OBAMA e o futuro da [nossa] avaliação – I

O educadores estão tentando entender o movimento da administração Obama ao propor seu Testing Action Plan. Poucos acham que estão de fato ante um “mea-culpa” sobre o uso excessivo da avaliação nos Estados Unidos e outros entendem como um plano destinado a bancar a emergência de uma nova geração de avaliação acoplada à aprendizagem e às bases de dados destinada a alimentar mais ainda a privatização da educação americana.

A primeira medida central nesta caminhada foi a construção da Base Nacional Curricular, lá conhecida como Common Core. Ao padronizar a educação de maneira detalhada, ela permite que se ampliem as possibilidades de terceirização da educação, pois especificam com mais detalhes o retorno esperado da iniciativa privada. Mas não é só isso.

Diz o blog EducationAlchemy:

“Os padrões foram desenvolvidos para criar um sistema padronizado que permite terceirizar para empresas o desenvolvimento de sistemas de ensino. Agora, com um conjunto de padrões como referência, a instrução pode ser feita por empresas on line e de tecnologia educacional que fornecem um novo sistema de ensino e avaliação baseados em “competência”.

Já comentamos, em outro momento, o crescimento das escolas terceirizadas on line nos Estados Unidos, as quais trabalham com outra relação aluno/professor. Enquanto em uma escola convencional a relação é de um professor para 40 alunos, nas escolas on line um professor pode cuidar de 300 alunos. A diluição de custos com pagamento de professores é fantástica – se é que podem ser chamados de professores.

Em tecnologia e produção de sistemas de aprendizagem, gasta-se inicialmente muito para montar o sistema, mas depois, o uso pode ser feito em escala. Desta forma, o processo de terceirização encontra sua barreira na própria concepção da escola convencional que ocorre em um lugar definido e presencialmente, segurando a relação professor/aluno. Liberta de lugares fixos e com sistemas pré-fabricados, é possível ganhar escala, desde que se tenha uma base nacional curricular obrigatória, em nível nacional, que paute a educação em todos os estados e municípios.

Além disso, a avaliação convencional de larga escala não consegue ultrapassar um determinado patamar de eficiência. A educação americana usou em amplamente esta avaliação convencional. Os efeitos colaterais e a eficiência da estratégia de responsabilização encontrou um limite claro que põe em risco a própria continuidade da estratégia. Um claro aviso veio do Estado de Nova York onde mais de 200 mil pais impediram suas crianças de participar das avaliações de larga escala colocando em risco todo o sistema de avaliação. Acoplar avaliação e instrução, acalmaria os pais, além de impedir a estratégia do boicote  pois as aduas ações ficam imbricadas e realizadas em tempo real e de forma simultânea.

Subitamente, Obama tira do nada um Testing Action Plan, motivado pela divulgação de um estudo de Hart e Casserly feito para o Council of the Great City Schools e que acaba de ser publicado.

Baixe o estudo completo aqui.

A proposta de Obama está sendo vista como um novo plano para alavancar um novo estágio para os processos de avaliação externa das escolas, o que permitira um controle – entre outros aspectos – das próprias empresas terceirizadas operando na área educacional, além de viabilizar custos, como já mencionado.

O relatório do Conselho mencionado, que pretendeu fazer uma fotografia da avaliação nas grandes redes de ensino americana, concluiu que:

“Em primeiro lugar, as escolas públicas urbanas do país administram um monte de testes. O aluno médio faz cerca de 112 testes entre pré-escola e último ano do ensino médio. (…) O benefício disso é que as avaliações dotam as escolas do país com ferramentas que permitem reunir dados objetivos, determinar se estão fazendo progressos, e diagnosticam as necessidades dos alunos. Além disso, os testes padronizados permitiram à nação lançar luz sobre grandes desigualdades com que lutam alunos de diferentes grupos raciais, linguísticos e de renda.

O outro lado desta moeda é que os testes nem sempre são muito bons em fazer o que precisamos que eles façam, eles não nos dizem tudo o que é importante sobre uma criança, e eles não nos dizem o que fazer quando os resultados são baixos. Isso ocorre por uma série de razões: os dados chegam demasiado tarde para informar necessidades imediatas de instrução; os professores não têm o desenvolvimento profissional de que necessitam sobre como ler, interpretar e fazer uso dos resultados em suas salas de aula; os professores e administradores não confiam nos resultados, acreditam que os testes são de baixa qualidade, ou acham que os resultados estão desalinhados com os padrões que estão tentando ensinar; ou os múltiplos testes fornecem resultados que são contraditórios ou produzem dados demais para fazer sentido.

O resultado é que os dados de todos esses testes nem sempre são usados para informar a prática de sala de aula. Além disso, alguns alunos não conseguem ver a multidão de testes como importante ou relevantes, e eles nem sempre dão o melhor de si para fazê-los bem.”

Importante notar que nesta conclusão existem fatores cujo solução vão além do próprio teste ou de sua forma de aplicação. A crença em que a tecnologia tudo resolve, moverá os sistemas de avaliação para novos patamares, efetivos ou não. Há questões como o uso dos resultados dos testes, preparação para extrair consequências pedagógicas específicas para as salas de aula, confiança nos resultados dos testes, ou ainda o empenho dos alunos durante a realização dos testes que não se resolvem com o próprio teste, mas que estarão pautando, agora, o nascimento desta segunda geração destinada a conectar avaliação com o próprio ensino.  Isso exige novas tecnologias on line.

“Em segundo lugar, (…) ficou claro pela nossa pesquisa que a quantidade de tempo necessária, em média, para fazer testes obrigatórios é de cerca de 25 horas ou mais, ou de quatro a cinco dias por ano letivo, cerca de 2,34 por cento, de um típico ano escolar de 180 dias. Isto não é uma grande parte do tempo de instrução total de um sistema escolar. No entanto, na prática, o tempo de teste pode ser dividido ao longo de mais de quatro ou cinco dias, e um tempo de instrução adicional pode ser perdido por inatividade (por exemplo, exames NCLB estado podem ser dados em partes tomando vários meios dias). O total pode tirar tempo de professores e alunos, sobretudo se também se leva em conta o tempo necessário para administrar os testes e se preparar para eles. Além disso, grande parte destes testes acumulam-se no segundo semestre do ano letivo de uma forma que faz com que o segundo semestre pareça um longo teste.”

“Em terceiro lugar, há uma considerável redundância nos testes que alguns sistemas escolares administram e alguns daqueles testes que os estados exigem.”

A “economia” de tempo pretendida por Obama e o combate à preparação para os testes que consomem grande tempo, se resolveria com a junção on line da instrução e avaliação criando caminhos diferenciados para os estudantes em função de suas próprias dificuldades. Acabaria também, a redundância de testes.

Continua no próximo post.

Sobre Luiz Carlos de Freitas

Professor da Universidade Estadual de Campinas - UNICAMP - (SP) Brasil.
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