O papel dos Diretores na escola dos “novos reformadores” (XI)

Postado originalmente na Uol em janeiro/2011

Como pode ser observado nestas várias postagens, o Manifesto, a despeito da capacidade daqueles que participaram do seminário inicial, revela, em sua redação final uma paralisia intelectual das signatárias. Passando por temas complexos, transmite ao leitor médio o falso sentimento de que ele está entendendo de forma correta, simplificadamente, a verdade sobre tais temas. Os autores estreitam as fontes de informações de maneira a reforçar suas próprias crenças. Estão tão enamorados com soluções verticalizadas, tecnológicas de outros países que isso os impede de levar em conta toda a complexidade da questão educacional. Há uma permanente subserviência as soluções adotadas pelos chamados “países mais desenvolvidos”.

Os novos reformadores se portam como se fossem “novos Colombos” tendo redescoberto a “América” educacional. É um documento perigoso porque desinforma as lideranças em vários setores da educação, desinforma os professores, os gestores, os formuladores de políticas, pais, entre outros. Daí nosso esforço por remeter o leitor para fontes independentes que mostram os limites e equívocos das soluções apresentadas pelos novos reformadores da educação brasileira, não incluídos por eles em seu Manifesto.

O segundo macrotema trata do gestor, do Diretor de escola. Não pretendemos negar a importância da gestão e de seus efeitos sobre a aprendizagem dos alunos, a questão não é essa. O ponto é a forma como se propõe fazer isso.

Para os novos reformadores os Diretores de hoje não têm competência para gerir simultaneamente o administrativo e as questões de aprendizagem e, além disso, não têm autonomia. O que esconde esta posição? Autonomia para os reformadores é entendida como possibilidade de controlar, premiar ou punir a equipe escolar. Mas ao mesmo tempo, é uma armadilha para o próprio gestor, pois, ele mesmo pode ser premiado ou demitido pelas Diretorias de Ensino, como veremos mais adiante. Para os reformadores os diretores de hoje  “Em contraste, têm total impunidade para produzir resultados fracos ou escandalosos”.

Como sempre a questão dos liberais é quem deve ser punido. Na lógica dos negócios, uma meta não atingida necessita ter consequências desagradáveis, em geral, a demissão ou a execração pública. Quando os liberais falam de autonomia ela está referida a “criar mecanismos de incentivos positivos e negativos para os melhores e piores resultados” e permitir que, como punição, os diretores não só possam eles mesmos serem demitidos, como possam igualmente demitir (ou ameaçar de demissão) os professores. Esta é a tônica. Que tipo de relação pode florescer em um ambiente marcado pela pressão e pelo controle?

Professores são jogados contra professores, diretores contra professores e assim por diante, em um esquema desenfreado de competição e conflitos que termina por marcar negativamente o ambiente e as relações profissionais na escola. É disputa por bônus, por espaço, por prestígio – incompatível com os objetivos educacionais que se deveria ter para a formação da juventude.

Resultados de curto prazo são os que marcam o horizonte das escolas, sem maior visibilidade e sem um programa de fundo para elevar a qualidade de ensino de todas as crianças. Sobre estas questões ver Ravitch, D. (2010).

O que os reformadores propõem:

1.       Remuneração compatível com a maior responsabilidade;

2.       Aperfeiçoar os processos de seleção dos diretores. Destaque-se aqui o seguinte: “Para ser bom diretor não basta ter sido um bom professor – é necessário, porém não suficiente.” E agrega em seguida: “É preciso identificar os profissionais com melhor perfil de liderança e gestão”. Ou seja, é preciso – como ocorre nos Estados Unidos – entregar estes cargos de gestão aos profissionais que têm experiência na iniciativa privada – não necessariamente pessoal da área da educação. Isto se confirma no item seguinte:  “Ele tem de ser o exemplo ao conduzir o trabalho de dezenas de professores e ser um bom gestor nas demais áreas de uma escola (que têm muitas características de uma pequena empresa)”.

3.       Investir em capacitação dos Diretores – tanto em liderança como em gestão

4.       Eliminar a enorme carga de administração para que o Diretor se concentre no ensino. Note-se, aqui, a ideia de que é a autoridade do gestor sobre o professor, o que garante aprendizagem. O item seguinte confirma isso.

5.       Dar ao Diretor poder e ferramentas necessárias para, de fato, governar a sua escola. Detalhe: “a sua escola” – a escola é do Diretor não é de um coletivo de profissionais que a constroem. Não, é a escola do Diretor. Diz: “Se o diretor não escolhe, não premia, não pune e não decide em questões relevantes para o ensino, como pode-se esperar um bom desempenho? Não se trata de dar-lhe poderes soberanos, mas é preciso avançar nas mesmas direções trilhadas por países bem sucedidos”. Leia-se: permitir que os diretores contratem e demitam os professores e exerçam controle permanente baseado na ameaça da demissão.

6.       Melhorar a qualidade da interface da escola com as secretarias e diretorias de ensino. Diz: “a Secretaria de educação definirá quais serão suas metas do ano, ele terá acompanhamento/monitoramento pelas Diretorias de Ensino e será cobrado, avaliado e premiado/punido por elas.”

7.       Integração entre escola, família e comunidade para uma educação de qualidade. Propõe que se crie o professor comunitário com a finalidade de cuidar desta integração.

Este é o segundo macrotema. O terceiro versará sobre a reforma da estrutura da escola e novos sistemas de ensino.

Sobre Luiz Carlos de Freitas

Professor da Universidade Estadual de Campinas - UNICAMP - (SP) Brasil.
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