“Povo” x “militantes”: preparando a nova lógica da repressão?

O momento atual exige um posicionamento claro de todos. Com todo respeito aos leitores deste Blog, não posso deixar de me posicionar também. É preciso que a História saiba em que lugar cada um de nós estávamos, quando os fatos em curso se concretizarem.

Passei por dois golpes ao longo da vida. Um no Brasil, em 64 e outro no Chile, em 73. Ambos foram golpes conduzidos com o protagonismo dos conservadores. Conservadores, dão golpes arregimentando os militares, uma instituição que aparece para o público como honesta e imparcial, além de apartidária. À semelhança da Polícia Federal e do Judiciário neste momento. A diferença é que um tem o poder do “canhão” e o outro da “caneta”. Eu escrevi “da caneta”, porque é por ela que se registra a interpretação das leis. A lei sempre precisa ser interpretada ao ser aplicada, pois se fosse tão objetiva, não precisaríamos ter “advogados” e “juizes”.

Caiu de moda o golpe com canhão. Foi substituído por algo que poderia ser chamado de “golpe da caneta dos liberais” – que, é claro, nunca dispensa totalmente o trabalho sujo dos conservadores. Na verdade, os liberais sempre se esconderam atrás dos conservadores nestes momentos e enquanto conveniente. Agora estão invertendo o protagonismo, para não ter que bancar historicamente e judicialmente os “estragos do canhão”.

Parece que passarei por um terceiro golpe. Não consigo entender como uma presidente que teve mais de 50 milhões de votos, pode ser declarada impedida, sem motivos, com a “justificativa” de que “as ruas”, ou seja, apenas 3 milhões de pessoas, assim pedem. Ou, ainda, porque as pesquisas de opinião não lhe são favoráveis e a maioria não considera seu governo bom ou razoável. A matemática não fecha. E é por isso que é golpe, a despeito do nome que se queira dar a ele.

O atual golpe é de estilo “liberal”. Não envolve, portanto, os militares e nem está ancorado na igreja – duas instituições que normalmente compuseram os golpes que tinham a hegemonia conservadora. Não pelo menos abertamente. Costuma-se dizer que para se dar um golpe ao estilo conservador, se faz necessário um jornalista, um padre, um político e um militar. As demais áreas, são submetidas quando necessário à força, inclusive o judiciário e a polícia.

No golpe liberal, não é necessário ter explicitamente um padre e um militar. Mas é fundamental ter alguém no judiciário com poder (STF), alguém na polícia (PF), a mídia e alguém no congresso (Cunha). O golpe de 64 fechou o Congresso. Naquela época, o Congresso fez um papel mais digno do que o atual congresso faz. Hoje, a mídia, associada à ação da PF, apoiada no judiciário e turbinada por manifestações de rua, constituem o eixo do golpe, acompanhado e referendado pelo congresso atual. Tudo flui pelos meandros da “interpretação jurídica”, assentada na caneta supostamente imparcial dos julgadores – ora a PF, ora o Judiciário, ora o congresso. Se o juiz é a favor do golpe, é imparcial; se é contra, é porque houve “bolivarianismo”. A mídia repercute seletivamente para insuflar as ruas.

Mas, no dia de ontem, houve uma mudança no discurso liberal que é digna de registro. Todo golpe leva à repressão. O atual golpe em curso, começa a preparar a lógica da repressão. O discurso inicial apareceu ontem na mídia por arautos do Estadão, entre eles, Eliane Cantanhede. Uma perigosa diferenciação começa a ser estabelecida entre os cidadãos. Nos golpes anteriores a dicotomia era entre “povo” e “subversivo”. Quem era a favor do golpe militar era chamado de “povo”; quem era contra, era chamado de “subversivo”. Subversivo era a senha para se aceitar a repressão dos que discordavam do golpe. Entre os “subversivos” estavam os “comunistas”, mas não só. Se eram comunistas (ou se pareciam estavam com eles) mereciam. Vimos no que deu.

O discurso que começa a ser construído no golpe liberal brasileiro, prepara a reedição desta dicotomia: existe agora o “povo” que foi às ruas contra o governo e os “militantes” que pertencem ao PT e às organizações sociais e que apoiam o governo. Segundo esta visão, as manifestações anti-governo, são feitas por pessoas comuns que não têm experiência em mobilização, que não têm a militância, ou seja, cidadãos nobres; as manifestações pró-governo, são feitas por profissionais da política com grande experiência em arregimentar pessoas, comunistas ou amigos deles como o MTST e o MST. Constituem uma minoria que precisa ser derrotada pelo “povo” ordeiro e trabalhador que sofre com a recessão produzida por um governo incompetente. O discurso do ódio, unifica a direita.

