O “rumo virtuoso” da educação proposto pela Folha de SP

Deve o leitor lembrar-se que recentemente a Folha de São Paulo defendeu que para o Brasil ingressar no mundo virtuoso da educação era necessário, entre outras medidas: fechar as escolas com baixo desempenho ou entregá-las para as Organizações Sociais:

“Para enveredar num rumo virtuoso, a educação nacional precisa de providências mais básicas, como garantir ênfase a português e matemática na base curricular nacional, dar autonomia a professores e diretores e facilitar a demissão dos piores, além de fechar as escolas ruins ou entregá-las para a gestão de organizações sociais”.

Além das implicações ideológicas da proposta, ela é uma solução de preguiçoso. A saída que a reforma empresarial dá para a educação é a mesma que ela tem para resolver os problemas do Estado: livrar-se dele. Não é diferente com a questão da educação: livre-se das escolas que estão com baixo desempenho fechando-as ou entregando-as às Organizações Sociais.

Um centro de pesquisas americano, ligado aos próprios reformadores empresariais que a Folha de SP apoia, acaba de publicar um relatório sobre a eficácia de fechar escolas como solução para melhorar a qualidade da educação e ele não contém boas novas para os reformadores.

Antes o CREDO já havia publicado o estudo de 2013 avaliando a terceirização nos Estados Unidos, com as escolas sendo entregues a organizações sociais. Este estudo, envolvendo 26 estados americanos, quebra a perna da proposta de terceirização dos reformadores. Sobre isso comentamos à época: o estudo mostra que a estratégia não surte os efeitos proclamados.

Os resultados das OSs podem ser sumarizados assim: 25% têm ganhos de aprendizado significativamente maiores em leitura do que as escolas públicas equivalentes, enquanto 56 por cento não apresentaram diferença significativa e 19 por centro das escolas geridas por OSs têm ganhos de aprendizado significativamente mais fracos que as públicas. Em matemática, 29 por cento das escolas charter mostrou ganhos de aprendizagem dos alunos que eram significativamente mais fortes do que os seus colegas da escola pública, enquanto 40 por cento não foram significativamente diferentes e 31 por cento foram significativamente mais fracos. Em resumo: 75% das escolas administradas por OSs são iguais ou piores que as públicas em leitura. Em matemática, 71% são iguais ou piores.

Poder-se-ía pensar que terceirizando seria mais barato para o Estado. Um relatório americano também tentou provar isso, mas foi recentemente derrubado pelo NEPC por metodologia inadequada. Estudo do Tribunal de Contas do Estado de SP para o caso das OS na área da Saúde, também vai na mesma direção: as OSs saem mais caras e não ampliam atendimento.

Agora o CREDO quebra a outra perna dos reformadores: fechar escolas não conduz ao aumento de desempenho nos testes.

Diane Ravitch pergunta em seu blog se os reformadores empresariais americanos se importam que suas táticas favoritas para “melhorar” a escola pública sejam um fracasso. Podemos perguntar se a Folha de São Paulo também se importa. A resposta é: “claro que não”.

E este não é o primeiro estudo a dizer isso. Recentemente outro estudo afirmou:

“Em conclusão, o fechamento de escolas como uma estratégia para remediar o desempenho do aluno em escolas de baixo desempenho é, na melhor das hipóteses, uma estratégia de alto risco/baixo ganho que não se mantém promissora no que diz respeito ao aumento do desempenho dos alunos ou à promoção do bem-estar não cognitivo de estudantes. A estratégia é um convite ao conflito político e incorre em custos ocultos tanto para os distritos como para as comunidades locais, especialmente as comunidades de baixa renda e as comunidades negras que são diferencialmente afetadas pelo fechamento das escolas. É lógico que em muitos, se não a maioria, os alunos, os pais, as comunidades locais, os legisladores distritais e estatais estejam melhor posicionados se, ao invés de fechá-las, investem nestas escolas persistentemente.”

Agora, o CREDO divulga seu estudo mostrando a inadequação da proposta novamente. Uma das conclusões deste estudo é que: os alunos das escolas fechadas tiveram menor desempenho acadêmico do que os das escolas de baixo desempenho que permaneceram abertas.

A análise de Steven Singer resume muito bem os achados do novo estudo:

“Mais um novo estudo descobriu que fechar as escolas nas quais os alunos conseguem pontuações de teste baixas não acaba ajudando-os a aprender. Além disso, tais fechamentos afetam desproporcionalmente os estudantes negros.”

Mas quem se importa com isso? Os reformadores vivem no mundo da fé, não da ciência. E se há algo que não lhes falta é fé na reforma empresarial (além de dinheiro).

Sobre Luiz Carlos de Freitas

Professor da Universidade Estadual de Campinas - UNICAMP - (SP) Brasil.
Esse post foi publicado em Escolas Charters, Links para pesquisas, Mendonça no Ministério, Meritocracia, Responsabilização/accountability, Vouchers e marcado , , , , . Guardar link permanente.

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