Gustavo Ioschpe na Revista Veja

Postado originalmente na Uol em 18/01/2011

Não costumo ler Veja, a menos que seja constrangido – por exemplo, no barbeiro. Sem alternativa, enquanto aguardava minha vez, li uma coluna de Gustavo Isoschpe – mais um dos nossos “especialistas em educação”.

Gustavo Ioschpe é formado “magna cum lauda” (com grandes honras) em estratégia de gestão pela Universidade da Pensilvânia (Bachelor of Science, Wharton School) e em ciência política (Bachelor of Arts , College of Arts and Sciences), além de ser mestre em desenvolvimento econômico e economia internacional, pela Universidade de Yale (EUA). Ioschpe foi consultor de um projeto do Banco Mundial/PNUD para o Ministério da Educação do Brasil sobre financiamento internacional de educação.

Na sua receita para fazer florescer a educação brasileira, o especialista reconhece que os estudos mostram que dar bônus para o professor não melhora a educação. Segundo ele, agora, os estudos mostram outra coisa, mostram que o que é eficaz é dar bônus para a escola, como um todo (caso do Estado de São Paulo, ver consequências já visíveis no comentário do atual Secretário de Educação deste estado em postagem anterior).

Como sempre, nada de referências aos estudos de base. Os liberais têm um senso científico curioso. Eles acreditam que se eles leram e concordaram, então os estudos são científicos, válidos e, portanto, a patuleia tem que acreditar.

Pensemos um pouco. Antes, a ideia de pagar bônus para o professor deveria estar alicerçada em estudos científicos. Se não estava, foi uma fraude. Se estava, os estudos não se sustentaram. Agora, os liberais dizem que os estudos mudaram. Os estudos mostram que é efetivo dar bônus para a escola – como em  Nova Yorque  ou na Carolina do Norte nos Estados Unidos – e querem que acreditemos que estes novos estudos são melhores do que os anteriores que falharam. Quem diz que estes estudos são suficientes para fundar uma politica pública?

Um estudo feito na Índia – com pessoal do Banco Mundial – por exemplo, contrariando Gustavo Ioschpe, mostra que bônus, independente de ser dado individualmente ou a um grupo, apresenta eficiência, ou seja, “it depends” – depende de condições que afetam as conclusões dos estudos e que não estão claras. Não há estabilidade nas conclusões.

Vejamos o caso de Nova Iorque. Primeiro, o plano foi implementado no ano escolar 2007-2008 – quando Bloomberg conseguiu cooptar o sindicato. Portanto é recente. As primeiras avaliações não revelaram vantagens para a aplicação deste sistema:

“Em geral, nós achamos que o SPBP teve pouco impacto sobre a proficiência dos alunos ou no ambiente escolar neste primeiro ano. “

Outros estudos têm conclusões semelhantes:

“Curiosamente, encontramos pouca evidência de que o programa de bônus tenha qualquer efeito sobre as notas dos alunos nos testes, tanto no primeiro ou segundo ano do programa, nem levaram a significativas alterações comportamentais (…) nas ausências de professores, na rotatividade dos professores, ou na seleção de novos professores. Embora nós encontrássemos evidências sugestivas de uma pequena redução do absenteísmo dos professores nas escolas onde estes tinham incentivos relativamente fortes para aumentar o seu esforço, encontramos também algumas evidências de que os estudantes da parte mais baixa da distribuição da pontuação na prova foram impactados negativamente pelo programa.”

Confira o estudo em http://www.columbia.edu/

Veja também: http://www.tampabay.com/opinion/editorials/floridas-flawed-school-bonus-plan/1037408

Ou seja, como sempre, em educação, é preciso estar atento aos números apresentados.

Mais que isso, é irresponsabilidade fazer política pública com receitas pouco testadas. Não é porque New York usou, que é bom.

Sobre Luiz Carlos de Freitas

Professor da Universidade Estadual de Campinas - UNICAMP - (SP) Brasil.
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