MEC incentiva o ranqueamento com o novo ENEM

Postado originalmente na Uol em 19/07/2010

Aos poucos vai ficando claro que avaliar para comparar escolas é um indicador precário. Sempre foi, mas as razões não eram divulgadas. Na época do FHC comparavam-se escolas públicas e privadas como se fossem plenamente comparáveis. A Folha de São Paulo tem saudade deste tempo. Seu viés privatista até hoje não consegue apagar esta paixão pelos rankings que enaltecem as escolas privadas. O MEC ajuda, pois transformou o ENEM em uma corrida para entrar na Universidade deixando de por atenção ao que ele deveria ser: um indicador da qualidade global do ensino médio. Um indicador global de desempenho e não de uma escola determinada. Seu objetivo deveria ser discutir a qualidade e suas razões.

Note-se também, que o ENEM, hoje, é composto de quatro provas objetivas  (ciências humanas, ciências da natureza, linguagens e matemática) e a redação. O MEC divulga duas notas, a da prova objetiva (180 questões) e a nota final que inclui a redação. Ao fazer isso, o MEC tira o foco do desempenho dos alunos em cada uma das disciplinas avaliadas e coloca a atenção em uma nota final que nada revela das disciplinas específicas e direciona para o ranqueamento de escolas. Ao invés de discutirmos o que os alunos, em geral, estão aprendendo de fato, escalonamos escolas pelo desempenho que pode levar em conta apenas 2% dos seus alunos. Mais ainda, estes alunos não são representativos dos demais. Há escolas particulares que pagam seus alunos para participar do ENEM e, certamente, não pagam para os piores irem fazer as provas.

A questão adicional é se faz sentido tirar uma média das 5 notas obtidas pelos alunos nos testes e na redação. Que poder explicativo tem esta média do ponto de vista de aprendizagem do aluno?

A Folha de São Paulo produz, hoje, um caderno especial sobre o ENEM, na esteira da divulgação dos dados pelo MEC. Como dizíamos, aos poucos vai ficando claro que avaliar para comparar não é uma boa proposta. Nem a Folha pode esconder os problemas e, ao desenvolver a matéria, o bom senso vai sendo, ainda que envergonhadamente, revelado. A fala da Secretária da Educação Básica do MEC é um oásis: “Não é pelo fato de ser particular que a escola está no topo. É preciso pensar quem estas particulares estão atendendo, qual a bagagem que estes meninos trazem.” Ou seja, o que Maria do Pilar Lacerda quer dizer é que o ENEM não mede valor agregado, ou seja, não registra como o aluno chegou na escola e como ele saiu ao final da escolarização. Isto, que é uma medida banal nos Estados Unidos ou na Inglaterra, não é feito pelo INEP. Sem valor agregado, a Folha não pode comparar escolas particulares e públicas.

Como a Folha de São Paulo diz em seu caderno especial: “O Colégio Maria Imaculada (zona sul de SP) trocou o 92o. lugar pelo 7o. O Batista Brasileiro o 116o. pelo 14o. Um ponto comum foram poucos alunos na prova. Estudos do INEP mostram que as escolas tendem a ter melhores resultados quanto menos alunos seus fazem o exame – são os menos preparados que mais desistem. ” Como explicar um salto deste de um ano para outro?

Por fim estão também as considerações, no mesmo caderno, feitas por Eduardo de Carvalho Andrade: “é possível que a contribuição de um colégio para o aprendizado dos alunos seja maior numa escola com pior posição no ranking.” Qualquer um que lide com cálculo de valor agregado sabe que as escolas particulares recebem alunos “mais sabidos” e portanto têm uma margem de progressão menor do que se recebessem alunos “menos sabidos”. Este é o caso das escolas públicas, por exemplo, mas ocorre também entre as escolas particulares.

Por fim, cabe salientar as palavras do próprio Presidente do INEP: “Um parâmetro que pode ser usado para saber a situação da escola é a nota média do desempenho individual dos alunos em 2009 — 500. Essa é a nota da média dos estudantes de terceiro ano que fizeram o Enem 2009. Se a escola está com a nota muito abaixo pode ser sinal de problemas.

Outro fator que deve ser considerado é o número de participantes (sempre informado pelo Inep). Não se entusiasme, por exemplo, se uma escola obteve uma nota excelente com 5% de participação de seus alunos.  “O exame é voluntário, portanto o estudante tem algum tipo de motivação [para participar]”, explica Soares Neto. Essas motivações — usar a avaliação para ingressar no ensino superior ou para concorrer a uma bolsa de estudos do Prouni — podem atrair os alunos mais interessados e mais aplicados daquela escola.

Uma medida que pode evitar o mau uso das informações é comparar escolas ou instituições com perfis semelhantes. Se você quer saber o quão boa (ou ruim) é a escola particular do seu filho, por exemplo, compare a nota dela com a de uma outra instituição privada do seu bairro. Tente observar semelhanças no perfil administrativo (a escola é particular, estadual, federal ou municipal?). Observe também o tipo de público que ela atende (em sua maioria, os alunos vêm de famílias com mesmo nível sócioeconônico?).”

Segundo Neto:

“A partir do próximo Enem, será possível fazer uma análise do desenvolvimento da escola no decorrer dos anos. Isso se deve à adoção da TRI (Teoria de Resposta ao Item), uma metodologia de avaliação que leva em conta não apenas o número de acertos do estudante mas também o nível de dificuldade das questões corretas e a coerência no conjunto das respostas.”

http://educacao.uol.com.br/noticias/2010/07/19/enem-2009-por-escola-ao-comparar-notas-analise-instituicoes-com-perfil-semelhante.htm

Sobre Luiz Carlos de Freitas

Professor da Universidade Estadual de Campinas - UNICAMP - (SP) Brasil.
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