Uma disputa de agendas

A educação brasileira promete enveredar de vez pela adoção das recomendações dos reformadores empresariais da educação. O que já vinha ocorrendo em alguns estados, agora ameaça tornar-se uma política federal oficial, regada a muito dinheiro. Uma disputa de agenda que vinha se dando entre educadores profissionais e reformadores empresariais dentro dos governos do PT, agora parece que tende a se resolver pela adesão às teses dos reformadores.

Caso você “tenha estômago bom”, pode ler um exemplo de como se fazer esta reforma educacional clicando aqui: reforma feita “no braço”, como se diz, transformando cada pai e aluno em delator de professores junto a algum órgão. Ou ainda como a ditadura (a outra) propunha: “na base do prendo e arrebento”.

O autor andava quieto depois de tentar convencer o país a levantar placas de aviso com a nota do Ideb na porta das escolas: não colou nem entre os pares. Mas os golpes empoderam estas pessoas e elas estão voltando com tudo. Elas se acham acima de qualquer suspeita ideológica. São contra até a “formação da consciência crítica” dos estudantes, ou seja, são obscurantistas que ainda vivem na idade média.

Valerie Strauss tem acompanhado o desempenho da Finlândia (um contraponto a estas ideias) na área educacional e divulgou, há algum tempo, um texto de Pasi Sahlberg, um especialista finlandês em educação que escreveu um livro reunindo os princípios que levaram a Finlândia a ser uma referência em qualidade de educação – referência que os reformadores procuram desqualificar. Mas como adverte o autor:

“Alguns céticos descartam as escolas da Finlândia como sendo um produto de sua demografia, mas eles ignoram o fato de que seu tamanho de população e taxa de pobreza são semelhantes aos mais de dois terços dos estados americanos, e nos Estados Unidos, a educação é amplamente executada ao nível estadual.”

Nossas atuais lideranças têm muita dificuldade para aceitar que estão no caminho errado, copiando a política educacional dos reformadores empresariais americanos. Como diz Janaína (aquela do impeachment) sobre a dificuldade de alguns em entende-la: “será que eu preciso desenhar?”.

O problema com os reformadores não é a sua capacidade de ler, mas é a opção ideológica implícita nas ações que propõem. Tal ideologia atende a grupos com interesses socioeconômicos dominantes que disputam a agenda da educação tanto do ponto de vista do ensino, como do ponto de vista da formação das crianças, portanto, uma agenda ideológica e pedagógica como qualquer outra, que no entanto procura ocultar a sua posição numa pretensa “neutralidade”.

Aqui vai um antídoto com alguns trechos da matéria de Valerie Strauss acima mencionada, aqui resumidos:

“Maximizar os padrões de todo o sistema, colocando educadores profissionais encarregados da educação. Eles são os peritos finais sobre educação das crianças, não burocratas, políticos ou fornecedores de tecnologia.”

“Ter os melhores e mais apaixonados jovens competindo para se tornarem professores. Formá-los rigorosamente nos mais altos níveis de profissionalismo e dar-lhes o máximo respeito, autoridade e autonomia na sala de aula. Construir uma cultura de colaboração na escola.”

Destaquemos aqui: “respeito, autoridade e autonomia na sala de aula”, ao contrário da opinião de nosso articulista, cuja recomendação, para que fosse levada a sério, teria que ser acompanhada da criação de uma setor da polícia ao lado da sala do Diretor em cada escola.

“Não perca tempo e dinheiro com testes padronizados em massa para as crianças. Em vez disso, avalie os alunos correta e diariamente, com avaliações e observações projetadas por seus próprios professores e usados para fins de diagnóstico para melhorar a aprendizagem. Perceba que muito do que é considerado mais importante na educação – incluindo “habilidades do século 21 e 22”, como a curiosidade de uma criança, perseverança através de ensaios e erro, bondade e compaixão, crítica e pensamento abstrato, senso de liderança e trabalho em equipe, a expressividade, habilidades sociais e criatividade – devem ser avaliados por professores da sala de aula, e nunca podem ser medidos por coleta de dados padronizada.”

“Caia na real sobre a tecnologia em sala de aula. Um grande estudo recente da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Económico descobriu que a maioria da tecnologia de sala de aula teve pouco ou nenhum benefício acadêmico. “Na maioria dos países, o uso atual da tecnologia já passou o ponto de utilização óptima nas escolas”, disse o oficial da OCDE Andreas Schleicher. “Nós estamos em um ponto em que os computadores estão realmente prejudicando o aprendizado.” Gaste dinheiro em tecnologia de sala de aula com muito cuidado, e não jogue fora automaticamente ferramentas que funcionam trocando-as por algo não comprovado. Lembre-se que as telas entregam apenas uma simulação da instrução individualizada. São professores altamente qualificados os que lidam com a realidade.”

 “Dar às crianças o que elas precisam para aprender melhor, incluindo turmas razoáveis, atenção individualizada por professores altamente qualificados, um currículo rico, pausas regulares e atividade física, sono e nutrição adequada, com cargas de trabalho razoáveis e tempo de inatividade, calor e encorajamento, (…) e serviços de apoio social, quando necessário.”

“Deixe as crianças serem crianças. Deixe as crianças brincarem. É assim que eles aprendem.”

Leia mais aqui.

Eis aí, um outro jeito de se fazer mudanças na área da educação. Quanto mais rápido comecemos a concretizar estas recomendações, mais cedo teremos, de fato, qualidade na formação de nossa juventude. Média mais alta nas escolas, não é necessariamente sinônimo de boa educação.

Sobre Luiz Carlos de Freitas

Professor da Universidade Estadual de Campinas - UNICAMP - (SP) Brasil.
Esse post foi publicado em Mendonça no Ministério, Meritocracia, Privatização, Responsabilização/accountability e marcado , . Guardar link permanente.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s