Érica Fraga e o fracasso da reforma empresarial – I

Érica Fraga escreveu na Folha-UOL (1-02-2017) sobre a educação americana e a eleição de Trump (leia aqui). Para ela:

“Era de esperar que a maior economia global, com sua notável eficiência e capacidade de inovação, não tivesse dificuldade em educar sua mão de obra. Mas há muito tempo os EUA patinam nessa área, pelo menos em comparação com vários outros países desenvolvidos e até emergentes.”

Fraga reproduz o que hoje está cada vez mais evidente nos Estados Unidos:

“Mas aí veio a primeira edição do Pisa, de 2000, mostrando que a realidade era ainda pior do que se imaginava. Os EUA estavam muito longe da dianteira, que naquele ano pertenceu à Finlândia. Desde então, sucessivas políticas perseguidas pelo país não deram certo.

Foram adotados, por exemplo, inúmeros testes nacionais e regionais para medir a aprendizagem. As conclusões recentes de especialistas são que o uso excessivo desse instrumento trouxe muito estresse para os alunos sem a contrapartida de efeitos positivos.”

Quanto ao fracasso das políticas da reforma empresarial, Fraga está certa. No entanto, reportando-se ao último PISA americano, chega a uma conclusão no mínimo muito polêmica:

“Esses resultados mostram que a política americana de anos recentes de canalizar esforços para melhorar a aprendizagem dos estudantes mais carentes tem surtido efeito, mas revelam também que o país ainda precisa avançar muito para atingir o patamar de várias nações europeias, asiáticas e do vizinho Canadá” (grifos meus).

Esta não é uma questão simples devido não só ao fato de que os dados de avaliações internas nacionais nos Estados Unidos não corroborarem a afirmação, como também às próprias limitações da avaliação do PISA, como veremos.

Mas há outras razões motivando o tema. Cabe alertar que a afirmação de Fraga faz coro com o que se diz em Wall Street para justificar o interesse do grande capital que lucra com a implantação de escolas charters e, mais ainda agora, com Trump, com a proposta de ampliação da política de vouchers (política que canaliza recursos públicos para escolas privadas) que a bilionária indicada para chefiar o Departamento de Educação deve implementar. Segundo a rede Bloomberg:

“Trump prometeu abolir o Common Core [uma BNCC para leitura e matemática], chamando as diretrizes de um” desastre total “em um anúncio de campanha, e propõe um programa de voucher federal de US $ 20 bilhões para crianças empobrecidas que ele pagaria através de “redefinição da prioridade dos dólares federais existentes “, de acordo com uma declaração em seu site. “

Interessa à indústria educacional americana estabelecer uma relação de eficácia entre vouchers distribuídos para a população mais pobre estudar em escolas privadas e diminuição do gap entre o desempenho de estudantes mais ricos e mais pobres.

Primeiro cabe mostrar que a principal avaliação nacional americana, o NAEP, apresenta um quadro diferente do PISA. O gráfico abaixo feito pela News Week com dados do NAEP mostra a situação nos últimos 12 anos de vigência da lei que acelerou a política da reforma empresarial, a No Child Left Behind. O gap aumentou de 26.3 para 30.1, ou seja, um crescimento de 3.8 pontos. Note que o gap só não é maior porque os ricos tiveram uma queda em seu desempenho no último NAEP e note, complementarmente, que o desempenho dos mais pobres permanece quase estável, com leve queda.

16qcscores-povertygapwider2-c1

Continua no próximo post.

Sobre Luiz Carlos de Freitas

Professor da Universidade Estadual de Campinas - UNICAMP - (SP) Brasil.
Esse post foi publicado em Assuntos gerais, Meritocracia, Privatização, Responsabilização/accountability, Segregação/exclusão e marcado , , . Guardar link permanente.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s