Prohmann: do lado de dentro das ocupações no Paraná

JOVENS BADERNEIROS OU CORAJOSOS SONHADORES?

Por Mariana Prohmann

Grupo de Estudos e Pesquisas em trabalho, Educação e Tecnologia – GETET/PPGTE-UTFPR mariana.prohmann@gmail.com

Os estudantes do Colégio Estadual Anita Canet, localizado no Bairro Gralha Azul, no município da Fazenda Rio Grande (região metropolitana de Curitiba), ocuparam a escola no dia 6 de outubro. A ocupação já estava sendo debatida no dia anterior, quando inclusive, se reuniram com representantes de outro colégio para entender a dinâmica e as motivações da ocupação, decidindo que ela aconteceria no Colégio Anita no dia seguinte. Na quinta-feira à noite, os manifestantes reuniram todos os alunos, professores e diretores na quadra para anunciar a ocupação e no dia seguinte, chegaram na escola mais cedo, fazendo a recepção dos alunos com cartazes. Cerca de 50 alunos dormiram na ocupação no primeiro dia e com o passar da semana, os alunos têm se revezado para cumprir as escalas de pernoite, limpeza, alimentação, atividades/oficinas e aulões para os estudantes.

Bastou uma rápida conversa com alguns dos organizadores desta ocupação para saber que os alunos têm muita clareza das motivações que os levaram a ocupar a escola, ao contrário do que pronunciou o governador do Estado do Paraná Carlos Alberto Richa, que de acordo com o site de notícias G1 da Globo, afirmou na sexta-feira dia 7 de outubro que os jovens não sabem o por que protestam, que estão sendo usados por movimentos sindicais em ‘perfeita doutrinação’.  Essa afirmação logo se desmorona ao darmos a chance da palavra para os jovens ocupantes, que quando questionados sobre o por que estão ocupando a escola, respondem:

“Principalmente por causa da Medida Provisória 746 e a PEC – 241. Primeiro a MP porque o nosso colégio não tem estrutura para ter ensino integrado, no meu ponto de vista essa MP quer formar trabalhadores apenas e não quer formar pessoas pensantes, eu sou contra isso, acho que essa medida está tirando o nosso direito de escolha de decidir o que a gente quer da nossa vida e não queremos ser simples mão-de-obra barata para o governo. E a PEC porque é um absurdo cortar gastos na educação, na saúde, na segurança, em coisas que são a base para a sociedade, então eu to aqui por causa dessas medidas e também porque cortaram a merenda para o ensino noturno”. É um motivo a mais para estarmos aqui hoje…
A MP não foi pensada por pessoas que fazem parte do corpo da educação, não foi consultado estudantes, não foi consultado professores, então eles não sabem o que se passa dentro de uma escola pública, eu acho que esse é um dos pontos principais também de eu estar aqui”.  Juliana, 16 anos.
“Eu principalmente porque eu penso no futuro! Eu estou aqui, faltam dois anos para eu terminar o ensino médio. Eu podia simplesmente ser aquele tipo de cara que não liga pra nada e ir pra casa. Mas não…pensei nos meus sobrinhos, tenho quatro sobrinhos em casa, eles vão ser complicados em futuro próximo assim dizendo, então isso me deixou mal. Eu falei: ‘Mãe eu to indo pra luta mas não por mim, por eles entende? Pro futuro!
Porque sinceramente não vai ter criança pensante, vai sair daqui e falar tá agora eu vou trabalhar e só isso. Não vai ter um progresso daqui pra frente então isso me rói por dentro porque mesmo agora já está sendo complicado as pessoas pensarem no que falar então pra frente querem fazer isso para que os alunos não pensem mas vão lá e trabalhem, trabalhem, trabalhem. Esse é um dos grandes motivos de eu estar aqui”.  Alan, 18 anos.

