Portugal: cedo para comemorar

O ex-ministro da educação de Portugal comemora hoje, pela Folha de São Paulo, que seu país deu um salto no PISA. Mas é cedo para comemorar. Primeiro, todos sabemos que não existem milagres em educação, só por isso, já merece cautela a comemoração. Segundo, nota mais alta não é sinônimo de boa educação. Há outros aspectos formativos que são vitais não só para vida em sociedade, mas para o próprio desenvolvimento infantil – e, ao contrário do que ele pensa, não são obtidos com base na melhoria do desempenho do aluno em português e matemática.

Não há surpresa na questão portuguesa: se você aperta a escola com avaliações e ensina apenas o que vai cair na prova, a nota melhora. Tais medidas, promovem o estreitamento curricular que é destruidor da boa formação educativa.

Mas para o ex-ministro:

“O que se chama de pedagogia moderna no fundo são ideias muito velhas, de mais de um século, muitas sem fundamento. Exemplo é a noção de que a exigência prejudica os pobres. Não, ela é amiga deles, porque os mais favorecidos podem ir a escolas privadas, podem ter apoio especial. Os mais desfavorecidos, não. Ou a escola pública lhes dá o conhecimento e as capacidades de que precisam, ou terão mais dificuldade no futuro”.

Leia a entrevista aqui.

Mas, aqui, falta uma informação que a reportagem não apresenta.

Sabemos que não há segredo nas consequências que se associam a esta política, uma delas é a maior segregação sócio educacional. A comemoração de Portugal deve ficar suspensa até que ele possa resolver o seguinte problema, posto também pelo estudo da OCDE e preocupação do atual ministro:

“Estamos, infelizmente, numa mostra em que não queremos estar, em que não nos podemos dar ao luxo de estar: o dos três países da OCDE que apresentam maior taxa de retenção entre as mais de sete dezenas de países ou economias que este relatório analisa, quase triplicando a taxa média da OCDE, que ronda os 13%”, apontou o ministro.”

Sobre Luiz Carlos de Freitas

Professor da Universidade Estadual de Campinas - UNICAMP - (SP) Brasil.
Esse post foi publicado em Assuntos gerais, Estreitamento Curricular, Pisa, Segregação/exclusão e marcado , . Guardar link permanente.

4 respostas para Portugal: cedo para comemorar

  1. Antonio José Lopes disse:

    Deve-se acrescer a estes fatos colocados no posto que a gestão de Nuno Crato e suas políticas contestadas pela comunidade portuguesa de educadores, não teve influência direta nos resultados deste PISA, uma vez que não houve tempo de sua reforma atingir a maioria dos alunos que fizeram a prova do PISA.
    João Costa, atual ministro de Educação de Portugal, à parte suas críticas em relação ao uso dos resultados PISA, publicou um artigo “O sucesso escolar não tem dono”

    https://www.publico.pt/2016/12/12/sociedade/noticia/o-sucesso-escolar-nao-tem-dono-1754408

    “São 20 anos de melhoria progressiva, contínua e sólida .. Ao longo destes 20 anos de progressão, passamos muitos pelas equipas ministeriais, mas o corpo docente é essencialmente o mesmo. Quando a escola está de parabéns, os professores estão de parabéns. Também aqui há caminho a inverter. A sociedade portuguesa não reconhece devidamente o valor dos professores, o que é não apenas injusto, mas também não é suportado por estes dados agora revelados. .. Quando resultados como estes são anunciados, é enorme a tentação de assacar responsabilidades pelos sucessos, esquecendo a responsabilização pelo insucesso ou atribuindo a responsabilidade pelo insucesso aos mesmos de sempre. Os governos estão na origem das políticas de sucesso, enquanto se atribui o insucesso a alunos, professores e famílias.”

  2. Meu caro Freitas, primeiro quero dizer da admiração e de quanto seu blog tem sido útil para mim. Divulgo quase todas as postagens entre professores da minha escola privada e nas escolas municipais de niterói, onde atuo. Entendo que vc tenha destacado aqui , na entrevista de Nuno Crato, o tema que mais te mobiliza neste blog que me parece ser a reificação absoluta do testismo, resumindo. Mas outro aspecto me chamou atenção. A caricaturização e eo menosprezo por aquilo que ele chamou de “modismos pedagógicos” e que, no resumo do jornalista/editor ficou muito claro. “(…)o aluno deve gostar do que aprende; decorar informações é negativo; e desenvolver competências como pensamento crítico, mais do que ensinar o conteúdo curricular, é o verdadeiro papel da escola do século 21(…)”. Nem sei por onde começar. Ninguém disse que o aluno SÓ deve aprender o que gosta, mas que gostar de aprender é importante. É uma busca. Hoje sabemos bem a importância da repetição para o aprendizado. A crítica era e é a decoreba como instrumento quase único. Pensamento crítico também é conteúdo, de tipo procedimental e atitudinal. Ninguém disse MAIS, dizemos TAMBÉM. O que é ” a verdadeira pedagogia moderna”? Por favor, alguém me indique. “Pedagogia romântica”? “Processos cognitivos inferiores e superiores”? O resto é a leitura cega de resultados e resultados e resultados. Um horror, mas dentro do previsto. Me parece uma entrevista quase que sob encomenda para os “novos tempos” medievais (com perdão do medievo).

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