Acesso e guetorização: o papel das avaliações

 Postado originalmente na Uol em 11/11/2010

Hoje tivemos uma excelente palestra de C. Baudelot na Faculdade de Educação da UNICAMP. Ele nos mostrou como, na França, a democratização da escola incorporou muita gente mas, de fato, não mudou a desigualdade educacional. Em 1960 a França tinha 3% de filhos de trabalhadores na escola, agora tem 40%. Em compensação, em 1960 tinha 40% dos filhos de proprietários e agora tem 80%. Este aumento da composição da classe trabalhadora não significa, entretanto, maior igualdade educacional. Estão dentro do aparato escolar, não necessariamente incluídos culturalmente. Fala o Professor de um processo de criação de guetos escolares destinados às classes trabalhadoras. De fato, houve uma translação de distâncias. 25% da população escolar não consegue dominar o elementar. E foram 40 anos dos mais variados governos. Reconhece o Professor que as mulheres avançaram neste espaço de tempo. Mas novas desigualdades emergiram. O conceito de capital cultural continua sendo um farol importante.

Importante também a distinção que ele faz entre uma teoria do capital humano “coletiva”, na qual as famílias estão “inocentemente” brigando para que seus filhos progridam e tenham uma vida melhor enquanto nação e, outra, mais individualista, privada, onde as famílias estão “disputando” empregabilidade, termo meu, em uma perspectiva de que seu filho deve acumular mais que o do outro para ser bem sucedido por cima do outro, alimentando uma verdadeira “luta de classe” – termo dele.

Os dados que nos chegam dos Estados Unidos não são diferentes. Lá, a desigualdade apenas movimentou-se de forma relativa também. Não há evidência de que as políticas implantadas conduziram a uma redução de desigualdade social.

E aí que, penso, entram as avaliações tipo ENEM e outras. Ela fornecem a legitimação necessária para a inclusão de uma margem maior da classe média no interior do aparato educativo, controladamente, mantendo as distâncias relativas. E é por isso, também, que políticas como o ProUni e logo mais, com Dilma, o ProMédio estão sendo implantadas. Acesso para uma classe média à custa da guetorização da imensa maioria da classe trabalhadora, dentro da própria escola. O mesmo ocorre ao nível dos Estados e Municípios.

Sobre Luiz Carlos de Freitas

Professor aposentado da Faculdade de Educação da Universidade Estadual de Campinas - UNICAMP - (SP) Brasil.
Esse post foi publicado em Postagens antigas da UOL, Segregação/exclusão. Bookmark o link permanente.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s