Postado originalmente na Uol em 1/05/2011
Alguém precisa avisar Dimenstein que os Estados Unidos são um país decadente, em crise fiscal e que a única maneira dele dar conta de suas responsabilidades com a população é transferir os serviços públicos para a iniciativa privada. Não está em jogo de fato aumentar a qualidade de vida ou da escola e, sim, reduzir custos. Além disso, desenvolveu-se na área educacional uma rede empresarial que mama diariamente nas verbas do governo e vive de chupinar outros empresários que por sua vez chupinam o imposto de renda, deixando de recolher impostos que poderiam ser usados nos serviços públicos. Esta confluência de interesses produziu a devastação do sistema público de ensino americano. Empacados no PISA, patinam em soluções privatistas há mais de 15 anos sem resultados.
Dimenstein está de volta na Folha de São Paulo de hoje (1-05-2011) para alardear as soluções privatistas encontradas nos Estados Unidos. Desta vez é o Harlem, um bairro abandonado pelo governo, de negros e pobres, que está à mercê da caridade de Wall Street para organizar a sua vida em um experimento social chamado Harlem Children’s Zone.
Criado por Geoffrey Canada que é hoje o “presidente e CEO – Diretor Executivo” desta “empresa”, ela envolve uma articulação entre uma série de medidas para atacar problemas da comunidade associadas à criação de uma rede de escolas privadas de G. Canada que atende a área. Baseado em doações, construiu-se uma empresa que funciona recebendo 100 milhões de dólares e atende diretamente a 8.000 alunos. Existem variadas ações como controle médico da asma que afeta a população do Harlem até ações de escolarização. O “plano do negócio” pode ser lido em http://www.hcz.org/images/stories/pdfs/business_plan.pdf.
Obama adorou e agora quer 210 milhões de dólares do Congresso para incentivar mais 21 comunidades pelo país afora.
Como se a moda pegar deixa as tradicionais escolas charters americanas – que não têm ligações com outros programas sociais locais como tem a experiência do Harlem, onde as charters foram associadas a programas sociais – em situação de desvantagem frente a verbas públicas e, principalmente, doações das empresas, a disputa instaurou-se.
Um primeiro relatório atestou a eficiência do experimento. Feito em Harvard, ainda não foi objeto de revisão por pares – e, ao contrário do que se faz por aqui, lá não se aceitam relatórios – mesmo que de Harvard – que não tenham passado por revisão de pares.
As reações, entretanto, têm sido de ceticismo. Diz Holden examinando o relatório de Harvard:
“O resultado é emocionante, mas:
• Este é apenas um estudo, e o tamanho da amostra não é grande (especialmente para uma análise mais rigorosa baseada em randomização). É um estudo muito recente – não foi revisto por pares ainda – e ele não teve muita oportunidade de ser criticado.Estamos ansiosos para ver a revisão crítica dele e (se o consenso é que vale a pena replicar) os resultados das repetições.
• Os efeitos são observados principalmente em notas de matemática. Efeitos sobre a leitura são encorajadores, mas menores. Será que esse melhor desempenho se traduz em melhorias em todos os aspectos do gap de desempenho (causal ou porque os maiores escores do teste seriam sintomas de uma melhoria geral no desenvolvimento pessoal dos estudantes)? Nós não sabemos.
• Só porque um programa funcionou em um lugar não significa que financiamento pode induzir automaticamente mais do mesmo. O sucesso pode ser devido a pessoas cuja função é de difícil replicação em outro lugar, por exemplo. Com efeito, se o consenso é que este programa “funciona”, descobrir o que funciona nele e como ele pode ser estendido será um enorme desafio em si mesmo.”
- Fryer and Dobbie on the Harlem Children’s Zone: significance
- Followup on Fryer/Dobbie study of “Harlem miracle”
Também o Brookings Institute não gostou. Já havia feito um relatório anterior dizendo que as escolas charters de Geoffrey Canada estavam apenas 10 pontos acima das escolas públicas regulares da cidade de New York, enquanto outras charters (as três escolas KIPPs da área) estavam a 30 pontos. Geoffrey Canada respondeu que eles haviam considerado apenas as charters de tipo I, de sua empresa, e não as de tipo II. O Instituto voltou à carga e refez a análise com as duas mostrando que isso não faz diferença. Brookings questiona se de fato os programas sociais que acompanham as escolas charter de Geoffrey têm efeito no desempenho dos alunos. Uma briga entre escolas charters.
Esta é a situação. No entanto, a Folha de São Paulo através de seus arautos deslumbrados com os USA apresenta um cenário completamente diferente para os brasileiros. Diz Dimenstein a propósito do Harlem Zone:
“G. Canada articulou uma rede educativa que abrangia da creche ao fim do ensino médio, com uma preparação para a faculdade. Surgiram escolas públicas independentes” (agrego: eufemismo para escolas sob contrato de gestão privado, pagas com dinheiro público) “para que a comunidade pudesse escolher (e demitir) seus diretores e professores, além de estabelecer o próprio currículo”.
http://www1.folha.uol.com.br/fsp/cotidian/ff0105201121.htm
Eis aí a mensagem principal.
Se o Instituto Brookings está certo, a diferença entre escola pública regular e as charters do Sr. Canada estão cabeça a cabeça, com uma diferença de 10 pontos que se forem bem pesquisados, a se julgar pelo desempenho de outras charters nos USA, pode ser menos. Sabe-se que a escola pública regular nos USA está relegada aos alunos menos motivados e mais pobres – os mais pobres entre os pobres. Ou seja, para Dimenstein, fechar comunidades em uma Zona e colocá-la sob controle de empresários caridosos que pagam outro empresário caridoso local dono de uma cadeia de escolas dentro desta Zona, é avançado. Como o programa inclui atendimento médico, uma das principais fontes de doações, cerca de 3.700 milhões de dólares, são provenientes de empresas farmaceuticas – claro, desinteressadas… no mercado desta Zona.
A mesma irresponsabilidade que pesquisadores atribuem a Obama por financiar a generalização deste experimento sem maiores pesquisas, aplica-se ao Sr. Dimenstein por apresentar este mesmo experimento como um êxito a ser implementado no Brasil.
Para finalizar, cabe alertar que colocar a educação e comunidades inteiras nas mãos dos caridosos empresários, em tempo de crise, pode ser uma estratégia arriscada. Em 2008, o Harlem Zone foi afetado pela crise financeira. Se a crise persistir, experimentos como estes estarão com os dias contados.
É por estas e outras razões que a educação é um bem público e deve ser de responsabilidade do Estado, inclusive com administração estatal. A estratégia proposta por Dimenstein é de tratar a pobreza com a caridade dos ricos. Educação, entretanto, é direito.
Dimenstein: tenha dó do meu domingo…