Reclamos da Sra. Rose

Afastada das decisões do governo paulista, pelo menos no que se refere à política educacional, a ex-secretária da Educação que implantou a Progressão Continuada, Rose Neubauer, ocupa a página três da Folha de São Paulo (“Culpar a Vítima é Escapismo”) do dia 24-11-2013 para reclamar dos caminhos da política paulista para a área da Educação.

Membro do Conselho Estadual de Educação paulista a ex-secretária, procura manter-se influenciando a política local, num esforço para recompor a hegemonia perdida, tarefa para a qual conta com suas parceiras históricas Eunice Durham e Guiomar Namo de Mello (atual presidente do Conselho). De lá fustigam o governo e as universidades (p. ex. a Deliberação 111 que afeta a formação de professores). Como sempre, tentam impor suas ideias pela canetada e não pelo diálogo. Não foi assim também que a ex-secretária Rose implantou a progressão continuada no Estado?

A ex-secretária discorda da mudança da progressão continuada para a organização por ciclos promovida pelo atual governo, endossa o coro contra a reprovação dos alunos, acusa o também ex-secretário Chalita de ter desmantelado a política de acompanhamento dos alunos, qualifica tudo de retrocesso e enaltece a política de bônus para os professores que ela considera a “única medida de impacto na década” da educação paulista.

Como se pode ver, pela própria pena de uma ex-secretária tucana, fica claro o pouco ou quase nada que se fez na década de educação paulista. E, convenhamos, se a implantação da política de bônus foi a única medida de impacto na década, então não se fez nada mesmo. Tal política, copiada de Nova York, lá, na matriz, já foi suspensa. Aqui não é paralisada somente por questões políticas – não que se reconheça seus efeitos benéficos na educação paulista. O SARESP que o diga. Suspendê-la causaria uma gritaria destes setores antigos do PSDB jamais vista no Estado, certamente com a ex-secretária Rose à frente.

Mas o que temos de fato de novidade na educação paulista? Uma mudança de estilo de grande relevância: pela primeira vez o Secretário saiu do claustro e foi para as escolas ouvir os profissionais da educação de forma presencial e sistemática e não casual ou por “email”. Colocou nas assessorias diretas pessoal que conhece a rede por dentro e não “free-lancers”. Fortaleceu as estruturas de gestão pedagógica das escolas e teve a coragem de reconhecer que a progressão continuada da ex-secretária é um fracasso. E principalmente, democratizou e arejou a Secretaria.

O episódio mostra como é difícil para o PSDB inovar e sair da mesmice. Cada vez que se ouve o pessoal que no passado administrou a Secretaria de Educação do Estado falar tem-se a impressão de ouvir mais do mesmo que não funcionou. Mais bônus, mais progressão continuada, etc. Um discurso que já começa a ficar velho.

A progressão continuada foi um modelo do tipo “abre a porta e deixa passar” retirando-se as avaliações entre os anos de estudo da clássica estrutura educacional das séries iniciais e séries finais – 5 + 4. Tal estrutura não está sintonizada com o desenvolvimento da criança cujas fases acontecem em média a cada três anos: infância, pre-adolescência, adolescência. A nova estruturação 3+3+3 respeita melhor os tempos da vida. Não é tudo, é claro. Falta agora alterar o currículo para que ele também leve em conta os tempos da vida e aumentar as condições para que se possa acompanhar e diversificar os tempos de aprendizagem –  e torcer para que a escola fique mais interessante para os estudantes.

Não devemos ser favoráveis à reprovação. Mas quem é? O fato de se introduzir mais avaliações em sala de aula (e perder a ilusão de que é o SARESP que avalia – outra invenção do passado), cria a oportunidade para se agir antes e depois das avaliações em sala de aula. Disso não se pode deduzir que o que se pretende é reprovar. A questão é diagnosticar e criar a estrutura para que as escolas possam desenvolver este trabalho. Aliás, sem isso, pode-se se chamar como quiser (Progressão ou Ciclo) e nada de novo acontecerá. Adiar a eliminação do aluno para o final da quinta ou da nona série – ou pior, aprovar ao final sem que o aluno esteja preparado – não é a melhor forma de se lidar com as dificuldades que os alunos naturalmente apresentam em sua caminhada. Isso sim é escapismo

A reação da ex-secretária Rose é típica de certa política paulista tucana. Tudo que se fez no passado é sagrado e nada pode ser mudado sem autorização dos criadores.

