Uberização, OCDE e habilidades socioemocionais

Em post anterior, vimos que desenha-se um quadro de incertezas promovido pelas novas formas de organização do trabalho. O pós-modernismo é pré-ciente dessa incerteza. A previsão é que as condições de vida também serão difíceis, num cenário crescente de desemprego estrutural altamente competitivo, no qual o modelo de organização do trabalho poderá vir a ser a uberização: disponibilidade permanente para o trabalho, empregabilidade sem garantia de emprego, competição acirrada entre trabalhadores mais instruídos, incerteza sobre o futuro do bem-estar pessoal e familiar, proteção social mínima.

A capacidade pessoal para enfrentar tais crises passa a ser uma “competência” altamente valorizada pelos investidores. Atenta a isso, a OCDE – Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico – está preocupada com que a população de jovens de 15 anos cresça “resiliente”. Certamente, ela estará entre as “competências para o século XXI”, como gostam de definir as agências internacionais.

A resiliência é a capacidade, digamos simplificadamente, de enfrentar-se persistentemente com situações adversas. Algo assim: faça parte do exército de reserva de desempregados instruídos; lute para ter trabalho; caso não encontre trabalho, “take it easy”, fique calmo, “you are a winner”, você é um vencedor, não desista, seja empreendedor; você vencerá se for persistente.” Sendo mais técnico, a resiliência é a capacidade de uma pessoa para lidar com problemas, para superar obstáculos ou resistir à pressão de situações adversas, como estresse, por exemplo. Resiliência pede esforço, a categoria chave do liberalismo que pode ser traduzida por “ser bem sucedido mesmo em condições adversas de darwinismo social” em ambientes uberizados. É a nova versão do capital para o lema “ordem e progresso”.

A ênfase recente em ensinar na escola as tais habilidades socioemocionais às crianças, entre elas a resiliência, tem a ver com esta preocupação de que os jovens vão se enfrentar com a precarização e com as instabilidades e incertezas no mundo do trabalho, por um lado. Por outro, tem a ver com o grau em que a juventude de um país possui as competências para “aceitar” estas novas formas de organização do trabalho. Isso, junto a outras variáveis, orienta investimentos.

Do ponto de vista ideológico, a ação visa ocultar que a origem das incertezas se deve a fatores de esgotamento do atual sistema social e colocar o foco na pessoa, fazendo com que a juventude mantenha sua crença no sistema da “igualdade de oportunidades”, oportunidades estas que para se concretizarem dependem de esforço pessoal, onde a concorrência é algo “normal” e desejável. Serve de anteparo para que a juventude não se deixe levar por discursos críticos que mostrem como o sistema capitalista é injusto na sua base, no seu próprio “contrato social”. A ofensiva da direita mundial, que assistimos neste momento, inclusive aqui, está ligada a esta pré-ciência da própria crise e à necessidade de criar fatores contra-restantes a ela.

O liberalismo oculta esta realidade com a ideia da “igualdade de oportunidades” (e não de resultados) e difunde a noção de que, para isso, é preciso preparar-se para disputar, para ser o melhor, pois nesta visão, agarra a oportunidade quem for esforçado. O mundo é uma eterna “corrida ao topo”.

Neste cômputo liberal, não entram em cena as “desigualdades sociais de origem” que, se não condenam as pessoas à derrota, pelo menos afetam a própria condição de poder disputar e esforçar-se para evitá-la. Tenta-se passar a ideia de que o jogo é limpo, sem cartas marcadas. Predomina a ilusão de “vencer as dificuldades de origem”, não importando quais sejam. E é isso que orienta também a expectativa dos liberais em relação à escola, em relação à exigência de que, mesmo que a escola tenha alunos de nível socioeconômico baixo, isso deve ser superado pedagogicamente no interior da escola, não importando nem mesmo as condições que se tenha no interior desta.

Adiantemos: nada contra este papel superador da escola; tem que haver mesmo, mas não como forma de ocultação da origem da desigualdade social em uma desigualdade acadêmica que se resolveria no interior da escola, e muito menos como solução definitiva para o problema da desigualdade social. Menos ainda, como forma de culpabilizar oportunistamente os professores, sem condições em seu dia-a-dia para promover tal superação, e aproveitar-se disso para propor a privatização da educação.

A escola pode ajudar a diminuir circunstancialmente as desigualdades, mas não é o caminho para se eliminar tais desigualdades. Até 60% das variáveis definidoras do desempenho do aluno estão fora do controle direto da escola. Posta nesta situação de lidar permanentemente com as desigualdades sociais que persistem em se transformar em desigualdades acadêmicas a serem corrigidas pela própria escola, geração após geração, o papel da escola passa a ser o de “enxugar gelo”, com sucessivas gerações chegando à escola igualmente vítimas da permanência da desigualdade social. No melhor dos casos, quando a escola consegue agregar valor às gerações em desvantagem social, ela o faz mantendo as distâncias relativas no conjunto das classes sociais – não raramente a mando dos próprios ajustes do sistema social. Vale a briga, mas com outros horizontes.

Como muito bem estabelecem os sociólogos, as desigualdades sociais, consubstanciadas nas classes sociais, são o princípio e o meio de funcionamento do nosso sistema social. Sem elas, a cadeia de geração de riquezas não funciona.