Esta configuração como alertam alguns é extremamente perigosa. Os liberais não têm uma liderança sequer que seja aceita para falar aos participantes em suas próprias manifestações “apartidárias”. Aécio e Alckimin não duraram 20 minutos na avenida e tiveram que retirar-se sob vaias nas próprias manifestações anti-governo promovidas por eles. Ao contrário, a manifestação de ontem, contou com um discurso que durou uma hora, feito por Lula, e que saiu da avenida ovacionado pela massa. Outras lideranças políticas estiveram presentes e não foram vaiadas. Todos foram ouvidos.

Eis a acefalia política que as manifestações contra o governo estão produzindo no pais guiados por apelos liberais que queimam as pontes entre as ruas e a política, criando o eixo golpista que vai da PF e do Judiciário para as ruas, com a concordância do congresso e o entusiasmo da mídia, mas sem o próprio protagonismo dos políticos liberais que fogem das ruas. Os militares foram substituídos pelos “Moros” e correlatos. Os políticos pelos Cunhas e Aécios e estes sem aceitação nas manifestações. Este é o eixo do apartidarismo oportunista que leva ao incentivo para a criação de milícias que resolvem agir fora da institucionalidade, movidas pelo sentimento de impotência no campo da política, criado pelos liberais. Estão semeando o ódio.

Vivi para ajudar a derrotar os outros dois golpes conservadores, torço para viver e ajudar a derrotar mais este golpe, agora de estilo liberal, se ele vier a se concretizar. Os golpistas (conservadores e liberais) não aprendem que as contradições são mais fortes e continuarão a atuar, mesmo depois do golpe e com mais intensidade ainda. Estão tão cegos que querem neutralizar a única liderança capaz de falar às ruas e pregar, certo ou errado, a conciliação de classes que, no fundo, é uma proposta dos próprios liberais. Inverteu-se: os liberais incentivam o ódio; os “militantes” o entendimento.

Para a educação, este retrocesso será lamentável. Para o campo da avaliação educacional idem. Ele trará com ênfase maior toda a política dos reformadores empresariais da educação para o centro da política pública, acompanhada de todas as consequências que os golpes produzem em um país.

Sobre Luiz Carlos de Freitas

Professor da Universidade Estadual de Campinas - UNICAMP - (SP) Brasil.
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36 respostas para “Povo” x “militantes”: preparando a nova lógica da repressão?

  1. Josenir disse:

    Perfeita a sua análise. Não podemos deixar de nos posicionar sobre este golpe, que é só o começo de dias sombrios.

  2. MARTHA PAIVA SCARDUA disse:

    Como é importante e bom
    ver sua análise… em momentos obscuros é importante que não nos calemos…

  3. daniele disse:

    excelente professor…não podemos nos calar

  4. Marizete disse:

    A verdade, a ética, a democracia e a justiça deveriam ser princípios orientadores das manifestações em prol de um país melhor!

  5. Tadeu João Ribeiro Baptista disse:

    Brilhante. Penas que as pessoas do “povo” não conseguem e/ou não querem compreender a lógica apresentada.

  6. Marlene al disse:

    Esclarecedor.Não tenho palavras para colocar toda minha angustia neste momento.

  7. Alani disse:

    Me sinto contemplada com uma análise tão límpida e honesta, não fria. Eu pautei nas escolas onde eu trabalho um certo incômodo: o silêncio. Penso que a Educação Crítica, que muitos apregoam, tem de buscar o exercício, o debate, os argumentos. Recomendarei este texto para contribuir, como disponibilizei o do Frei Beto e um outro, que eu própria escrevi. De outro modo, o que se verá é a ideologia avassaladora da mídia golpista. Muito grata, Alani

  8. cesar augusto giometti disse:

    Precisa como um dardo no centro do alvo. Pena que essa leitura esteja restrita, enquanto a boçalidade se espraia apoiada pela mídia, como diria outro professor, Sanfelice, portadora das notícias do obscurantismo. Iludidos por um cenário construído (com espúrias intenções), os brasileiros vão dar um tiro no próprio pé. Tomara que não cheguemos a isso!

  9. Eliz disse:

    Acredito que o momento histórico traz a tona a ampliação do debate e a discussões políticas que tanto tem sido impedidas nos espaços públicos. É fato que os interesses financeiros estão determinando ações políticas e encaminhamentos jurídicos, mas todas essas mobilizações também trouxe perspectivas de mudança de um sentimento _ ninguém faz nada vê as coisas acontecendo e ficam parados, quem sabe a cultura das manifestações se ampliem e muda a história mesmo que ela esteja distante.

