As tabuletas de Ioschpe

Postado originalmente na Uol em 13/07/2011

Precisamos convencer Macaco Simão, o esculhanbador geral da república, a tomar a educação como tema de suas reflexões diárias. Como ele mesmo diz, este é o país da piada pronta, e certamente lá encontraria muito material para suas análises diárias. É o caso das tabuletas que o Gustavo Ioschpe quer colocar nas portas das escolas anunciando o IDEB delas. Mas não qualquer tabuleta, convenhamos. Uma tabuleta na porta da escola precisa ter a assinatura de um publicitário de peso, pois é uma tarefa difícil, daí que Nizan Guanaes já se prontificou a fazer a tal tabuleta na sua empresa.

Certamente G. Ioschpe teve esta ideia depois de uma noite mal dormida e como tem o hábito de escrever na Veja, foi lido por outro que resolveu fazer uma lei. Claro, por que não uma lei?

Em que se baseia a concepção de educação de G. Ioschpe, diplomado pela Veja como especialista da educação? Uma combinação de ideias requentadas que implicam em submeter a educação à competição, à vergonha e à cobrança. Esta concepção educacional, defendida pelos reformadores empresariais da educação, parte do suposto de que estas “virtudes” que funcionam na área dos negócios, também deveriam funcionar na área da educação.

Aliás seria muito interessante colocarmos uma tabuleta, concebida pelo Guanaes claro, na porta dos hospitais indicando qual o índice de mortalidade por infecção hospitalar; ou ainda uma tabuleta bonita na porta da Delegacia do bairro indicando qual o índice de criminalidade local. E assim por diante. Uma tabuleta nas portas das Faculdades de Economia indicando qual o índice de previsão de crises conseguido, também seria interessante. Mais ainda, não só onde há serviço público, mas nas que são administradas pela iniciativa privada também. Nem os americanos que lidam com estas ideias há 20 anos ou mais tiveram a criatividade de G. I. , comprovando de fato que este nosso país é o país da piada pronta.

A tese dos reformadores diz que um negócio (a educação é um negócio como qualquer outro para eles) submetido a competição, melhora a mercadoria ou serviços que produz. Para tal, há que divulgar os rankings dos negócios para o público. É como na bolsa de valores, você precisa saber da saúde das empresas para comprar ações delas. Os rankings orientam o investidor. Cada pai é como se fosse um “pai-investidor”. Ele confere na tabuleta de G. I. o IDEB da escola e aí entra o segundo conceito em jogo: a vergonha. G. I. acha que neste momento, os país vão se revoltar e colocar em cena o terceiro conceito, cobrar a escola a qual envergonhada, melhora. Estas teses são as mesmas do falido programa federal americano No Child Left Behind, implantado na era Bush inspirado na fraude do Texas.

Mas cuidado, leitor. Não pense que o modelo termina aí. Não. Ele tem outros passos. Depois de consolidada esta fase, o que se procura de fato é levar o modelo dos negócios às últimas consequências. Ou seja, na filosofia do “pai investidor”, o dinheiro deve ser dado ao pai (na forma de vouchers) e o pai decide para qual escola dá o voucher, definindo em qual escola matricular seu filho, orientado pelas tabuletas de G. I. Este é o estágio final dos reformadores, expresso no trabalho de Chubb and Moe dos anos 90, aplicado em larga escala nos Estados Unidos e que não melhorou em nada a educação americana que há dez anos está atolada na média do PISA – se já estava antes atolada, não se sabe, pois não havia PISA antes disso.

Estas ideias movem um mercado de quatro bilhões de dólares nos Estados Unidos. É muita grana. Isso explica o repentino interesse da área dos negócios na educação. G. I. é um homem de negócios. Só a Veja acredita que ele seja um “especialista em educação”.

D. Campbell, em 1976, alertou o mundo contra estas falácias dizendo: “Quanto mais um indicador social quantitativo é utilizado para fins sociais de tomada de decisão, mais sujeito ele estará à pressão de corrupção e mais apto ele estará a distorcer e corromper os processos sociais que se pretende monitorar” (p. 49).

Qual a primeira consequência que devemos esperar se esta lei for implementada?

Os resultados da Prova Brasil que servem para compor o índice do IDEB vão perder cada vez mais confiabilidade. A pressão, conduzirá à fraude. Já sabemos que ocorre fraude no SARESP em São Paulo e temos o recente exemplo americano do Distrito de Atlanta onde 44 escolas e nada menos do que 178 diretores e professores se envolveram em fraude para valorizar as notas dos alunos e justificarem grandes avanços escolares.

