Educação: terra de todos…

Postado originalmente na Uol em 16/12/2010

Os países que usam sistemas de avaliação baseados em responsabilização já lidam com as consequências do fenômeno do “estreitamento curricular” produzido por elas. Madaus reclama disso deste a década de 80.

Encontrei, no Correio Popular de hoje 16-12-2010 (Jornal da Cidade de Campinas) um excelente exemplo de como as avaliações, no caso o PISA 2009, agem para produzir o estreitamento curricular. Resolvi registrar isso porque considero digno de um estudo de caso o artigo. Certamente será um bom exemplo para os cursos de avaliação. Resumo abaixo as principais partes do texto do jornalista Carlos A. Sardenberg que se chama “Equação de segundo grau para todos”.  Diz ele:

“O Programa Internacional de Avaliação de Alunos (PISA, em inglês) que avalia estudantes de 15 anos em 65 países, consiste de três provas: leitura, matemática e ciências. (…) Logo, todo o esforço deveria se concentrar nas três disciplinas essenciais do ensino fundamental, português, matemática e ciências, certo? Errado. Tem ocorrido exatamente o contrário. (…) Filosofia, sociologia, música, psicologia, cultura indígena e africanas – essas são matérias já incorporadas ou a caminho disso. O argumento: a escola não deve formar apenas bons alunos ou bons profissionais, mas cidadãos responsáveis.

Uma primeira observação: se fossem formados “apenas” bons alunos, já seria um enorme êxito, não é mesmo? Outra: se o objetivo faz sentido, formar cidadãos, o acúmulo de matérias não resolve nada. E dá perfeitamente para formá-los sem essas matérias. Humanidades, por exemplo: nas aulas de português, os alunos podem ler textos de filosofia, sociologia, psicologia, etc. Muitas vezes nem precisa: há muita psicologia, por exemplo, num conto de Machado de Assis bem lido e compreendido. Agora, considerem a música. Qual a melhor maneira de ensinar ou, antes disso, estimular o interesse das crianças? Tocar instrumentos, na verdade, apresenta-los aos meninos e meninas para que comecem brincando com eles. Com o tempo, formam-se bandas, conjuntos, orquestras. Ora, eis uma excelente atividade para os fins de semana nas escolas. Qual a melhor maneira de conhecer a cultura indígena? Visitando as aldeias, estando com os povos. Outra excelente atividade para feriados e mesmo para uma parte das férias, por que não? (…)

Vamos falar francamente: além de dar emprego a formandos nessas matérias, não serve para nada. (…) E por falar nisso, também nas escolas para povos indígenas é preciso ensinar as mesmas três disciplinas. Equação de segundo grau é igual para todos. “

Assim falou o mais recente especialista em currículo e métodos de ensino. Curiosamente ninguém se atreve a falar de hospitais e como deve ser a sua organização ou como deve ser a formação dos médicos. Mas educação – é como futebol. Todos são “técnicos”. Os médicos e hospitais, nos Estados Unidos – no Brasil não sei – matam cerca de 400 pessoas por mês por imperícia médica.  Não deve ser diferente por aqui. No entanto, não se vê jornalista dando receita para eles.

Sobre Luiz Carlos de Freitas

Professor aposentado da Faculdade de Educação da Universidade Estadual de Campinas - UNICAMP - (SP) Brasil.
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