Sobre Luiz Carlos de Freitas

Professor aposentado da Faculdade de Educação da Universidade Estadual de Campinas - UNICAMP - (SP) Brasil.
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10 respostas para Reclamos da Sra. Rose

  1. rosangela disse:

    O SARESP para cumprir com seu objetivo de avaliar e diagnosticar, deveria ocorrer no início do ano letivo, assim , o trabalho daquele ano letivo seria sanar as defasagens apresentadas e avançar na aprendizagem. Então, as séries que são alvo do SARESP estão incorretas.As escolas percebem as defasagens ao final do ciclo, quando o aluno simplesmente , vai para outro ciclo sem ter adquirido os conhecimentos básicos para avançar, gerando problemas para o próximo professor, que nem sempre tem formação para por exemplo: alfabetizar, como é caso de alguns alunos que chegam ao ensino fundamental II. No ensino médio, as coisas não são tão diferentes, esses alunos que foram recém alfabetizados, estão tão acostumados a um ritmo lento, ou devido a progressão nenhum ritmo, que não acompanham e desistem, Esse é um dos fatores que justificam o enorme percentual de abandonos no ensino médio, além é claro, do ingresso no mercado de trabalho por parte de outros.

  2. Maria Angélica de Biazi disse:

    Até que enfim, alguém que conhece bem como a criança aprende e analisa claramente o nosso sistema de ensino. Concordo em gênero, número e grau.

  3. Thiago Rariz disse:

    Uma das responsáveis pela destruição da educação paulista, Neubauer não deveria reclamar, pois os seus objetivos foram alcançados: manter o pobre sempre pobre, e tirar dele qualquer possibilidade de ascensão social pela educação.

  4. rose neubauer disse:

    Fico profundamente admirada que o professor Freitas, que vem assessorando a Secretaria Estadual de Educação, desconheça a política que foi desenvolvida nos anos 90 na Secretaria e que produziu quedas significativas na evasão e ababdono escolar. É querer desconhecer a realidade, o que desmerece um profissional sério.
    A progressão foi implantada após Deliberação do Conselho Estadual de Educação,em 1998, tres anos após a Secretaria ter ampliado a jornada escolar de todas as crianças de quatro para cinco horas diárias, ter garantido coordenador pedagógico em todas as escolas ( o que não existia até 1995), ter implantado a progressão paralela de 3 horas semanais e 20 dias escolares em janeiro, para todoas as crianças com dificuldade de aprendizagem (que foi desarticulada na gestão Chalita) e ter fornecido indicadores detalhados para cada escola dos resultados do desempenho das crianças no SARESP, ano a ano desde o início da administração. Foram estas medidas que propiciaram a queda das taxas de evasão e repetência antes mesmo da progressão ser implantada e estimularam o CEE a propor a progressão em dois ciclos, de acordo com a proposta contida na LDB pelo eminente educador Darcy Ribeiro.
    Nunc li uma matéria de um educador respeitado dizendo que é melhor reprovar crianças do que submetê-las à progressão, ainda que esta não seja a mais perfeita possível.

    Certamente o professor sabe que a toda criança progride continuamente em todas as aprendizagens que faz menos a que ocorre nos muros escolares pelo modelo de repetência atrasado do século XVIII que predomina na mente dos que pensam a criança como um homúnculo e não com caracteríticas próprias.

    Na administração Luiza Erundina, com Paulo Freire Secretário de Educação, foi implantada a progressão continuada para todas as séries muito antes da proposta para a rede estadual em 1998.
    As características de implantação foram as mesmas. O professor Freitas já ouviu falar isso? Nunca vi nenhuma crítica sua a respeito.
    Esperava que o pessoal da Secretaria Estadual de Educação tivesse esclarecido o professor das medidas que ocorreram na educação paulista nos últimos 20 anos. Pesquisadores pesquisam antes de se posicionar cientificamente.

    • Alice Bueno disse:

      O que a senhora precisava era sair de trás de uma mesa, em uma salinha com ar condicionado, e vir para sala de aula! Pisar chão de sala! De faculdade e escola particular não vale… Venha para escola da rede Estadual. Pegue, como eu, 17 turmas, com uma média de 52 alunos por sala… Um trabalho que DEUS é testemunha do quanto tem sido difícil e desmotivante… Venha, senhora Rose, estamos aguardando! Pois falar de longe é muito, muito fácil…

    • Parabéns Professora Rose!!! A senhora foi a melhor Secretária da Educação que o Estado de São Paulo já teve. Suas medidas foram sempre em benefício dos alunos e o Saresp na sua época não era comprometido com dinheiro. A prática da reprovação nunca levou a nada e só exclui quem já é pobre. Depois de tanto tempo, até que com a competência do Prof. Palma, a SE estava caminhando, mas, o Prof. Herman não soube aproveitá-lo em todo o seu potencial. Também fiquei admirada e pasma com os comentários a seu respeito feitos por Luiz Carlos de Freitas (gosto do que ele escreve).Claro que sempre alguém vai criticar uma pessoa com o seu brilho e tamanha coragem e competência. A Educação Paulista só ganhou em sua Administração e olha que sou amiga do Chalita (meu ex aluno) e da família inteira, mas, beirar a sua competência será muito difícil.