A segunda consequência. Submeter as escolas e seus profissionais à vergonha e à pressão, romperá as relações da escola com a comunidade. Isso é um crime, pois sabemos das intrincadas relações sociais que existem entre a escola e sua comunidade. Desgastada, vilipendiada e envergonhada, os melhores profissionais desertarão destas escolas ou da profissão, a tensão entre a comunidade e a escola aumentará – depredações, furtos e outras agressões podem aumentar com o desgaste da instituição escolar perante a comunidade.

Quando toda a pesquisa aponta para a importância do efeito vizinhança sobre a escola; quando se tenta valorizar uma boa relação da escola com a vizinhança e vice-versa, vem uma ideia maluca sugerir que a comunidade pressione a escola, colocando estas duas instituições em linha de choque. É o poder da Veja. Neste país se faz política pública e leis sem levar em conta as evidências científicas. Basta sair na Veja ou em um relatório da OCDE para ser considerado verdade.

Sabemos que 50% ou mais
variáveis que definem o rendimento escolar estão fora da escola. E aí chegamos ao ponto em que G.I. chega às beiras do ridículo acadêmico. Reconhecer o peso destas variáveis, não é reconhecer que o aluno é ineducável. Mas é reconhecer sim, que para que seja educável são necessárias medidas que não se esgotam no interior da escola – a começar pelas políticas públicas às quais G. I. não se refere.

Através de uma lógica falha, G. I. tenta demonstrar que Shangai, na China, é líder no PISA apesar de ter muito mais pobreza na escola do que o Brasil. Belo raciocínio. G. I seria reprovado em um Trabalho de Final de Curso de Graduação se escrevesse isso, fora das colunas da Veja. Mas na Veja, como a questão é ideológica, pode.

Ora, quem disse que relatórios da OCDE são confiáveis? Conheço trabalhos da OCDE que não passaram em revisão de pares nos Estados Unidos e já divulguei pelo menos um deles neste Blog. Ocorre que para os reformadores empresariais é Deus no céu e a OCDE na terra – ou seja, é uma questão de fé e não de ciência.

Shangai é uma cidade muito especial da China. Não representa a China. Shangai é só Shangai. Não se pode estender os resultados de Shangai para a China como um todo. A cultura chinesa é completamente diferente da brasileira. Não se pode fazer comparações simplesmente numéricas sem levar em conta os fatores culturais.

Mas o charlatanismo acadêmico e ideológico não tem limite. G. I. tenta se apropriar dos resultados positivos de Shangai para justificar sua tabuleta. Uma lógica canhestra. Shangai é o primeiro no PISA e ensina alunos miseráveis em maior proporção que o Brasil, logo colocar tabuleta nas portas das escolas brasileiras, procede.

A lógica deveria ser outra meu caro G. I.: se Shangai é a melhor do mundo, ensina miseráveis em maior proporção, etc. e faz isso sem por tabuletas nas portas das escolas, logo é desnecessário para melhorar a educação brasileira e ensinar os miseráveis no Brasil, colocar tabuletas nas portas das escolas. G. I. se apropria de um resultado positivo tentando sugerir que ele reforça suas brilhantes ideias. Socorro Macaco Simão…

Nem Shangai, nem Finlândia usam tabuletas. E não é só isso. Não usam as ideias dos reformadores empresariais americanos e brasileiros. E são os primeiros no PISA. Porque os reformadores empresariais pararam de falar da Finlândia? Simplesmente porque ela não usa as brilhantes ideias dos reformadores. Porque não falam da Suécia, onde um inteligente sistema combina as notas das provas nacionais (como o nosso IDEB) com a opinião dos professores das escolas sobre o aluno, valorizando os profissionais da escola (não submetendo-os à vergonha), humanizando o processo de avaliação e tendo dados mais fidedignos para projetar a aprendizagem futura do aluno? A resposta é simples: isso não implementa os “negócios educacionais” e a Veja não publica.

Sobre Luiz Carlos de Freitas

Professor da Universidade Estadual de Campinas - UNICAMP - (SP) Brasil.
Esse post foi publicado em Assuntos gerais, Ideb, Postagens antigas da UOL, Responsabilização/accountability e marcado . Guardar link permanente.

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