Cid Gomes: de Sobral para o mundo… – II

(Final do post anterior.) Na Wikipedia pode-se ler que:

“Sobral é o segundo município mais desenvolvido do estado do Ceará, atrás apenas de Fortaleza, de acordo com o IDH (Índice de Desenvolvimento Humano). Sobral também é líder em trabalhadores com carteira assinada no interior do Ceará e possui a quarta maior arrecadação em ICMS do Estado, atrás de Fortaleza, Maracanaú e Caucaia, na Região Metropolitana de Fortaleza. A cidade também é destaque nas exportações, sendo o único município do interior que compete com a Capital a liderança nas exportações do Estado. A cidade de Sobral é considerada, de acordo com o IBGE, uma Capital Regional.

A cidade de Sobral foi apontada por 2 vezes (2011/12 e 2013/14) pelo guia de investimentos estrangeiros editado pelo grupo jornalístico britânico Financial Times como uma das 10 cidades do futuro da América, a única cidade brasileira do seu porte.”

Cid Gomes é engenheiro civil, passou por vários partidos incluindo PMDB (1983 – 1988); PSDB (1988 – 1996); PPS (1996 – 2003); PSB (2003 – 2013) onde esteve durante 10 anos até que Eduardo Campos rompeu com Dilma e ele mudou para o atual PROS – Partido Republicano da Ordem Social. Em 2005 mudou-se para Washington onde atuou como consultor do Banco Interamericano de Desenvolvimento – BID.

Segundo Cid, no seu primeiro mandato de prefeito em Sobral ele executou todas as melhorias possíveis no sistema municipal de educação e ao final de quatro anos fez uma avaliação externa do sistema e constatou que 60% das crianças depois de 3 anos de escolarização ainda não sabiam ler e escrever. Então, decidiu criar o Paic para alavancar a alfabetização no município porque, segundo ele, sem saber ler toda a aprendizagem na escola estaria comprometida. Desta experiência, Cid concluiu que o principal em educação é a avaliação externa e a alfabetização.

Da atuação como governador, Cid considera que seu programa educacional no Estado do Ceará tem dois pilares básicos: alfabetização e ensino médio com formação profissional. O Estado tem mais de 100 escolas de tempo integral onde se faz também formação profissional. Cid tem uma visão pragmatista da educação, uma visão simplista dos problemas educacionais, ou como ele diz, “feijão com arroz”.

Tem dito no Ceará que uma vez no Ministério o ensino médio será prioridade. Cid também afirmou ter ‘simpatia’ pela ideia de um exame nacional para professores, nos moldes do Enem, que assegure às famílias a qualidade dos docentes.

Em Sobral quem mais cresceu em desempenho no IDEB foi o ensino fundamental dos anos iniciais. Foi assim no Brasil inteiro. Mas lá chama a atenção porque o ensino municipal entre 2007 e 2013 avançou na sequência 4,9 – 6, 6 – 7, 3 – 7, 8 (meta era 5) este último índice referindo-se a 2013.

Em termos de porcentagem de alunos que atingiram o nível de aprendizagem adequado na rede municipal, em português é de 75% e em matemática 82%. Os poucos alunos dos anos finais do ensino fundamental (512) matriculados no município têm  no 9º. ano uma porcentagem de estudantes em nível adequado de domínio de 30% em português e 24% em matemática. A maioria do ensino dos anos finais é feita pelo Estado. Mas, nas escolas do Estado, o número de alunos que atingem o nível adequado não é melhor sendo no 9º. ano em português 25% e em matemática 13%.

Aqui o avanço das escolas dos anos finais do fundamental no município é bem menor. Não há ao nível de 6ª. a 9ª. séries o mesmo tipo de intervenção que se realizou nos anos iniciais já que as escolas são estaduais e não municipais. Chama a atenção, no entanto, que as crianças saídas da 5ª. série não transfiram habilidades deste nível para os anos finais do fundamental (6ª. a 9ª.), afinal estas crianças continuaram indo às escolas da cidade em anos posteriores e todas são provenientes do ensino municipal de 1ª. a 5ª.. Não seria surpresa em um ambiente escolar altamente controlado como o que foi implantado nas escolas de 1ª. a 5ª. séries, que o aprendido pelas crianças tivesse perna curta, ou seja, estivesse mais focado no básico e voltado para sair-se bem em provas.

Para complicar o caso Sobral, vejamos o comportamento do ensino privado na cidade, que é sempre alardeado como o mais eficaz. Ele está abaixo das metas em todos os níveis: no 5º. ano deveria ter 6,4 e tem 6,1; no 9º. ano ele deveria ter 6,3 e tem 5.8; e no ensino médio ele deveria ter 6 e tem 5,3.

Este descompasso com o desenvolvimento global do ensino na cidade e o avanço acelerado pouco usual no 5º. ano das escolas municipais merecem, no mínimo, serem pesquisados mais detidamente antes de que se assuma que Sobral é modelo de política pública.

Note-se que em termos do Estado do Ceará, a administração de Cid Gomes em 8 anos de governo – com a Secretária de Educação do Estado, Izolda Cela, sendo a mesma que foi Secretária de Educação em Sobral – não tem nada de excitante nos índices do IDEB do Estado.

Para as escolas estaduais do Ceará, em 2013, no quinto ano a sequência de crescimento é 3,5 – 4,2 – 4,4 – 5 (para uma meta 4,3); no 9º. ano a sequência é 3,4 – 3,6 – 3,7 – 3,9 (para uma meta 3,6) e no Ensino Médio a sequência é 3,1 – 3,4 – 3,4 – 3,3 (para uma meta 3,5) ou seja declinante e abaixo da meta.

Ou seja, a mesma Secretária (Izolda) não conseguiu transferir de Sobral para o Estado do Ceará os supostos avanços educacionais de Sobral. Isso prova que é um pouco mais difícil gerir a educação quando se tem mais de 40 escolas de educação fundamental de anos iniciais para cuidar; é bom, portanto, baixar as expectativas. Principalmente porque medidas que ali são usadas e que agora estão sendo oportunistamente apontadas como responsáveis pelos avanços (bônus é um deles), são usadas em outros estados brasileiros em redes maiores e estes estão empacados (São Paulo, por exemplo).

A Secretária de Educação do município de Sobral, que virou Secretária da Educação do Estado do Ceará na gestão Cid, agora é Vice-governadora eleita do Ceará junto com o novo governador do PT, Camilo. Não a teremos em Brasília no MEC.

Com o PNE que foi aprovado, só faltava achar o Ministro “certo”, e este é Cid Gomes: ex-consultor do BID, convencido das ideias dos reformadores empresariais, crente da avaliação externa (o INEP não precisa se preocupar) e ainda por cima político pragmático e falante.

Sobre Luiz Carlos de Freitas

Professor da Universidade Estadual de Campinas - UNICAMP - (SP) Brasil.
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