Jogos educacionais: como “matar” a motivação interna

Diane Ravitch escreveu um post onde faz uma demonstração prática de como se pode matar a motivação interna das pessoas, ao substituí-las por motivadores externos em jogos de aprendizagem. A questão não é nova e vem desde a década de 70 com os estudos behavioristas. Neles já se podia ler a importância dos motivadores internos, face aos externos. E ninguém está mais autorizado do que os behavioristas para fazer tal advertência, pois se alguém estudou motivadores externos foram eles.

Os jogos educacionais constituem uma modalidade das novas “startups” empresariais na área da educação. O mercado de games educacionais, só nos Estados Unidos, está na casa dos 10 bilhões de dólares. A ideia da indústria educacional é “gamificar” o processo de aprendizagem – daí a importância do alerta de Diane Ravitch.

“Nos últimos anos, li estudos sobre pagamento por mérito e “pagamento por desempenho”. O pagamento por mérito foi tentado reiteradamente por mais de cem anos, e nunca “funcionou”. Fiquei convencida de que o pagamento por mérito nunca funciona porque, em primeiro lugar, não há evidências de que tenha funcionado, e dois, o melhor que pode produzir são resultados de testes marginalmente mais altos, mas não necessariamente melhor educação. Os alunos podem ser treinados para obter a resposta correta usando várias estratégias, mas isso não significa que eles são melhor educados.

Normalmente, as avaliações dos programas de remuneração por mérito mostram que os professores aos quais se oferece um bônus pela obtenção de pontuações mais altas não são melhores do que os professores que não receberam bônus. Os professores não ficam escondendo suas melhores aulas, esperando que alguém lhes ofereça um bônus por maiores pontuações. Lembro-me de Al Shanker dizendo, sarcasticamente: “Então, se você oferecer aos professores um bônus, os alunos trabalharão mais duro”.

O melhor livro que encontrei sobre o assunto, que estimulou outros livros, foi “Por que fazemos o que fazemos”, de Edward L. Deci. Deci, professor de psicologia da Universidade de Rochester, inspirou o trabalho de Daniel Pink (“Drive“) e Dan Ariely (“Previsivelmente Irracional“). Ele e Ariely atuaram no painel da Academia Nacional de Ciências que produziu um relatório intitulado “Incentivos e responsabilização baseada em testes“, que concluiu que nenhuma dessas estratégias melhora a educação.

Deci realizou uma série de estudos com sujeitos humanos para testar suas teorias. Ele concluiu que quando você paga as pessoas para fazer o que fariam normalmente, você diminui sua motivação intrínseca. Quando você deixa de pagá-los, eles param de fazer o que eles teriam feito sem o bônus. As pessoas são motivadas intrinsecamente pela autonomia e autenticidade. “Auto-motivação”, ele escreveu, “está no centro da criatividade, responsabilidade, comportamento saudável e mudança duradoura”.

Uma coisa é ler livros sobre motivação. É outro para testá-lo em sua própria vida.

Cerca de dois anos atrás, descobri “Words with Friends”, um jogo de computador que você brinca com amigos e estranhos online. Demorou um tempo, mas logo peguei o jeito e me achei gostando imensamente. Aprendi palavras novas como “za” e “xu”.

Em algum momento eu percebi que eu poderia ganhar distintivos digitais se eu alcançasse um certo número de pontos dentro de um determinado número de dias. Eu estava muito motivada para ganhar os incentivos, mesmo que não tivessem o menor valor. Comecei a colecionar insígnias fervorosamente. Comecei a jogar com estranhos para poder coletar mais pontos jogando com mais frequência. Em um determinado momento, eu estava muito perto de ganhar um distintivo, mas nenhum dos meus amigos estava online. Então enviei um e-mail para Anthony Cody e pedi-lhe para começar a jogar para que pudesse ganhar pontos. Anthony, por sinal, é um mestre do jogo e regularmente me bate. Ele conhece palavras mais exóticas do que qualquer outra pessoa que conheço.

