RS: Exército na escola para ensinar “cidadania”

A Secretaria de Educação do Estado do Rio Grande do Sul fará parceria com o Exército para que ele ensine às crianças do estado “um pouco dos valores de paz e civismo, dentro de um aprendizado de direitos e deveres de cidadania”. O propósito é o fortalecimento dos valores fundamentais da cidadania. O projeto “Exército nas Escolas”, começa com cinco escolas de ensino médio e depois será ampliado para todas as regiões do estado.

A iniciativa prevê que sejam desenvolvidas palestras, prática de esportes, visitação às bases militares e aulas de civismo e formação de cidadania.

Leia mais aqui.

Estas ações (junto com o “escola sem partido”) revelam a hipocrisia da política oficial que junto com proclamar a ausência da política “partidária” na escola, faz exatamente o contrário.

Antes da política aparecer na forma de um “partido”, ela existe na forma de uma relação social que é afirmada, no caso, pelos chamados “valores fundamentais” da ordem e progresso e da “cidadania”. Não é preciso ter um partido institucionalizado para tal. É o caso do Exército, teoricamente apartidário, mas comprometido com a ordem vigente, literalmente, até à morte.

Enquanto se impede o debate político nas escolas, hipocritamente, se dá livre trânsito para as instituições comprometidas com a ordem social vigente realizarem sua tarefa de doutrinação aberta e autorizada.

Ninguém melhor do que Lenin resumiu esta posição:

“Nós, ao longo de todo o nosso trabalho civilizatório, não podemos ficar com o velho ponto de vista da educação apolítica, não podemos colocar o trabalho cultural fora da ligação com a política.

Tal pensamento dominou na sociedade burguesa. Chamar a educação de “apolítica” ou “neutra” não passa de uma hipocrisia da burguesia, isto não é outra coisa senão enganar as massas. A burguesia que domina, ainda agora, em todos os países burgueses, entretém as massas exatamente com este engodo.

Em todos os estados burgueses constitui-se uma ligação extremamente forte do aparato político com a educação, embora a sociedade burguesa não possa reconhecê-lo abertamente. Entretanto, esta sociedade prepara as massas através da igreja e por meio de toda organização da propriedade privada.

Não podemos deixar de colocar francamente a questão, reconhecendo abertamente, apesar das antigas mentiras, que a educação não pode ser independente da política”. (Lenin, discurso na Conferência dos Educadores Políticos, 3 de novembro de 1920.)

Faltou Lenin agregar, além da igreja e da organização privada, hoje expressa, pelas Fundações e Institutos privados financiados pelos empresários, o próprio Exército como se vê agora no Rio Grande do Sul e como já se vê em Goiás com as escolas administradas pela Polícia Militar.

O discurso da educação apolítica não passa de uma forma de neutralizar posições que criticam e questionam as relações sociais vigentes, e abrir espaço para que o pensamento oficial seja a única fonte de acesso para formar a juventude.

Pelo menos Lenin era franco.

Sobre Luiz Carlos de Freitas

Professor da Universidade Estadual de Campinas - UNICAMP - (SP) Brasil.
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