SP: quando a herança pesa

Dados de exames de larga escala são apenas sugestivos e não conclusivos, entretanto, quando se instalam tendências, eles ganham um pouco mais de credibilidade. Os resultados que foram preliminarmente divulgados (e depois retirados do ar) pela Secretaria de Educação do Estado de São Paulo, e aos quais teve acesso o jornal Estado de São Paulo, indicam que houve queda na qualidade do ensino médio do Estado. Só houve melhoria de fato no primeiro ciclo do fundamental.

Na mesma matéria, os porta-vozes empresariais se apressam em colocar a culpa na falta de educação integral no Estado.

“Priscila [Todos pela Educação] aponta o ensino integral como uma possível solução para a rede pública. “O Estado ficou durante muito tempo sem ter projeto de educação integral do ensino médio. Até que tenha um número que impacte na média, vamos precisar de muito mais escolas em tempo integral”, completa.”

A razão disto é simples, com este discurso foca-se em propor para São Paulo mais do mesmo que já não funcionou antes, ou seja, receitas milagrosas baseadas em fundações empresariais, com é o caso do programa de escolas de tempo integral que o Estado vem pondo em prática. Hoje já foram implementadas 50 destas escolas que têm a orientação fornecida pela ONG que implantou as escolas de tempo integral no Estado de Pernambuco, financiadas também por empresários. Ou seja, para estes comentaristas a receita está em colocar a educação sob controle de modelos empresariais.

O que isto oculta? Exatamente que o Estado de São Paulo patina com as receitas das reformas empresariais que já foram implantadas nos últimos 15 anos – entre elas o pagamento de bônus para as escolas. Fica claro que bônus não melhora a qualidade de ensino. Mas, como já dissemos aqui neste blog, bônus meritocrático é uma ideia que nunca funciona e nunca morre.

Os reformadores empresariais pulam de receita em receita. Em um momento é bônus, em outro é educação integral de orientação empresarial, ou seja, privatização, sempre regado a “controle” da escola.

Os dados do IDESP sugerem que no primeiro ciclo (1ª. a 5ª. séries), como em todo o Brasil, o ensino melhora a sua qualidade (ou melhorou o nível sócio-econômico?), mas no ciclo final e no ensino médio houve piora.

Acho mesmo que o esforço feito pelo Secretário de Educação do Estado de S. Paulo para implantar variadas formas de ouvir a rede de ensino entre outras ações, não merecia este resultado. Mas o passivo é muito grande e não há condições políticas que permitam afastar-se ainda mais da herança das reformas empresariais que foram praticadas no passado. A ala mais radical, pró reforma empresarial, do PSDB e a rede de empresários que cerca o governo, não deixam.

Ao contrário do que vão dizer na mídia, se o Estado de São Paulo quer ter uma educação de melhor qualidade será necessário uma ruptura mais radical com o orientação empresarial que assolou a Secretaria nas últimas décadas. O Estado está pagando o preço das escolhas que fez no passado.

Se a Secretaria persistir e aprofundar as mudanças que tem feito, há uma chance para a educação paulista. Se retroceder, corre o risco de ficar no mesmo ou se enganar com falsas “melhorias”, como já ocorreu no passado, quando se alardearam os grandes avanços da educação paulista. Neste caso, cedo ou tarde, o Estado terá que se enfrentar à realidade da inadequação da política dos reformadores empresariais.

Ironicamente, enquanto isso ocorre no Estado que mais ensaiou aplicar as reformas empresariais – até mesmo contando com a assessoria do Prof. Francisco Soares na elaboração do indicador IDESP, o INEP, agora sob direção do mesmo professor, quer replicar o modelo de tais políticas propondo currículos detalhados amarrados a processos de avaliação e convocando ONGs e Associações para que os dados de avaliação cheguem às escolas.

Sobre Luiz Carlos de Freitas

Professor da Universidade Estadual de Campinas - UNICAMP - (SP) Brasil.
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