Diálogos a propósito da Lemann – Final

Para finalizar, não posso deixar de comentar, entretanto, a semelhança entre a filosofia do estudo da Lemann (incluindo o estudo citado por Samuel Pessoa) e um movimento norteamericano chamado “no excuses” – “sem desculpas” ou ainda “tolerância zero”. Nas palavras de Diane Ravitch:

“… a origem do “No Excuses” pode ser atribuída a um livro do mesmo nome por Samuel Casey Carter, escrito em 2000, acerca de “21 escolas de alto desempenho e alta pobreza” e divulgado pela Heritage Foundation de extrema-direita. A ideia por trás do livro é que nós não precisamos gastar mais dinheiro para consertar as escolas, temos apenas que nos certificar de que as escolas sejam exigentes em sua disciplina e sem nenhum absurdo pedagógico.”

Em seu livro, No Excuses com o subtítulo “Lições de 21 escolas de alta performance e alta pobreza” Samuel Casey Carter diz:

“Ao longo do país, dezenas de escolas com elevada concentração de crianças de baixa renda estão provando que a pobreza não é a causa do insucesso escolar. Todas as escolas No Excuses têm uma pontuação média igual ou acima do percentil 65 nos testes nacionais de desempenho, apesar de 75 por cento ou mais de seus alunos serem inscritos em programas de ajuda (free-lunch). Em contrapartida, escolas semelhantes tipicamente estão abaixo do percentil 35.”

O livro de Carter, em sua abertura, define o que se entende por “No Excuses”:

“Campanha Sem Desculpas

A campanha Sem Desculpas é um esforço nacional organizado pela The Heritage Fundation para mobilizar a pressão pública em nome de uma melhor educação para os pobres. A campanha Sem Desculpas reúne liberais, centristas e conservadores que estão comprometidos com alto desempenho acadêmico entre as crianças de todas as raças, grupos étnicos, e rendimentos familiares.

Os participantes da campanha Sem Desculpas têm visões diferentes acerca de vouchers, o papel do governo federal na educação, e outras questões políticas. Mas nós concordamos que não há desculpa para o fracasso escolar da maioria das escolas públicas que atendem crianças carentes. Todas as crianças podem aprender. Centenas de escolas públicas, privadas e religiosas que atendem crianças de baixa renda provaram isso. Ajude-nos a chamar a atenção para o seu sucesso e se juntar a nós ao exigir que escolas que fracassam atendam o padrão.

Não há desculpas.”

O estudo que nos apresenta, a Lemann diz em sua apresentação:

“Alcançar a excelência com equidade é um objetivo que deve ser prioritário para todas as redes de ensino e escolas públicas do Brasil. Isso quer dizer perseguir a meta de garantir um aprendizado de alta qualidade para todos e cada um dos alunos matriculados na Educação Básica – independentemente do perfil socioeconômico de suas famílias, da localização da escola ou de outros fatores comumente usados para justificar o ensino de má qualidade.”

Qualquer semelhança, pode ser mera coincidência.

Nos Estados Unidos, estas ideias levaram às escolas charters (escolas públicas administradas por concessão) e à privatização crescente da educação americana, sem resolver os problemas educacionais.

Também chama a atenção que o estudo citado por Samuel Pessoa para fortalecer o estudo da Lemann tenha em sua amostragem a seguinte composição de escolas:

“As escolas da nossa amostra empregam uma grande variedade de estratégias e filosofias educacionais, fornecendo grande variabilidade em insumos escolares. Por exemplo, a Charter School Bronx for the Arts acredita que a participação nas artes é um catalisador para o sucesso acadêmico e social. A escola integra arte em quase todos os aspectos da sala de aula, levando os alunos a usar a arte como uma linguagem para expressar seus pensamentos e ideias. Na outra extremidade do espectro estão um certo número de escolas chamadas “No Excuses”, como KIPP Infinity, a HCZ Promise Academies, e a Democracy Prep Charter School. Estas escolas “No Excuses” enfatizam testes frequentes, aumentaram dramaticamente o tempo de instrução, cobram garantia do envolvimento dos pais, têm estratégias agressivas de capital humano, uma teoria de disciplina tipo “broken windows”, e foco no desempenho da matemática e leitura”.

A teoria da disciplina “broken windows” mencionada, foi introduzida pelos cientistas sociais James Q. Wilson and George L. Kelling, em um artigo chamado “Broken Windows” que apareceu em março de 1982 no The Atlantic Monthly. Eles faziam um paralelo com um edifício que, se ficasse com algumas poucas janelas quebradas, terminaria por estimular a que mais janelas fossem quebradas.

Isso aplicado à educação, gera uma mensagem bem clara para os estudantes e pais: tolerância zero com a disciplina e com afazeres de casa. Leia-se: mais autoritarismo na escola e mais segregação. Além disso, o conservadorismo destas ideias tem enorme repercussão para a sala de aula, contribuindo para colocar a criança e os pais de joelhos perante a escola e o professor.

Quem não se lembra do ocorrido em Goiás onde se ensaia que escolas sejam administradas por militares. (Veja aqui e aqui.)

