Volta Lula

O governo Dilma decidiu de vez administrar a educação sem ouvir a comunidade educacional – ou ouvindo só o que convém. Lula e Haddad não seguiram este caminho. Em época semelhante, em 2010, Lula e Haddad estavam na I Conae com a comunidade educacional às vésperas da eleição. E não foram vaiados. Ao contrário: arrasaram…

Em recente manifestação o MOVATE, uma organização dos trabalhadores do Ministério da Educação, mostrou as persistentes ações do governo conduzidas pelo MEC sem procurar ouvir a área da educação. Coube a ele elencar as provocações do governo Dilma sistematicamente dirigidas à área.

A própria nomeação de Paim como Ministro é reveladora desta situação. O Ministério foi entregue a um gestor de carreira sem tradição política. Não havia mais ninguém com perfil político para assumir o cargo? É mais que isso. Trata-se da concepção gerencialista do governo Dilma que ele implementa desde o primeiro dia de seu governo. Haddad incomodou, foi convenientemente desviado. Veio Mercadante, um ministro ausente, que em sua ausência entregou as relações do Ministério com Dilma ao Secretário Executivo Paim, afeto à gerência. E finalmente, temos Paim, um gerente. Se Dilma pudesse colocaria gestores de carreira em todos os Ministérios. Todos conhecem sua falta de paciência com a política. Não é surpresa que a Presidenta ande com medo de vaias em espaços públicos…

Hoje, entretanto, à esquerda propaga-se o sentimento de que se criticarmos o governo Dilma, então, estaremos fortalecendo a oposição em um ano eleitoral. Isso seria politicamente incorreto.

À direita, não é necessário ser muito contra as ações do MEC pois, no conjunto, a política deles está sendo feita, ainda que em um ritmo menor do que implementariam se estivessem no governo. Nada mal para uma oposição. Note que para a oposição ao governo Dilma o que falta na educação é exatamente gestão. Um gestor de carreira, portanto, facilita já que trata as questões essencialmente como técnicas, números.

Ao centro está o pessoal do “deixa disso”, etc.

Não existe muita opção.

Por definição, eu deveria estar junto à esquerda. Não desconheço as implicações políticas de uma crítica ao governo Dilma em ano eleitoral. Votei duas vezes em Lula e uma em Dilma.

Ocorre que há limite até mesmo para apoiadores teimosos. A posição da esquerda, de apoio em confiança, está virando uma armadilha para fazer reféns políticos que gera inércia e conforto para o governo Dilma, em nome da continuidade. Talvez seja hora de um pouco de contradição. Continuar para quê? Durante 12 anos, praticamente confiamos. Mas o que ficou depois deste período em matéria de política educacional? Não me refiro a programas disso ou daquilo. Com Dilma não evoluimos em relação a Lula.

A oposição resolveu acelerar suas mudanças legislando via  Congresso e faz a política educacional lá. E o governo? Note a situação do PNE com a oposição ao governo Dilma atendendo mais às demandas da chamada esquerda do que o próprio governo, o qual continua batendo na tecla do PNE do Senado contra a comunidade educacional.

Em algumas áreas do governo Dilma, com as recentes nomeações, se ele perder as eleições este ano, pode se dizer que  já teve início uma verdadeira equipe de transição de governo para a oposição. Muitos dos nomes indicados hoje seriam facilmente mantidos pela oposição amanhã.

A gota de água foi o cancelamento da CONAE seguida da nomeação de Paim, um gestor sem força política e que vai cumprir os desígnios da Secretaria da Presidência da República onde o Todos pela Educação dá o tom através de Gerdau, sentado ao lado de Dilma.

O governo Dilma atua de costas para a comunidade educacional. Em ano eleitoral. E quer que continuemos votando nele, pois, se não o fizermos, teremos, então, feito a escolha errada e fortalecido a oposição. Seremos culpados por termos promovido a derrota de Dilma.

Não é sem razão que cresce o “volta Lula”…

Pessoalmente, me recuso a seguir o caminho da homologação eterna a menos que o governo Dilma use o escasso tempo que ainda tem para dar mostras de que vai fazer um segundo mandato com a comunidade educacional e não contra a comunidade educacional.

Ou, então, que o candidato seja Lula.

Caso não ocorra nada disso, me considero liberado para tomar o caminho que julgar conveniente, o que pode ser, inclusive, não apoiar a reeleição de Dilma. Creio que 12 anos de homologação foram suficientes. E se não foram, a incompetência não foi da minha paciência (ou talvez sim?), mas do próprio PT e de seus governos.

É hora do PT e seus governos pararem de por a culpa nos outros e assumirem seus problemas – inclusive uma eventual derrota eleitoral de Dilma este ano, caso mais gente resolva pensar como eu. Na área educacional a insatisfação tende a aumentar, face à insensibilidade do governo Dilma.

Sobre Luiz Carlos de Freitas

Professor aposentado da Faculdade de Educação da Universidade Estadual de Campinas - UNICAMP - (SP) Brasil.
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3 respostas para Volta Lula

  1. MARIA ESTELA SIGRIST BETINI disse:

    Freitas expressa nossa perplexidade e descontentamento diante do adiamento da CONAE, e como diz o governo “atua de costa para a comunidade educacional”. Não creio numa mudança de rumo, mas me pergunto: o que fazer? Deixar a política neoliberal assumir totalmente a direção do país?

  2. Há outra alternativa como aponto: ou Dilma muda de postura, ou chamem o Lula… Se nada disso é possível, não podemos continuar com “governos rolha” cuja função é apenas impedir outros. Há limite para isso também, em especial quando a cooptação começa a se alastrar e desmobilizar, servindo de justificativa para tudo.

  3. Suelen Batista disse:

    Me sinto coagida exatamente pelo mesmo motivo do artigo. Votar na Dilma que está negligenciando a comunidade educacional ou dou força à oposição? Mas o artigo mudou minha opinião. Realmente não posso fortalecer um governo que não considera as reivindicações e as necessidades fundamentais da educação, um governo que trata a educação como secundária e no discurso diz que é a redentora quase que sozinha do país. Nem a atitude, nem o discurso estão corretos. Realmente não posso fortalecer esse governo sem uma mudança de atitude.

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