Espírito Santo: overdose de avaliação destrói ensino

A rede estadual do Espírito Santo está sendo vítima de uma overdose de avaliação. A Secretaria de Educação criou uma avaliação trimestral externa (apesar de chamada de interna) que conta na nota do aluno em cada um dos trimestres, ao lado de outras avaliações já existentes feitas na escola.

O Sistema Capixaba de Avaliação da Educação Básica – SICAEB – é composto pelo Programa de Avaliação da Educação Básica do Espírito Santo – PAEBES, a Avaliação Interna Trimestral Diagnóstica da Aprendizagem – PAEBES TRI para o ensino médio e o Indicador de Desenvolvimento Escolar – IDE.

Os resultados das avaliações do PAEBES TRImestral são utilizados como parte da avaliação de cada trimestre letivo no ensino médio na rede estadual, nas séries/anos e disciplinas em que o exame é aplicado (somente português e matemática). Além disso, a nota que o aluno tirou na prova externa é registrada no sistema on line na área de cada professor.

A pontuação máxima atribuída ao PAEBES TRImestral como uma das avaliações do trimestre da disciplina é assim distribuída: I – primeiro trimestre: 06 pontos; II – segundo trimestre: 06 pontos; III – terceiro trimestre: 08 pontos. Este exame faz uso de teoria clássica de avaliação, para poder trabalhar com porcentagem de acertos dos alunos.

A pontuação atribuída ao PAEBES TRI, em cada uma das disciplinas em que for aplicado, é inserida no Sistema de Gestão Escolar do Espírito Santo – SEGES conforme o percentual de acertos em cada trimestre, obedecendo aos critérios constantes do Quadro I:

Quadro

O sistema coloca grande parte da avaliação fora do controle do professor rompendo a unidade ensino/avaliação e retirando do professor a possibilidade de avaliar seus estudantes globalmente. Além disso, cria uma permanente tensão entre professores e estudantes durante o ano todo. Quebra a autonomia do professor. A filosofia deste sistema é clara: a Secretaria não confia em seus professores e prefere transferir a avaliação dos estudantes para uma empresa terceirizada, desmoralizando o magistério.

Esta insistência em avaliar a atividade de aprendizagem externamente está baseada no equívoco de achar que o professor não sabe o que ocorre com a aprendizagem de seus estudantes, sendo necessário que ele seja informado de fora. Ocorre que são as condições de funcionamento e de trabalho da escola que impedem que o professor personalize a atenção a seus alunos a partir das dificuldades de aprendizagem que ele tem e não a falta de conhecimento sobre o que o aluno sabe ou não sabe. Nenhuma prova pontual, menos ainda com teoria clássica, poderá ser mais precisa do que a própria experiência direta do professor com seus alunos. São outros os fatores impeditivos.

Usualmente as salas são sobrecarregadas de alunos e os professores são horistas não podendo dedicar-se à escola e seus estudantes de maneira específica. Não mudando esta realidade e agregando pressão sobre o magistério, desgasta e desmotiva o professor, e alimenta o estreitamento curricular. É uma maneira de ocultar a omissão do Estado e jogar o problema para os professores.

Na verdade o objetivo deste sistema é que o treino para provas constante durante o ano, eleve o desempenho do aluno na prova final. No entanto, isso transforma a rede em um local de preparação para testes e não de ensino.

O que está sendo montado no Espírito Santo é uma máquina de treinar alunos para teste que não tem nada a ver com boa educação. Sua única destinação é aumentar a média dos alunos supondo que médias mais altas são sinônimo de boa educação. Uma falácia.

(Para quem quiser saber o que vai acontecer com a Base Nacional Comum Curricular quando estiver implantada e ver como ela se converterá em uma matriz de referência, basta clicar aqui. Tais matrizes promovem um grave estreitamento curricular na formação das crianças e orientam todo o trabalho do magistério para a preparação do aluno para os testes que são feitos a partir delas.)

Veja mais aqui e aqui.

Baixe a portaria que instituiu os exames.

Sobre Luiz Carlos de Freitas

Professor da Universidade Estadual de Campinas - UNICAMP - (SP) Brasil.
Esse post foi publicado em Estreitamento Curricular, Meritocracia, Responsabilização/accountability. Bookmark o link permanente.

5 respostas para Espírito Santo: overdose de avaliação destrói ensino

  1. Ana Beatriz Rangel da Silva disse:

    A avaliação não só tira a autonomia do professor quanto em nada auxilia no rendimento ou mesmo treino para as avaliações externas. O aluno que simplesmente assinar o nome no gabarito já possui 4 pontos nos primeiros trimestre. Qual o incentivo que ele terá em responder todas as questões se só com a assinatura do nome ele possui mais de 60% da pontuação?!! Não sei qual ideia de rendimento ou melhora de resultados que a SEDU possui.

    • Ana, não sei como pensa implementar isso a Sedu, mas pode ser que ela permita ao professor graduar a nota pelo número de acertos. Por exemplo: 30% de acertos = 2 pontos; 60% de acertos = 4 pontos. Mas não sei se será assim. Já está em uso a proposta?
      Luiz

      • Cida disse:

        Esse trimestre será o primeiro com esta regra. Anteriormente algumas escolas definiam a pontuação conforme o seu exemplo. A partir desta portaria, ainda não sabemos, mas logo saberemos, agora em setembro. Entretanto, o texto dá a entender aquilo que Ana já colocou aqui.

  2. Marga Maia disse:

    Lamentável!

  3. Wagner Miguel disse:

    Nesse ano o objetivo em algumas Secretarias Regionais de Educação é melhorar o desempenho em Matemática, principalmente, do 1º ano e preparar os alunos do 3º ano para o PAEBES de outubro. Esse de Outubro 17 e 18, é que registra a nota final e compõem o resultado da escola nesse ano. O problema dessas provas do Paebes, ela sempre ocorre numa data ainda faltando vários dias para a conclusão do trimestre. E essa corrida para cumprir programas satura os alunos. É óbvio que desgasta a relação entre professor e aluno e empobrece a mediação dos envolvidos. Já ouvimos alunos reclamando desse excesso. Acredito que devemos dialogar e encontrar possibilidades para avaliarmos sem comprometer o trabalho educativo. É uma pena.

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