  5. Carlos disse:

    Senhora Rose, estamos no século XXI e é preciso mudanças sim! Chega de progressão continuada! Nosso aluno está desmotivado… “Para que estudar se passarei de ano?” Esta é a fala de muitos educandos! Que tal entrar numa sala hoje com 40 alunos para ter uma ideia real de como está a educação paulista? A progressão continuada, talvez, funcionou em 1998 e hoje tem valor real? Não estou defendendo um modelo tradicional, mas é preciso sim repensar no modelo ultrapassado que enfrentamos hoje nas escolas paulistas!

  6. Alice Bueno disse:

    Bravíssimo!!! Está perfeito! Quem entende de educação é quem está em sala de aula, não quem está ‘escondidinha’ só olhando de longe!

  7. Neide Cruz disse:

    As afirmações contidas em seu artigo não encontram sustentação em minha experiência vivida na carreira do magistério, na rede pública estadual e municipal da capital, desde os idos de 1966 e muito menos em órgãos centrais da SEE, desde 1984. Também não encontram sustentação nas inúmeras teses e publicações que se aprofundam na História da Educação do Brasil e na educação paulista, em particular.
    Recentes estudos e pesquisas, isentos do viés partidário comprovam sim, que a rede estadual paulista garantiu acesso de todos à escola. Ninguém pode negar que o desafio é alcançar um ensino de melhor qualidade. Mas não é com ataques pessoais ou partidários que chegaremos lá.
    A Progressão Continuada que ocorreu e continua ocorrendo em vários estados e municípios do Brasil foi uma política fundamentada na LDB, aprovada por Conselhos Estaduais e Municipais de Educação, cuja preocupação maior é garantir a aprendizagem e evitar o abandono escolar. Vale lembrar que a política educacional da Progressão Continuada levou em consideração a necessidade de organizar escolas de acordo com a faixa etária e desenvolvimento das crianças, o que foi alcançado, em grande parte, com a reorganização do ensino fundamental.
    Atualmente, nossas crianças entram no ensino fundamental com apenas 6 de idade ou a completar. REPROVAR crianças no terceiro ano escolar, com apenas 8 anos não é uma forma de marcá-las precocemente como fracassadas?
    Fico ainda me perguntando: a possibilidade de REPROVAÇÃO no 6o ano (com 10 ou 11 anos de idade) não será o retorno dos famigerados e seletivos exames de admissão para o ingresso na rede estadual? Mas tudo ficará mais fácil, pois os professores terão de volta a “arma” predileta da elite brasileira – culpabilizar pais e alunos pelo fracasso.
    E muitos continuarão cantando em prosa e verso o fim da “promoção automática”, numa tentativa de fazer a reprovação ser identificada com avaliação. Restaure-se a verdade histórica, os cadastros informatizados da Secretaria da Educação, com boletins e avaliações bimestrais estão disponíveis para que quiser encarar a verdade.
    Claro, apelidos pegam e “promoção automática” está aí para comprovar que uma mentira repetida por anos a fio, pode parecer verdade para a população. Mas, de fato ela é uma inverdade que pouco dignifica o magistério paulista, que conta com excelentes e dedicados professores, capazes de fazer da progressão uma realidade.
    Não acredito que as educadoras citadas no artigo sejam contra mudanças, ao contrário, a vida e a obra delas falam por si só. Um último questionamento: se existe unanimidade quanto à precariedade da formação de nossos professores, por que a resistência em mudar?

  8. Neide Cruz vc faz perfeitas colocações. Muitos são os professores que trabalhavam muito bem com a progressão continuada (ciclos). Eu falo com experiência pois que, trabalhei nos últimos 15 anos, como Diretora em uma imensa escola (até abril de 2012) e dos pouquíssimos papéis que guardei, um deles foi um trabalho enviado a SE por solicitação deles (agosto de 2011) e uma pesquisa, sem muitas formalidades, onde os professores aplicaram as mesmas provas em alunos de 7° ano até a 2ª série do Ensino Médio e ficaram pasmo com os resultados (alunos de 7° ano com nota 7 por ex e mais adiantados com nota 1,5). O prof. Herman tomou conhecimento da pesquisa, gostou e até falou em publicar, mas, depois, como quase tudo na Educação (e tb por falta de tempo meu) ficou no papel. Isso pra confirmar apenas que não pode ser generalizada essa opinião de que os professores não aceitam.

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