Novo aluno ou novo estudante?

Esta semana estivemos no Educação 360, evento promovido pelas Organizações Globo. O tema de nosso debate com o Prof. Mozart Ramos Neves do Instituto Airton Senna, mediado por Antonio Gois, jornalista de O Globo, foi: “Novo aluno, velho aluno: o papel das competências socioemocionais”.

Antes de nosso debate, como cheguei antes, assisti a bela exposição do pessoal da Finlândia sobre as reformas educacionais naquele pais: coisa de dar inveja. Uma frase lapidar ante perguntas sobre avaliação que rolaram logo após sua exposição e que foi dita pela expositora: “Nós não inspecionamos nossas escolas”.

A linha geral de análise que pude desenvolver nos 20 minutos disponíveis, nem sempre de forma clara, foi a seguinte:

  1. A discussão sobre um novo aluno não deve ser feita por contraposição “velho aluno – novo aluno”, mas sim entre “velho aluno – novo estudante”. Isso é importante, pois não devemos transferir as características do velho aluno para o novo, ou seja, não podemos transferir a posição passiva que ele ocupa no interior da sala de aula para a nova formatação. Temos que mudar o papel do aluno e transformá-lo em um estudante. Daí a contraposição “velho aluno – novo estudante”.
  2. O segundo aspecto é que não podemos discutir o novo aluno, sem discutir um novo professor. A escola não é um prédio, como dizia Shulgin, é uma relação. São as relações que promovem a aprendizagem. A principal delas é a que ocorre entre o professor e o estudante. Ambos devem converter-se em estudantes. O que os diferencia é o grau de conhecimento e experiência – e não a autoridade de um sobre o outro, valendo-se da avaliação.
  3. Mudar esta relação, ou seja, introduzir novas formas de ensinar e aprender, implica em negar as funções sociais históricas que a escola teve até agora, ou seja, a função de excluir e subordinar os alunos aos professores no interior do local preferido de realização da atividade pedagógica na escola atual: a sala de aula isolada da vida.
  4. Tais funções sociais antigas, devem ser substituídas por funções sociais novas, ou seja, conectar a escola com a atualidade e promover a auto-organização dos estudantes.
  5. Acontece que a escola, ao atualizar as funções sociais antigas pelas novas, promove o conhecimento da realidade e das suas contradições e com isso conscientiza sobre os problemas da atualidade. Isso nem sempre é interessante para o sistema. Portanto, desde os tempos de Dewey a escola vive esta esquizofrenia: entende que precisa conectar-se com a vida, mas resiste a fazê-lo pois com este passo, abre a escola para os problemas da vida e a conscientização do estudante. A escola sempre procurou, antes de colocar o aluno em contato com a vida, controlar o que ele pensava, dar a ele uma “explicação” sobre o mundo de forma a direcionar sua consciência sobre a realidade.
  6. Como o advento da informatização e dos dispositivos móveis, a escola sente-se, agora, ameaçada. O professor não é mais a única porta de acesso à informação. Além disso, as novas tecnologias empresariais exigem que o aluno tenha uma visão mais abrangente, mais “conectada”, mais abstrata, mais interdisciplinar. Mas tudo isso significa perder controle sobre a constituição da interpretação de mundo do aluno. Na medida em que mais informação se conecta, mais difícil mascarar e controlar a interpretação da vida.
  7. A escola, cobrada pela evolução das tecnologias e novas formas produtivas inevitáveis para a organização da produção, precisa formar o novo trabalhador, mas precisa, ao mesmo tempo, não perder o controle do processo educativo, da formação da visão de mundo do aluno. Solução: aumento de controle sobre a escola.
  8. O aumento de controle se expressa no professor como apostilamento, pagamento por bônus, perda de direitos trabalhistas que o colocam à disposição do empregador, ensino por protocolos, credenciamento, exames e simulados. Em relação ao aluno, se expressa na forma de implementação de formas de controle mais sofisticadas entre as quais se incluem as habilidades socioemocionais e os exames. Trata-se de valorizar determinados traços que facilitam o trabalho da escola e a recuperação do controle do aluno, entre eles, a “cooperação”, a resistência ao fracasso, docilidade e adequação à escola. O aluno “bem comportado”.
  9. No entanto, sobrevém a contradição, aumentar o controle sobre os atores, reforça as relações de poder antigas já existentes na escola e acaba por inviabilizar as pretendidas mudanças nas formas de ensinar e aprender. Eis aí, a fragilidade do documento do Mangabeira no Pátria Educadora. É um mudar para não mudar.
  10. Esta é uma das facetas importantes da crise da escola. Ela não é de fácil solução, pois esbarra em uma contradição entre a necessidade de mudar para atender a evolução da vida, e a necessidade de controlar ideologicamente o aluno e formá-lo segundo relações de poder unilaterais, antigas. Abrir mão destas relações antigas, seria correr o risco de permitir que o novo estudante, “estudasse a vida” e suas contradições. Mas os seres humanos, quando no interior das contradições, costumam assumir posições e podem se converter em lutadores que pretendem novas relações. Isso é perigoso para quem detém o controle do sistema (não falo de governos).

Eis aí um pouco da lógica pretendida naquele debate. A apresentação que fiz, premida pelo tempo, nem sempre revelou claramente esta linha de análise. Mas deixo aqui como uma contribuição adicional.

Sobre Luiz Carlos de Freitas

Professor da Universidade Estadual de Campinas - UNICAMP - (SP) Brasil.
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4 respostas para Novo aluno ou novo estudante?

  1. Pingback: NOVO ALUNO OU NOVO ESTUDANTE? | Grupo de Estudos e Pesquisa em Avaliação e Organização do Trabalho Pedagógico

  2. Antonio Marcelo Campos disse:

    Tenho refletido muito sobre essa questão, o quanto a escola procura se manter isolada do mundo da vida. Parece-me que só com esse grande isolamento ela consegue ressignificá-lo para o aluno, em conformidade com a ideologia com a qual ele deve se conformar. O problema é que não vivemos mais a aparente dualidade pós moderna. Expressa-se firmemente no mundo da cultura a pluralidade, muitas vezes esquizofrênica, que norteia as relações. A escola, então se isola e se torna incapaz de responder ao momento presente.

  3. Adail Sobral disse:

    Quanto menos necessário se faz o professor, no sentido de portador de saber, tanto mais autônomos terão se tornado seus alunos. E as tecnologias da informação podem ser uma utilíssima ferramenta (no sentido vigotskiano do termo). Creio firme e fundamentadamente que – com ou sem tecnologias da informação – só se ensina por se ser quem se é – e não o que se é.
    O que determina a eficácia do ensino não é o que se usa, mas como se usa.
    Professores, em nossa época, não devem ensinar no sentido tradicional; eles devem expor o saber aos alunos e estes dele se apropriam à sua própria maneira.
    Claro que não se renuncia ao papel de parceiro mais experiente. Mas a principal função dos professores é se tornar inúteis. Quanto menos os alunos precisam deles, tanto mais eficientes terão eles sido! Isso é assustador para os professores-transmissores e os alunos receptores!

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