  10. Sempre leio os seus “post”, e via de regra, acho-os excelentes. Porém este é inigualável, Fico feliz lendo análises assim!

  11. Susana Cunha disse:

    Bravo.

  12. Jurema Machado Soares disse:

    Olá Professor…Li com toda a atenção seu artigo…obrigado pela imensa ajuda…Tenho pesquisado e estudado e através da mídias falar da seriedade do momento…Vou republicar o quanto posso este post…TALVEZ AINDA DÁ TEMPO…

  13. Consuelo disse:

    Gosto da clareza do texto é concordo, mas ainda continuo angustiada com a questão ética no que tange a nomeação do Lula e de como foi tratado o dinheiro público principalmente no caso Petrobrás. Gostaria que o governo eleito não tivesse permitido os fatos ocorridos.

  14. João Paulo disse:

    O texto é muito bom e realista

  15. Simone disse:

    Uma presidenta que teve mais de 50 milhões de votos, pode ser declarada impedida de exercer sua função? Sim. Através do processo de impeachment. Tal processo pode ser aberto, mesmo sem as provas? Sim. Caberá ao Congresso e ao Senado o processo a investigação.
    Mas,há corruptos no Congresso! Sim, isso é um problema. Lembrando, que fomos nós que permitimos a presença deles lá. Mas, isso não me obriga a abrir mão dos meus direitos. Pois, poderei cobrar dos órgãos competentes atitudes corretas. Como? Indo as ruas.
    Existem suspeitas, indicações, evidências de crime cometidos pela presidenta, pois como presidente do conselho da Petrobrás, como chefe da casa civil, ela estava muito perto de todas as irregularidades cometidas pelo seu governo. Mesmo assim, é preciso que haja um julgamento e um veredito. Por isso, nenhum golpe se configurou ainda… Abrir um processo de impeachment caracteriza um golpe? Não. Golpe é fazer o impeachment sem ter razões previstas nos artigos da Constituição Federal Brasileira.

    • OK, dito deste modo, sem divergências. Agora, vamos para a vida real. Leia esta reportagem: http://www.m.vermelho.org.br/noticia/278006-1

      • Leandro disse:

        Simone esta correta e é a vida real e quanto a reportagem do portal vermelho, pode-se condenar a atitude dos envolvidos mas não distorcer os fatos. A verdade é que a forma como se faz eleições neste pais é inadequada e os políticos que surgem não valem nada além é claro de um povo sem instrução, sem poder de analise, sem liberdade de pensamento PLIM , PLIM

  16. Patricia disse:

    Considero este comentário, tendencioso e com forte tendência a situação. Como és um professor, pensei que o texto apresentado seria isento de julgamento, mas não foi o que ocorreu. Sinto muitíssimo por pessoas culturalmente privilegiadas, não conseguirem apresentar uma avaliação isenta e educativa dos fatos que vivemos atualmente.

    • Todo posicionamento é tendencioso, especialmente para quem não concorda com ele. Eu avisei que ia me “posicionar” e não fazer uma análise científica. Isso eu deixo para os sociólogos e historiadores. Não tenho tais habilidades.

  17. Késia Ramires disse:

    Olá, prof. Luiz Carlos. Desculpe minha ignorância, mas como não vivi golpe algum, gostaria de saber, na sua opinião, qual seria o sentido do golpe do “judiciário e da PF”? Para que essas instituições fariam esse golpe? Quem eles colocariam para governar e como seria tal governo? Essas são perguntas que me faço diante da especulação do golpe. Gostaria da sua opinião, pois como testemunha ocular do que já viverá, será de excelente contribuição sua opinião. Desde já, fico grata.

    • Cada golpe tem suas peculiaridades ligadas à situação histórica em que ocorre. Não há como traçar paralelo no conteúdo, apenas metodologicamente. Pode-se identificar as “justificativas”, as “racionalidades”, mas cada caso é um caso. Costumo perguntar sempre a que interesses atendem determinados atores. Isso pode ajudar.

      • Késia Ramires disse:

        Obrigada, prof. Ficarei atenta aos detalhes para identificar as peculiaridades de agora e ver como podem responder às questões postas.
        Até.

  18. Elizana Monteiro dos Santos disse:

    Professor Freitas temos que potencializar estes espaços que politizam e esclarecem a conjuntura com coerência e sabedoria nas análises.

