Bônus: persistindo no erro

Postado originalmente na Uol em 28/07/2011

A Prefeitura Municipal de São Paulo, do Prefeito Kassab, vai implantar bônus para os professores. Na realidade, eles já tinham um bônus por assiduidade que agora vão ampliar para desempenho também.

Não é necessário que acrescentemos nenhum comentário mais a esta ideia, dado o que já dissemos por aqui. A cidade de São Paulo acha que vai inovar com um bônus que vai levar em conta nível sócio-econômico da escola, ou controlando ausência de aluno na prova. Nada que não tenha sido tentado em Nova York.

Apenas o registro: há certas ideias que não são derrotadas pelos dados, pela pesquisa, ou pela análise teórica sequer. Elas são derrotadas pela prática. Portanto, que venham os bônus. Quanto mais rápido foram aplicados, mais rápido teremos seus resultados práticos. Embora a educação não melhore e os políticos que as aplicam, sim.

Um detalhe: na cidade de S. Paulo, a criança que não estiver presente no dia da prova receberá zero de nota, penalizando a média da escola. Nada significa para o aluno, pois não conta na sua aprovação. É um mecanismo de pressão sobre a escola para tentar impedir fraude. O que você acha dessa ideia, do ponto de vista pedagógico?

É o malabarismo dos reformadores empresariais. A brincadeira de “gato e rato” é a seguinte: No dia da prova, os professores mandam os alunos que sabem menos ficar em casa. Acontece de Nova York até São Paulo – no Saresp. Então, para coibir isso, se o professor ou o diretor mandar o aluno ficar em casa, ele tem zero na prova. Isso penaliza o professor e a escola e ela fará de tudo para trazer o aluno para a prova. Certo. Só que há vida inteligente do lado de lá, também.

Se o aluno que não sabe – ou não quer aprender – é obrigado a fazer a prova, haverá aumento de outras formas de fraude, por um lado, e aumento do “treino para o teste”, por outro.  Ambos os casos aumentarão as notas dos alunos – deixarão os políticos bem na cena, na hora da reeleição – mas não significam melhor educação ou mais aprendizagem.

Levará sim, a uma disputa das escolas pelos melhores alunos e uma recusa das escolas em receber os piores. Mecanismos de seleção prévia. Burocratas acham que isso não pode acontecer. Mas, eles não conhecem o dia a dia de uma escola.

A médio prazo, teremos bolsões compostos por escolas dedicadas apenas a estes alunos. Seus professores sabem que lá, não ganham bônus. Não terão interesse em dar aula nelas e se forem obrigados, já estão desestimulados de partida.

Na outra ponta, a pressão vai acabar sendo feita sobre o aluno. Aumenta-se a tensão sobre a juventude – feita pelos pais e professores.

Avatar de Desconhecido

About Luiz Carlos de Freitas

Professor aposentado da Faculdade de Educação da Universidade Estadual de Campinas - UNICAMP - (SP) Brasil.
Esta entrada foi publicada em Avaliação de professores, Meritocracia, Postagens antigas da UOL. Adicione o link permanente aos seus favoritos.

Deixe um comentário