Zara Figueiredo: “o desastre como estratégia”

O “DESASTRE” COMO ESTRATÉGIA POLÍTICA: Nova Orleans é aqui?

Maria do Rosário Zara Figueiredo Tripodi

Especial para o Blog

Em 2005, os Estados Unidos experimentaram um dos maiores desastres naturais de sua história com o furacão Katrina. New Orleans foi uma das cidades mais atingidas, pois assim que o furacão alcançou a região, os diques que a protegiam se romperam, deixando mais de 80% da cidade inundada.

Três meses após o desastre, a cidade ainda estava em ruínas e as escolas públicas, claro, fechadas. Àquela altura, Milton Friedman, aos 93 anos, embora com saúde fragilizada, viu na catástrofe uma possibilidade de concretizar seu credo liberal e não perdeu o pouco tempo de vida que ainda lhe restava (Friedman morreu em 2006): escreveu o editorial do New Street Journal intitulado “The Promise of Vouchers”.

O texto, de 05 de dezembro de 2005, começa constatando que a maior parte das escolas de Nova Orleans estava em ruínas, assim como os lares das crianças que estudavam ali. Logo em seguida, Friedman chega ao seu objetivo, ao postular que o desastre que atingira a cidade poderia se transformar em uma “janela” de oportunidade para reformar o sistema educacional, introduzindo o sistema de vouchers na regulação das escolas:  “As crianças agora estão espalhadas por todo o país. Isso é uma tragédia. É também uma oportunidade para reformar radicalmente o sistema educacional”.

O argumento do professor da Escola de Chicago e Prêmio Nobel de Economia era de que as escolas de New Orleans que haviam sido destruídas não prestavam um bom serviço aos estudantes e que tinham supostamente falido, enquanto instituição escolar, pela mesma razão que havia levado muitas outras à ruína, qual seja, a natureza estatal dessas instituições e a regulação ser operada pelo governo.

A sugestão de Friedman, explicitada no Editorial, era que, ao invés de simplesmente reconstruir as escolas destruídas, o governo local deveria aproveitar a oportunidade para empoderar os consumidores – os estudantes, concedendo aos seus pais vouchers a serem utilizados na rede educacional privada. Assim, os pais teriam liberdade para escolher a escola que considerassem a melhor para seus filhos, o que permitiria a introdução do princípio da competição que faltava ao modelo vigente, segundo Friedman.

Esse episódio foi narrado pela jornalista canadense Naomi Klein, no seu livro “A Doutrina do Choque – a ascensão do capitalismo do desastre”, que fecha a parte reservada ao Katrina, chamando a atenção para o fato de que enquanto os diques e a energia elétrica eram reconstruídos lentamente, o leilão do sistema educacional de Nova Orleans foi realizado com espantosa rapidez, levando a rede de escolas públicas da cidade a ser substituído completamente por escolas geridas pela iniciativa privada com financiamento público, tudo em 19 meses.

Na verdade, a narrativa da canadense aponta para as estratégias mobilizadas por atores envolvidos na implementação de reformas que buscam a construção de um “managerial state” e que podem ser definidas, dentre várias outras ferramentas, pela utilização de uma política do desastre e pelo discurso da “inevitabilidade”.

Em seu livro Klein argumenta que, para esta filosofia, o melhor momento para se instituir ideias radicais de livre-mercado é o período seguinte a um desastre, seja econômico, natural ou mesmo um ataque terrorista. O argumento é que os desastres desorientam as pessoas e, assim, abre-se uma janela para se introduzir a ‘terapia do choque econômico”.  E para que essa terapia seja eficaz, torna-se imprescindível a utilização de um tipo especial de retórica, alicerçada na noção de “inevitabilidade”. Em outros termos, os discursos que passam a ser produzidos, nesses contextos, situam o interlocutor em um “lugar” no qual a possibilidade de escolha desaparece, e as decisões a serem tomadas gravitam entre “fazer ou morrer”.

A última edição da coluna de Naércio Menezes Filho, no Jornal Valor Econômico, “O que devemos mudar na educação?” (Valor, 17/06), faz-nos crer que a estratégia de Friedman foi lida e bem assimilada por aqui.

Da perspectiva da análise do discurso, a própria escolha da forma verbal para o título da matéria (Devemos) já nos põe em um campo semântico do inevitável, afinal, não se está sugerindo uma possível mudança na educação; ali, o colunista privilegia o sentido de não haver outra possibilidade.

