaixo do básico. Porque o 3o. ano do ensino médio é importante na análise? É que neste nível de ensino já operou-se uma brutal “seleção” com a evasão dos estudantes com menor desempenho. Os resultados deveriam ser outros.

Assim vai a educação paulista em seu calvário de “campo de teste” da política dos reformadores empresariais da educação. A Secretaria diz que está no rumo certo. Contenta-se com pouco e interpreta o pouco como lhe convém. De fato, a Secretaria de Educação não pode trabalhar como gostaria. Tem gente boa lá. Mas o entorno político não permitirá que ela se afaste do receituário dos reformadores empresariais. Os políticos não deixarão.

Sobre Luiz Carlos de Freitas

Professor da Universidade Estadual de Campinas - UNICAMP - (SP) Brasil.
Esse post foi publicado em Postagens antigas da UOL, Saresp. Bookmark o link permanente.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s