Ensino Médio: tragédia que substitui “tragédia”

Para acelerar a reforma do ensino médio, o governo esperou a divulgação do IDEB e produziu o cenário de uma urgência de mudança justificando, com isso, uma MP que, em verdade, aproveita para encerrar a discussão sobre o ensino médio em curso e impor a visão da equipe do MEC. A medida nasce ancorada nos Secretários de Educação estaduais e aposta que basta a concordância destes para que se mude a educação. Uma visão de mudança autoritária.

A reforma do ensino médio feita por Medida Provisória com a desculpa de que o ensino está uma “tragédia” sairá hoje indicando a precarização tanto para os estudantes como para professores. Uma “tragédia construída” a partir do último IDEB, será substituída por uma tragédia real.

Problemas graves tentarão ser resolvidos na canetada, atrasando a implementação de soluções de fundo bem elaboradas. A proposta atingirá também os professores que poderão ser contratados por “notório saber”, mesmo que não tenham sido preparados para dar aula em uma determinada matéria.  A medida visa resolver, por tortuosos atalhos, o déficit de professores. Segundo a imprensa:

“Com a nova proposta, a carga horária passa de 800 para 1,4 mil horas/ano –, exigindo turno integral. O currículo, que hoje abarca 13 disciplinas obrigatórias, também sofrerá modificações. Durante todo o primeiro ano e metade do segundo, o estudante seguirá aprendendo o básico de cada matéria, com base nos pilares que já norteiam o Exame Nacional de Ensino Médio (Enem): Linguagens, Ciências da Natureza, Ciências Humanas e Matemática. No ano e meio seguinte, porém, ele terá mais flexibilidade para priorizar assuntos que sejam da sua área de interesse para um futuro ensino técnico ou superior. Por exemplo: se o aluno quiser ser engenheiro, o programa aprofundará as disciplinas de Exatas.”

Leia aqui.

Bem na linha do que fizeram os reformadores em São Paulo, alinha-se o conteúdo do ensino médio ao formato dos exames, no caso o ENEM (que também será realinhado com o conteúdo em seguida). São criadas tantas áreas de ensino na escola, quanto áreas existentes hoje no ENEM: linguagens, matemática, ciências humanas e ciências naturais. Na base, está a concepção de que a elevação de médias de desempenho em testes significa boa educação. A medida levará a amplificar a conversão das escolas de ensino médio em centros de preparação para o ENEM (ou algo que o substitua), destinados a produzir uma melhora em índices.

O grupo que está no MEC hoje era o que estava na Secretaria de Educação de São Paulo, à época da reestruturação do ensino paulista, usando esta mesma filosofia, embora não tenha feito mudança especificamente para o ensino médio. Os resultados da reforma no Estado de São Paulo, com esta filosofia de alinhar conteúdo com avaliação, foram pífios. Mas a fé continua. O penúltimo Secretário de Educação do Estado dizia ter vergonha dos números no estado.

Hoje ficamos sabendo pela imprensa que o grau de precarização pode ser maior ainda: poderá haver uma precarização da própria contratação do professor.

“Segundo fontes do Ministério da Educação (MEC), para reduzir o déficit de professores, a pasta também deve permitir a contratação de docentes com “notório saber”, ou seja, quem leciona Matemática não necessariamente precisará ter formação na disciplina – poderá ser em Física, por exemplo.”

Os atalhos substituem políticas reais.

Cabe assinalar a ancoragem da proposta no CONSED – Conselho de Secretários de Educação – revelando uma ideia verticalizada de transformação educacional que não conduzirá à melhoria da educação. Para o governo, se os Secretários de Educação estão de acordo, os outros atores da escola se enquadrarão – tudo seria uma questão de tempo.

Não há evidência empírica favorável a esta forma de implementar mudanças na educação.

Sobre Luiz Carlos de Freitas

Professor da Universidade Estadual de Campinas - UNICAMP - (SP) Brasil.
Esse post foi publicado em Mendonça no Ministério, Responsabilização/accountability. Bookmark o link permanente.

19 respostas para Ensino Médio: tragédia que substitui “tragédia”

  1. Fiquei curioso: a qual “reestruturação do ensino paulista” o senhor se refere no texto?

  2. A reforma conduzida à época em que Maria Helena Guimaraes era Secretária de Educação conhecido como São Paulo faz Escola. Estou me referindo aqui à concepção de alinhamento entre conteúdo curricular e avaliação (SARESP). Lá não houve reforma do ensino médio como agora é proposta. Mas a filosofia é a mesma do ponto de vista da concepção de educação.

    • kátia Aparecida Pimenta disse:

      eu meu formei no ano passado em licenciatura Artes/teatro. quer que nada adiantou? é um absurdo!

  3. Silvia Leticia de Almeida disse:

    Como serão organizadas as turmas ao optarem pela área que deseja seguir? Haverá um número mínimo de alunos?

