As KIPPs de Roberto Lobo

Roberto Lobo aborda em seu blog no Estadão as escolas americanas denominadas KIPP – “Knowledge Is Power Program” . Segundo ele, as escolas KIPP estão em evidência. Acredito. Mas isso vale para todos os tipos de escolas charters nos Estados Unidos, pois com a crise fiscal, terceirizar gera menos custos. Uma professora terceirizada ganha metade de uma concursada. Já falamos neste blog sobre as escolas KIPP e as congêneres charters.

A posição das escolas charters nos USA é controversa. Elas não conseguem demonstrar que ensinam mais que as escolas públicas regulares e trabalham em condições mais favoráveis do que as públicas.

“… as escolas Kipp são diferentes das escolas públicas regulares em várias maneiras: elas contam com populações auto-selecionadas de estudantes (em vez de atribuídos a elas como nas públicas), elas recebem muito dinheiro privado, e elas dependem de um difícil modelo de força de trabalho – principalmente professoras sem filhos, jovens e que fazem horas extras.” Leia aqui.

As Kipp recebem gordas doações da Walton Family e Doris and Donald Fisher Fund.

Impõem a seus alunos uma pedagogia penal que regula as relações das KIPPs com os alunos e suas famílias. Daí que Lobo reconheça que não são escolas para a classe média, mas sim para a classe média pobre. Os alunos que a escolhem (ou seja, os melhores das escolas públicas) têm que assinar um compromisso, um contrato, que se desrespeitado implica no desligamento do aluno. Nenhuma escola pública pode fazer isso, felizmente.

Veja o que diz o “Compromisso do aluno”:

“• Vou sempre trabalhar, pensar e se comportar da melhor maneira que eu sei, e eu vou fazer o que for preciso para mim e para meus colegas para aprender. Isto também significa que eu vou terminar o meu dever de casa toda noite, eu vou chamar meus professores se eu tiver um problema com a lição de casa ou um problema com a vinda para a escola, e eu vou levantar a mão e fazer perguntas em sala de aula, se eu não entendo algo.

• Eu sempre me comportarei de forma a proteger a segurança, os interesses e direitos de todos os indivíduos na sala de aula. Isto também significa que eu vou sempre ouvir todos os meus colegas da equipe Kipp e dar a todos o meu respeito.

• Eu sou responsável por meu próprio comportamento, e eu vou seguir as instruções dos professores”

A classe média americana não aceitaria isso. Daí que sejam escolas destinadas a pobres motivados.

Quando se pode escolher os alunos, a conversa e os resultados são outros.

Quanto se pode impor contratos draconiamos aos pais, alunos e professores, é diferente.

Mas é esse o caminho que queremos para formar pessoas criativas e autônomas?

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About Luiz Carlos de Freitas

Professor aposentado da Faculdade de Educação da Universidade Estadual de Campinas - UNICAMP - (SP) Brasil.
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