A pergunta, claro, é retórica, pois ao indagar “o que devemos mudar na educação”, o que se busca é trazer uma resposta que já se tem, ou melhor, uma única possibilidade de resposta: reformar a educação a partir de uma lógica liberal. E nessa altura, o autor da coluna se alinha perfeitamente ao credo liberal-econômico de Friedman:

“Também já está na hora de permitir o funcionamento de escolas públicas geridas pelo setor privado. Essas escolas seriam sem fins lucrativos, receberiam recursos do sistema oficial de ensino e seriam avaliadas e cobradas como todas as demais escolas públicas do país. Elas já existem no ensino infantil. Estariam livres da legislação restritiva que dificulta as inovações no setor público e poderiam tentar projetos alternativos para melhorar a qualidade e diminuir a evasão no ensino médio.” (Valor, 17/06).

Menezes fala das escolas charters americanas, e não de vouchers, mas o fundamento para privatizar é o mesmo para ambos. Tudo bem que em terras brasileiras não tem Katrina, mas tem crise, e conforme recomenda Menezes, deve-se aproveitar o momento de crise, de “um novo governo” para implementar mudanças que se tornem permanentes.

Também não temos ou tivemos uma rede de escolas públicas devastadas por algum desastre natural, mas temos um Plano Nacional de Educação para os próximos dez anos, com metas ambiciosas a serem cumpridas pelos entes federados, em um contexto de escassos recursos, de um federalismo de cooperação impreciso e de um governo interino cuja concepção de Estado já está demasiadamente clara. Assim sendo, me parece que para além das preocupações, legítimas, claro, sobre a possiblidade de essas metas serem cumpridas ou não, pela gestão atual, cabe perguntar “como” elas serão cumpridas.

A estipulação de um teto de gasto público, a concepção de que serviços públicos de corte social não precisam ser oferecidos, necessariamente, via Estado e a obrigatoriedade no cumprimento das metas do PNE não comporiam a janela de oportunidade para impor uma nova lógica de oferta educacional?

Além de tudo isso, não se deve esquecer que, a despeito das ocupações de escolas por estudantes em alguns estados, não me parece difícil que iniciativas como vouchers e suas derivações sejam de fácil aceitação por parte da sociedade, afinal, a grande mídia tem conseguido, ao longo dos anos, nos desqualificar perante a sociedade, especialmente, no tocante às greves. Sem contar que a divulgação do IDEB, com um comportamento orientado para a comparação de redes, tem levando à crença, por parte das camadas populares, de que haveria mesmo uma supremacia da escola privada sobre a pública.

Sobre Luiz Carlos de Freitas

Professor da Universidade Estadual de Campinas - UNICAMP - (SP) Brasil.
Esse post foi publicado em Escolas Charters, Meritocracia, Privatização, Responsabilização/accountability, Vouchers e marcado , . Guardar link permanente.

3 respostas para Zara Figueiredo: “o desastre como estratégia”

  1. Exatamente nesse sentido de reformas inevitáveis que se instala o governo da maldade, ou como eu chamo, governo “Bode na Sala”, que fará o trabalho sujo sendo muito bem recompensado por isso, e abrindo as avenidas para o processo de privatização que se pretende. Temer não conseguirá fazer todas elas, mas fará com que o processo seja “natural” e “necessário”.

  2. Valentino Massariol Ruy disse:

    Após minha leitura do artigo do prof. Naercio, veio-me um questionamento: em que medida o sistema por ele proposto, assemelhado às escolas “charter” norte-americanas se configuram uma demolição dos direitos universais de acesso à educação e qualidade do ensino? Ao meu ver, uma escola financiada somente por recursos públicos, porém gerenciada por uma instituição privada que possua uma maior liberdade na proposição de estratégias gestoras e, principalmente, pedagógicas, não é de todo mal. Aliás, poderia ser um caminho para a abertura de novas possibilidades e diversificação dos modelos escolares. Como respeito muito a opinião do autor deste Blog, o prof. Freitas, gostaria de saber sua opinião mais detalhada frente ao conceito das escolas “charter”.

  3. Ola. O que Naercio propõe é o que os reformadores educacionais americanos propuseram há 20 anos. A questão que se coloca é: por que Naércio não nos diz o que aconteceu com esta ideia nos Estados Unidos? Melhorou a educação por lá? Tais escolas são melhores que as públicas? Sem esta informação não dá para aceitar, novamente, a promessa. O fato é que se verificar em outras partes deste blog (veja tag Escolas Charters) você verá que nada disso cumpriu o prometido. De quebra, destruiu o sistema público americano e continua a fazê-lo… Abraço.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s