  19. Lucinea Rezende disse:

    Professor Luiz Carlos de Freitas, fui sua aluna no Mestrado. Agora, já tendo completado o ciclo de formação acadêmica e findando também o de trabalho no Magistério em “minha” Universidade, ao ler seu texto relembro: por duas vezes eu o procurei, particularmente, para ouvi-lo acerca de condução de pesquisa em educação. Eu o fiz, mesmo estando distante, residindo e trabalhando em outro estado brasileiro, pois o que conheço do senhor é um trabalho sólido no Magistério, comportamento ético e coerente frente às situações educacionais e políticas que, direta ou indiretamente, tive conhecimento. Esse conjunto é tão forte que, não raro, eu o cito como exemplo de pessoa coerente – pessoa radical, no sentido de conhecimento em profundidade, capaz de acolher o pensamento divergente e lidar com ele com serenidade. Digo isso para evidenciar que considero de grande importância suas palavras firmes, palavras “com lastro”, porque sua vida tem evidenciado valores ora raros, já mencionados por mim. É indispensável que pessoas assim manifestem seu modo de pensar, explicitando-o para ajudar a trazer clareza sobre uma situação que se mostra conturbada e preocupante. Pessoas cuja vida e palavras tenham convergência.

  20. Célia disse:

    Professor, olá.
    Concordo, em parte, com suas considerações. Por exemplo, ainda que tenha sido eleitora de Lula e de vários outros candidatos do PT, não me senti confortável com sua indicação ao Ministério nas condições em que se deu. Democracia não é sinônimo de corrupção (nem mesmo dizer que ela “sempre existiu” é um bom argumento). Vale considerar que não sou, tampouco, a favor do impeachment.

    Ainda assim, não são estes os aspectos de seu texto que gostaria de comentar, mas sim, de modo particular, sobre sua última afirmativa, a saber:

    “Para a educação, este retrocesso será lamentável. Para o campo da avaliação educacional idem. Ele trará com ênfase maior toda a política dos reformadores empresariais da educação para o centro da política pública, acompanhada de todas as consequências que os golpes produzem em um país.”

    Na minha apreciação, não será preciso mudança do quadro político para que isto aconteça. O senhor, porventura, já viu o novo presidente do INEP? Bem como suas referências anteriores com a Pearson (que está no Brasil com os sistemas apostilados e, mundialmente, pelas suas concatenações com o PISA)?

    Abraços,

  21. Gelci Agne disse:

    “… É preciso que a História saiba em que lugar cada um de nós estávamos, quando os fatos em curso se concretizarem…” Obrigada professor, me encorajas a também escrever sobre meu posicionamento. Sei muito bem o que é ser filha de “subversivo”… carreguei esse rótulo de 64 por décadas. Abraço,

  22. Cida Cangussu disse:

    Ótima reflexão, fico imaginando professor como deve ser a sensação de quem sentiu na própria pele o golpe e em pleno séc XXI reviver mais uma ameaça.

  23. parabéns por tão brilhante reflexão, precisamos de pessoas que tenham vivenciado esses momentos difíceis que o nosso país vivenciou e mostrar que não queremos mais DITADURA NO BRASIL.

  24. Pingback: Luta pela democracia | Escolas Libertadoras

  25. Andreia disse:

    Texto excelente, claro, preciso. E o debate aqui gerado foi tão bom que, enquanto eu lia, tinha medo de olhar para a barra de rolagem e ver que estava chegando ao fim.

  26. Vanina disse:

    É muito bonita a hipótese criada para tentar atribuir a um “golpe” as manifestações espontâneas da população de apoio a um processo democrático e legal de Impeachment, que está previsto na Constituição.
    O ilustre estudioso esquece de citar as denúncias fundamentadas que são usadas para o pedido de impeachment. Houve sim crime de responsabilidade. E isso será apurado respeitando as regras do jogo, dentro de um processo democrático. Para mim, o verdadeiro “golpe” é a negação disso tudo. Está tudo escrito nos autos. Ninguém tá inventado nada. Houve corrupção, houve envolvimento de governantes e políticos de todas as esferas. Houve participação do governo. Está claro. Basta querer enxergar. Acorda Brasil! Não seja conivente!!!!

  27. Cleone Mendonça disse:

    Professor, também torço para que o senhor tenha uma vida longa para ajudar a derrotar esse golpe.

    Gostaria de perguntar se o senhor vê algum paralelo, algo incomum ou muito diferente entre o processo em curso e o processo de impedimento do ex-presidente Fernando Collor?