Ciente disso, a OCDE, meca dos investidores e promotora do PISA, tem monitorado o grau de resiliência dos países:

“Como alguns estudantes superam as dificuldades do ambiente socioeconômico? Entre os países da OCDE, 31% dos estudantes provenientes de meios desfavoráveis são “resilientes”, o que significa que estão entre aqueles com melhores desempenhos entre todos os estudantes de meios similares, no âmbito internacional. Um ponto chave que distingue os alunos resilientes daqueles que não o são é que os estudantes resilientes assistem a mais aulas regulares na escola. Os resultados do PISA mostram que quanto mais confiantes e quanto mais motivados forem os alunos, maiores serão as suas chances de estar no grupo dos resilientes.”

“As desvantagens socioeconômicas de alguns estudantes podem condená-los a perpetuar de uma geração para outra o ciclo de poucas conquistas acadêmicas, fracas perspectivas de emprego e pobreza? Não se eles frequentaram escolas que lhes ofereceram mais aulas regulares. Os estudantes resilientes no PISA 2006 e no PISA 2009 apresentaram alto nível de desempenho acadêmico, apesar de virem de meios desfavoráveis. Eles são capazes de vencer as dificuldades que o ambiente lhes coloca, superar seus pares de ambiente socioeconômico semelhante e atingir resultados entre os melhores estudantes no âmbito internacional.”

Que os pobres podem aprender, não há dúvida. A questão é em que condições. Não seria mais razoável atacar diretamente as causas da produção da miséria e da pobreza? No entanto, isto levaria a uma crítica direta do próprio sistema social vigente, algo que está fora dos planos do pessoal da OCDE.

A OCDE prefere, com o PISA, ir difundindo a ideia de que a resiliência é uma nova arma contra a pobreza e não a transformação social das relações que geram a própria pobreza, cuja origem está nos processos de acumulação de riqueza. A resiliência é posta a serviço da adequação da juventude às regras de funcionamento social – as quais são as verdadeiras bases da desigualdade social. A OCDE prefere continuar a criar um mundo ideal onde todos podem vencer, se quiserem. A escola (e o professor) são os culpados pela perpetuação da desigualdade, não o sistema social.

A ofensiva inclui a padronização tanto das habilidades socioemocionais, como os mais recentes ataques à diversidade cultural, já iniciada com a proposta de implementar a padronização da aprendizagem através de bases nacionais curriculares. Ao contrário do que procura sugerir Maria Helena Castro, na Folha de São Paulo de 20-12-16, as BNCs, na forma em que estão sendo desenvolvidas, não são uma decorrência da nossa LDB, e sim, da ofensiva neoliberal que necessita aumentar o controle político e ideológico da escola para submetê-la a uma padronização de habilidades e competências, compatíveis com as novas demandas do capital para o século XXI. Para tal, criou a lenda de que nota mais alta é sinônimo de qualidade da educação.

No entanto, aos poucos, a juventude vai percebendo que, apesar de todos os seus esforços, ela vai sendo enquadrada pela sociedade e “devolvida” ao seu ponto de origem: filhos de trabalhadores se tornam, no máximo, trabalhadores exitosos. Filhos de magnatas, se tornam, pelo menos, magnatas. A presença do esforço pessoal que explicaria a espiral virtual dos magnatas, e a eterna falta de esforço pessoal suficiente, que explicaria a espiral negativa dos trabalhadores, cada vez mais precarizados, gera, ela mesma, as condições para a percepção das iniquidades sistêmicas.

Com esta radicalização motivada pelo aprofundamento das contradições do sistema capitalista que geram uma massa de desempregados agora estrutural (e não mais ocasional, produto de crises pontuais de produção), a resiliência (voltada para a culpabilização pessoal) passa a ser uma característica comportamental vital para a própria sobrevivência do capitalismo. Eis porque os sistemas de ensino vão incluir ações voltadas para o “ensino” de habilidades socioemocionais como a resiliência.

“Aos resilientes, os méritos; aos não resilientes, as batatas, como perdedores que são”. Depois disso, só mesmo Black Mirror explica (a série de TV que mostra como as pessoas estão ficando dependentes cada vez mais do mérito pessoal atribuído por outros, independentemente de padrões morais) – uma eternização de uma verdadeira operação de judicialização do tipo “lava-jato”, só que permanente e ao nível do cotidiano das pessoas.

No entanto, faltou combinar com a juventude…

Sobre Luiz Carlos de Freitas

Professor da Universidade Estadual de Campinas - UNICAMP - (SP) Brasil.
Esse post foi publicado em Mendonça no Ministério, Meritocracia, Pisa, Segregação/exclusão e marcado , , , , . Guardar link permanente.

4 respostas para Uberização, OCDE e habilidades socioemocionais

  1. Cecilia Goulart disse:

    Excelente análise, como sempre, Luiz Carlos Freitas. A sensação de impotência só aumenta aqui…

  2. Obrigado. O consolo é que não podem acabar com as contradições… portanto, está aberta a temporada de lutas… Abraço. Luiz.

  3. Gerson da Rodrigues disse:

    Professor Luiz Carlos, é sempre muito gratificante ler seus textos… grato pela ótimo reflexão!!!!

  4. Pingback: Giambiagi: o que é a “boa educação” | AVALIAÇÃO EDUCACIONAL – Blog do Freitas

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