Estas ideias podem se cruzar em algum momento, se estão separadas. Os estudiosos que estão empenhados em mostrar que no Brasil escolas que atendem pobres também podem ensinar terão que se diferenciar destas ideias que nos Estados Unidos circulam há pelo menos 14 anos e não produziram a tão esperada equidade desejada pelos liberais e conservadores americanos. Tudo que produziram foi aumento da segregação e privatização.

Infelizmente estes movimentos não admitem que os problemas que explicam o desempenho dos estudantes estão em até 60%, fora da escola. Mas aceitam todas as desculpas do estado para não investir em educação e são indulgentes com a geração da pobreza na sociedade. Partem da ideia de que já se sabe o que fazer para melhorar a educação com os mesmos recursos disponíveis e que cabe à escola e aos pais reverter a pobreza gerada na sociedade. Basta fazer a escola funcionar.

É por isto que devemos exigir que tais estudos sejam feitos com a mais alta tecnologia, com os melhores desenhos de pesquisa e com grande cuidado. Fora disso, tornam-se estudos de advocacia de ideias contra a escola pública, contra os professores e contra os próprios estudantes.

Sobre Luiz Carlos de Freitas

Professor da Universidade Estadual de Campinas - UNICAMP - (SP) Brasil.
Esse post foi publicado em Links para pesquisas, Privatização, Prova Brasil, Responsabilização/accountability, Segregação/exclusão e marcado . Guardar link permanente.

5 respostas para Diálogos a propósito da Lemann – Final

  1. Andre Luis disse:

    Caro Professor Freitas, de fato seria muito injusto atribuir às escolas total responsabilidade sobre o sucesso dos alunos, assim como o fracasso.
    Como o senhor mesmo indica sobre a seriedade das pesquisas, talvez o impacto de fatores fora da escola não seja de 60%, mas de 50%, 30%, 10%, ou ainda 70%…
    Fato que redes de ensino como Sobral, tem melhorado bastante a qualidade da educação pública para a população, apesar de vários fatores fora da escola como pobreza e violência, por exemplo.
    A escola sim, tem um peso muito grande sobre a qualidade do ensino-aprendizagem, assim como o Estado também tem. Precisamos ter a aprovação de uma Lei de Responsabilidade Educacional para garantir que os governos deem as devidas condições para as escolas fazerem o seu papel. Precisamos de uma reestruturação das práticas pedagógicas ensinadas nas universidades, há tempos tão atrasadas que não preparam os professores para a sala de aula. Muita teoria e pouco preparo para a realidade. Precisamos ter carreira atraente, bem remunerada. Precisamos ter uma maior cobrança das práticas de gestores e de professores. Se um médico comete um erro grave com um paciente, será responsabilizado. Se hoje um professor comete erros que comprometam a vida de uma criança, nada acontece. O mesmo vale para gestores e governantes. Não adianta mais dinheiro para a educação continuar fazendo mais do mesmo.

    • Fico contente que tenha já equilibrado o intraescolar com o extraescolar. Cabe agregar o seguinte: Lei de Responsabilidade os EUA também fizeram, há 15 anos. Nada mudou. Depois, dê uma olhada no estudo que divulguei ontem, The Long Shadow, como você verá, a comunidade é parte essencial dos processos escolares e da viabilização dos efeitos que a escola possa agregar. Note que eles não se restringem à área da política educacional. O que vamos fazer? Ter uma lei de Responsabilidade para a Segurança, uma Lei de Responsabilidade para a Saúde, uma Lei de Responsabilidade para Renda, Trabalho, etc. Quantas? Você acredita mesmo que uma lei de responsabilidade educacional penalizará gestores como prefeitos, governadores, etc. Não, ela irá penalizar os que estão dentro da escola: diretores, professores e os próprios alunos. Enfim, pela prática de quem já fez e pela teoria, não parece ser solução. Abraço.

      • Andre Luis disse:

        Mas Professor, se o Estado é o grande formulador e direcionador das politicas educacionais, precisamos ter esperança que leis como a de Responsabilidade Educacional possam fazer diferença. Destacando que ter esperança é fazer uma busca ativa, uma constução do que acreditamos. E essa Lei de Responsabilidade Educacional de fato fará diferença se houver um maior acompanhamento da sociedade civil, valorizando a educação. Creio que se acreditarmos que essa lei de nada adiantaria, significaria acreditar que eu, você, a população em geral, não é capaz de fazer a sua parte e então, seríamos merecedores do governo que temos.

  2. Suelen Batista disse:

    Como analisar a eficiência e a produtividade de experiências educacionais e transformações sociais?

    Ao adotar a lógica e as características de administração privada, o Estado já não será público. É preciso muito cuidado com o que estamos construindo – uma busca insaciável e obcecada eficiência, seja lá o que essa eficiência signifique para o nosso sistema educativo.

  3. I. di Renzo disse:

    Já é conhecido que a “concepção alcoolizada” é a mais provável causa que leva a criança apresentar o Transtorno do Déficit de Atenção e Hiperatividade TDAH ou o Déficit de Atenção DDA. Estes transtornos comprometem seriamente o aprendizado e não são problemas “criados” pelas indústrias farmacêuticas. Eles afetam a humanidade há aproximadamente 6.000 anos e só recentemente estão sendo observados, com mais atenção, pelas inúmeras dificuldades enfrentadas no dia a dia, não só pelos portadores dos transtornos, como para quem se relaciona com eles e desconhece o problema.

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