Essas respostas mostram que não é tão fácil a missão de “manipular”, “doutrinar” e “usar” a juventude estudantil para interesses políticos, basta ver as respostas que deram quando questionados sobre a possível influência de professores, sindicatos, e políticos nos movimentos de ocupação:

“Primeiro que a gente nem conversou com os professores sobre a ocupação. Eles só ficaram sabendo no dia que chegaram aqui e outra coisa, nós não temos contato com ninguém de sindicato. Tem muita gente falando que é a APP que está influenciando os estudantes, mas aqui mesmo não entrou ninguém da APP, a gente não tem contato nenhum com essas pessoas!
Conversando com todo mundo que tá participando aqui, a gente vê que estão vindo de vontade própria mesmo, que é uma coisa nossa, que não é um professor que influenciou a gente a vir aqui, tanto que a gente tá proibindo a entrada de professores, a gente não quer envolvimento deles no nosso movimento. Então eu não entendo o por que as pessoas estão falando isso, ao invés de elas virem aqui ver o que a gente está fazendo. Ao invés de elas conversarem com os estudantes elas estão repassando coisas que alguém lá que é contra falou e não é realmente verdade porque ninguém vem conversar com a gente para saber o que está acontecendo…
Tanto que a gente aqui dentro agora durante a ocupação estamos fazendo o trabalho das tias da limpeza, a gente tá cozinhando pra esse povo todo, a gente tá fazendo o trabalho de professor aqui dentro, eu acho que ninguém ia vir aqui se mandassem vim, sabe? A gente está vindo por vontade própria então acho que esse é o ponto principal.” Juliana, 16 anos.
 “A gente está barrando os professores na entrada perguntando o que eles querem, se é alguma coisa envolvida com a administração da direção, a gente acompanha faz o que tem que fazer e depois leva até portão…a gente quer o mínimo de contato com professores porque isso não é dos professores, isso aqui é uma luta dos alunos! E no dia mesmo da ocupação eles não sabiam de nada, a gente só chegou chamou todos os professores para fora e deu o anúncio. Eles ficaram tipo: ‘Uau, nossos alunos estão mudando’! Foi uma surpresa para eles e para gente mesmo porque aqui o noturno era quieto ninguém se envolvia com nada, só faz o básico né grêmio estudantil e tudo mais.. Então a gente quer o envolvimento mínimo dos professores porque realmente eles têm a luta deles e tudo mais e a gente tem a nossa. O envolvimento mínimo deles além de fortalecer a gente e mostrar a verdade pro pessoal que tá aqui, porque o pessoal lá fora tá simplesmente falando: ‘são os professores que estão falando…’
Eu convido esse povo a vim aqui, venham falar conosco antes de sair por aqui falando tal coisa. Isso irrita levemente porque se falassem mal da minha vida nas minhas costas eu ficaria mal, então peço que venham falar diretamente conosco aqui, venham no colégio perguntar: ‘e ai, o que que está pegando?’ Porque realmente isso é irritante, tipo: ‘vou inventar uma mentira aqui, vai virar uma bola de neve crescer, crescer…’ e assim, de repente todo mundo tá falando aquilo sem ao menos ser verdade! Então eu convido esse povo a vir aqui falar conosco pessoalmente, ver o que está acontecendo aqui dentro, ver o por que estamos lutando.” Alan, 18 anos.

Afirmar que tais jovens estão sendo doutrinados é desconhecer a realidade que se passa com o povo das periferias, com a classe trabalhadora e com os estudantes de Ensino Médio que frequentam as escolas do Estado. Nossos jovens estão dispostos ao diálogo, mas um diálogo que leve em conta as necessidades, prioridades e realidades locais as quais eles pertencem.

Sob a bandeira de luta contra a PEC-241 e a MP-746, a juventude traz consigo seus sonhos, anseios e a sede de uma sociedade mais justa, menos desigual, com melhores oportunidades de trabalho e qualidade na educação. Fica o apelo as nossas autoridades: não criminalizem os estudantes ocupantes, mas entendam que estas ocupações trazem consigo a expressão de jovens que clamam por mudanças, por melhorias no ensino e que lutam para não perderem os direitos que foram conquistados ao longo da história do Ensino Médio.

(Publica-se com autorização.)

Sobre Luiz Carlos de Freitas

Professor da Universidade Estadual de Campinas - UNICAMP - (SP) Brasil.
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