O que dizem as ruas?

Ontem, foram 200 mil pessoas nas ruas em todo o país. Certamente as ruas estão dizendo muitas coisas – e não só a questão das tarifas do transporte público.

Em alguns momentos falamos, aqui, da classe média emergente. De como as políticas econômicas da última década terminaram estimulando o desenvolvimento, aumentando a renda média e gerando necessidades de consumo associadas a ascensão social e bem estar.

Correndo o risco de errar, por vários motivos, penso que os movimentos que estão nas ruas são o resultado dessa política econômica que gerou desenvolvimento, aumentou a qualidade de vida e terminou por estimular a classe média emergente a querer mais. Nada contra.

Neste sentido, contraditoriamente, estes movimentos de hoje são filhos da era Lula. Não fora ele ter mudado o conceito de desenvolvimento, teria sido mais difícil emergir uma “nova classe média” – como alguns dizem.

Ela agora quer mais consumo e aí está o problema. Os movimentos que estamos assistindo estão despolitizados. Não só são contra partidos, mas contra a política. Há claramente um viés conservador neles. Esta massa é claramente susceptível de aceitar as teses à direita. Entre elas as teses dos reformadores empresariais da educação. Vão pedir mais escolas de qualidade, mais postos de saúde, mais segurança. Certo. Mas não lhes importa se estas instituições serão públicas ou privatizadas.

Na outra ponta, os políticos vão agora sentir-se pressionados e vão fazer qualquer coisa para aplacar tal insatisfação. Os atalhos sugeridos pelos reformadores empresariais serão bem vindos.

No fundo, não sei se tais movimentos vão alavancar a melhoria da qualidade dos serviços públicos ou vão acelerar sua privatização. É possível que o último seja o mais provável.

Aguardemos pelos fatos e pelas análises dos entendidos…

Sobre Luiz Carlos de Freitas

Professor aposentado da Faculdade de Educação da Universidade Estadual de Campinas - UNICAMP - (SP) Brasil.
Esse post foi publicado em Assuntos gerais, Privatização. Bookmark o link permanente.

Uma resposta para O que dizem as ruas?

  1. Camila disse:

    Olá professor, acho q esse debate e essas reflexões apontadas no texto estão na ordem do dia e gostaria de dialogar junto! Realmente fica a questão: “O Povo acordou ou acordamos a Besta?” O desenrolar desse levante com certeza é algo q as forças populares e organizações políticas de esquerda tem se preocupado muito. A minha geração nunca viu algo parecido com o contraste de uma marcha com 200 mil pessoas nas ruas, e não esperava ver isso tão cedo e de forma tão espontaneísta. A juventude vem protagonizando as manifestações e dando a linha. É um movimento da classe média, sem dúvida. As palavras de ordem que prevalecem tem um cunho nacionalista e rechaçam a participação dos partidos de esquerda, reafirmando uma postura conservadora e que faz coro aos interesses da direita (sim, a questão DireitaxEsquerda ainda existe e é muito atual) de desarticular as ferramentas de organização da classe trabalhadora. Ainda q haja críticas e divergências com os esquerdistas, negar seus respectivos partidos nas mobilizações populares é assumir uma postura fascista. Essa postura vem sendo fortalecida nas ultimas manifestações. Além disso, a tentativa de disseminar várias pautas à mobilização impressa pela mídia e por outros setores da direita, acaba diluindo e descaracterizando a luta. Trata-se de uma luta por direitos! Direitos da classe trabalhadora!! Penso que as mobilizações da juventude tem potencial pra resgatar elementos que fortaleça a luta pelas reformas estruturais. Não se pode permitir q os setores conservadores direcionem um processo que em sua essência aglutina, embora despolitize a luta por direitos q a classe trabalhadora vem travando historicamente. Eis o desafio! O terreno é fértil! Mas é fértil para ambos os lados!!

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