  28. Lucinea Rezende disse:

    TRAVESSIA
    Travessia… difícil, sofrida! Travessia de um tempo que uma mulher é reeleita e um homem, em especial – que pena! das minhas Minas Gerais! não aceita a reeleição. Uma reeleição tumultuada, difícil, que acompanhei de longe, porque não estava em meu país naquele momento. Eu trabalhava, na ocasião, por conta de projetos acadêmicos, no leste europeu.

    O governo que assume se mostrou frágil, mas também, quem, pressionado dia e noite, como foi o caso, com ameaça de impeachment, conseguiria governar? Isso não é desculpa, por certo, mas compõe o quadro que se forjou, dia após dia, para que a presidente do Brasil fosse deposta.
    É nisso que vejo o golpe… ou melhor, seu começo! Depois, somaram-se outras forças. Inclusive o Juiz Moro, em quem, a princípio, acreditei. Mas ele se deixou levar pelos holofotes. Quis ser investigador e acabou fazendo julgamentos prévios e articulador de encrencas… Pôs a população em grupos opostos: os contra e os a favor do governo. O noticiário de agora à noite (Globo, 29/03/16), diz que ele pede desculpas, mas se justifica…

    A pergunta que sobra, é: – pede desculpas e faz o quê para reparar os estragos que causou? Junto a isso, pergunto: – O PMDB debandou… deixou o governo, hoje. Mas o vice presidente, Michel Temer, não é do PMDB? Aliás, o chefe? E por que ele não debandou? Duas perguntas sem respostas… Ah! Tem mais uma: – se há problemas em que alguém seja julgado pelo Supremo (o indicado para ministro), o problema é do governo ou do Supremo???

    A Travessia está sendo feita. A ponte está sendo quebrada. Os homens da política a quebram, continuamente. Há corrupção? Sim. Que houvesse investigação e julgamentos justos. Se o Juiz Moro precisa pedir desculpas… é que há coisas injustas nesse meio…

    Talvez, se eu não tivesse vivido no tempo da ditadura, pensasse diferente. Acreditasse nas aparências. Na legalidade… E pusesse todas as minhas fichas aí. No entanto, eu vivi aqueles tempos amargos. E vi que em nome do “certo”, se fez muita coisa errada. Por isso, aprendi que é preciso estar atenta e forte. É preciso ir além das aparências.

    Nesses tempos, me lembro de uma conversa com minha orientadora, ainda quando eu fazia mestrado. Discutiam-se problemas acerca da educação e eu perguntei, ingenuamente, por que os intelectuais não escreviam a respeito, esclarecendo a população. Ela olhou-me com generosidade e disse: – não dá… é muita coisa pra se dizer e não cabe num manifesto.

    É assim… não há situação perfeita, à qual podemos aderir sem ter que lutar por ajustes. No entanto, há que se ver princípios. E, neste momento, me pergunto, ainda mais: – que princípios norteiam ações que evidenciam no fundo do poço a atual presidente e deixam de lado as denúncias dos que vieram antes e dos que são contemporâneos no poder (ver, por ex., o caso de governadores que se encontram na mesma situação)?

    Eu quero ser coerente comigo mesma. Portanto, sou a favor da justiça, dos julgamentos, das prisões quando necessário. No entanto, sou absolutamente contrária à situação de denuncismos pré-passeatas, de traslados de pessoas que voltam os holofotes para quem as conduz, de julgamentos de pessoas que estão atravancando a justiça em seus próprios julgamentos, ou que já são denunciadas e se dão ao direito de permanecer em seus cargos e, pior: julgar outras pessoas.

    Em meio a tanta desfaçatez, quero dizer de uma inquietante ideia: o denuncismo não continuará por muito tempo. As coisas vão mudar. Não por causa do PT, mas porque estaria na hora de apresentar à sociedade os “outros” corruptos… os dos outros partidos… Aqueles que, no momento, não recebem “conduções coercitivas”, nem são divulgados pelos seus “deslizes”. As notícias dizem (Ex: Fantástico, 27/03/16) que os desvios de dinheiro vem desde 1980… E cadê os responsáveis??? Em que mídia seus nomes são divulgados? Quem os conduz para julgamento? A questão é: calado o PT, como continuará o processo anticorrupção? Continuará?

    Não sejamos ingênuos… quem assumirá o poder? Em nome de quem? Com que compromissos? A favor de quem? Ou, se preferirmos…. “ por quem os sinos dobram?” Essa é nossa travessia… busque luz para fazê-la.
    Lucinea A. Rezende

  29. Rosangela Lindoso disse:

    Admiro sua lucidez professor me sinto apreensiva pelo que pode vir em uma nova onda neoliberal.

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