  4. Manoel disse:

    Reforma na educação não se faz como se estivesse reformando uma roupa. Não adianta por remendos e pensar que concertou e resolveu o problema. Os remendos na educação hoje repercutirão no futuro, e diga-se de passagem, um futuro próximo. Tudo evoluiu, tudo passou a ser mais dinâmico. Diante da globalização e da revolução técnico científico informacional tudo ficou de forma célere. Porém, nossos governantes, administradores não investiram no setor educacional como deveria. Isto fez o setor educacional público não acompanhar na mesma proporção e dimensão do setor industria, comercial, entre outros. O crescimento econômico deve repercutir no desenvolvimento social, caso contrário, será nítida a concentação de renda e a intensificação das mazelas e diferenças sociais. Num país que preza por crescimento econômico, a educação deve ser prioridade. Na contemporaneidade o trabalho na sua grande maioria é processado por máquinas. O aluno deve se interar na escola de conhecimentos científicos imbricados na tecnologia, estudo integral e comprometido com aprendizagem e com o devido retorno e acompanhamento pela comunidade escolar, família e sociedade.
    Mas num país de desvios, corrupções, onde a moral, a ética e a justiça está em desuso, ou em segundo plano e o jogo de interesses predomina, então fica remota a ideia da educacão como investimento.

  5. Ivan Lima disse:

    Tiveram 13 anos para organizar toda essa bagunça, quando alguém toma uma atitude na intenção de organizar essa zona de pátri educadora, vem o doutor que estava viajando nas nuvens para criticar.

  6. River disse:

    Ivan vc acha que a educação é uma coisa rápida? Vamos supor que vc tem 2 filhos um de 6 e outro de 7 anos. Quantos tempo ele vai ficar na escola, ou melhor quantos anos vc vai bancá-los na escola?

  7. Jani Wild disse:

    13 de de patria educadora deixando o ensino médio e fundamental de lado e só agora vocês lembram de reclamar?
    Se fosse a Dilma fazendo as mesmas reformas estavam todos quietos.

    • Saulo disse:

      Jani no blog do Prof. Luiz Carlos de Freitas tem um item chamado “pátria educadora”, estão ali críticas bem contundentes a política educacional de Dilma. Elas foram realizadas ainda no período de popularidade do governo da presidenta. Vamos ser justos nos comentários. Por favor!

  8. Sou professora de psicologia; lecionei desde de 1987 até 2011, trabalhei orientação profissional, preparação para o mercado de trabalho, entrevistas com profissionais da área que mais se identificam e outros aspectos que possam contribuir na escolha profissional. Depois realizavam por àrea as disciplinas e as profissões técnicas e científicas. Por este e outros motivos volto a mencionar mudanças na Educação jà.!

  9. SANDRA GISSELA DORNELES de Souza Corrêa disse:

    Mudanças já na educação! O País só desenvolve e progride com um povo culto, com conhecimento, sabedoria e discernimento!
    Há muito tempo estamos na escuridão de uma “educação paliativa”, superficial e com poucos brasileiros PENSANTES!
    (Sinto-me e somos uma massa de manobra!)

  10. Roseli disse:

    O que mais me chama atenção é que qualquer troglodita que não é da área acha que pode opinar pra defender partido. A educação está do jeito que está porque os mais interessados nunca são ouvidos, as coisas são impostas. O que vejo é um governo imediatista querendo fazer do ensino médio público uma fábrica de mão de obra rápida e barata.

  11. Não negamos a necessidade de uma reforma no Ensino Médio, inclusive. Mas a crítica está em segregar o processo educacional, diferenciar e determinar quem segue no caminho formativo e quem assume a posição de executor de ordem. A crítica está em um documento que ignora a especificidade de cada campo do conhecimento, logo, de cada especificidade de formação do profissional da educação. Que não pode ser qualquer um, que não basta apenas saber o conteúdo da área, pois o processo de aprendizagem envolve vários processos. De fato a Educação atravessa por muitos problemas, mas não é a partir de uma Medida provisória, sem uma consulta pública, sem ouvir todo corpo escolar, sem um debate com os docentes, ou com os alunos, ou com os familiares que as questões serão sanadas.

  12. ricardo correa disse:

    Com o salario que se paga hoje ao professor , estao fazendo uma reservsa de mercado aoc

  13. Welington Silva disse:

    E o silêncio de algumas instituições, como o Fórum Nacional dos Conselhos Estaduais de Educação do Brasil, é ensurdecedor.

  14. Josemar Machado de lima disse:

    O Título de sua matéria é “pessimista” e próxima do pré-conceito. A estrutura atual tem aproximadamente 20 anos, sim, temos dados do IDEB que pode-se avaliar como “Tragédia”; o que torna uma “Reforma” necessária, a reforma é apresentada e ainda nem começou a ser implantada e já é outra “Tragédia”?. Caro Professor Luiz Carlos Freitas me parece que o Sr. prefere a Tragédia atual, pois ajudou na construção da mesma, quanto a nova “Tragédia” vamos esperar 10 anos para retomar ao debate com dados reais do IDEB. Seu título define como “Tragédia” fatos ou reforma que ainda não ocorreram ! Gostei do seu texto. Que tal o título: “Como evitar uma nova TRAGÉDIA” ?

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