Então eu aprendi algo. Quando ganhei um distintivo, perdi o interesse em jogar o jogo até que um novo distintivo fosse oferecido.

Em outras palavras, eu comprovei a teoria de Deci. Comecei com motivação intrínseca, mas os distintivos virtuais converteram meu desejo de jogar em uma corrida competitiva para ganhar um distintivo digital. Quando ganhei o distintivo digital, ou quando ele esteve claramente fora do meu alcance, perdi o interesse.

Eu tentei jogar sem prestar atenção ao distintivo digital, mas o aplicativo continuou lembrando-me que eu já havia ganho 25% dos pontos ou 50% dos pontos necessários.

Não há como desligar os incentivos.

Os distintivos danificaram meu amor pelo jogo. Eu não estava mais jogando pela diversão de fazer palavras, mas para obter distintivos.

Desde que escrevi este post, parei de me preocupar com ganhar distintivos. Já não olho para as minhas pontuações. Estou deixando de jogar com estranhos com os quais eu jogo. Escrever o post ajudou a quebrar o vício. Estou jogando pela diversão do jogo, não mais pelo prêmio.

Deci estava certo.”

Sobre Luiz Carlos de Freitas

Professor da Universidade Estadual de Campinas - UNICAMP - (SP) Brasil.
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2 respostas para Jogos educacionais: como “matar” a motivação interna

  1. Jilvania Bazzo disse:

    Prof. Luís Carlos, estou de acordo com “os achados” sobre motivação externa, premiação e questões daí derivadas. Mas, essa perspectiva tão bem delineada entre intrínseco e extrínseco ou dentro e fora ou interno e externo não seria uma leitura muito reducionista acerca do processo de aprendizagem? Ademais, fico pensando sobre os efeitos dessa teoria na educação como um todo. Há algum tempo ouvi de um agente público do “auto-escalão”, um colega da área de educação – para não dizer que era um administrador ou algo do gênero, defendendo essa ideia para justificar que não adiantava pagar “altos” salários para os professores tendo em vista a tal motivação interna, vocação e outras tantas atrocidades, imbelicidades e empáfias. Enfim, apenas para dialogar para compreender e contribuir com a transformação no campo educacional. Obrigada.

    • Boa questão. O post mistura, de fato, a questão de aprendizagem via motivação interna, com pagamento via motivação externa. É preciso separar.
      De fato, ninguém pode “profissionalmente” trabalhar apenas pela motivação interna. É preciso, como se diz, “ganhar a vida” e isso implica, pelo menos no nosso modelo, acessar dinheiro como pagamento.
      Diane está criticando o fato de que não se paga salário e sim se inventam “bônus” como adicional que, então, sim, motivariam o professor – para além do salário. A questão, então, colocada por você, nos leva a isso: qual a remuneração justa para um profissional como o professor em nossa sociedade, sem achar que você precisa dar um bônus “a mais” para que ele se motive a ensinar. O que seria feito normalmente com um salário adequado, se transformado em bônus, quando este bônus cessar o esforço adicional também cessa. Portanto, é melhor que haja um “contrato social” onde o salário justo é a referência e não o bônus – algo que pode não existir no futuro com consequências nefastas sobre a motivação interna.
      Mas, mais que isso, a nossa profissão não depende de “aportes adicionais” para que tenhamos motivação para ensinar – depende sim, como em todas as profissões da percepção de um salário justo para permitir “ganhar a vida”. Esta é a conclusão da pesquisa levada a cabo na Cidade de Nova York , a propósito da experiência de bonificação naquela cidade, e que levou `a sua interrupção. Como diz Diane, não há diferença de desempenho entre professores que recebem bônus e os que não recebem.
      Um salário justo permite que se exija contrapartida, uma bonificação só atua quando é dada e, de quebra, destrói a motivação interna quando não é dada.
      Para evitar isso, os behavioristas propunham um “esquema de reforçamento” no qual o espaço entre bonificações aumentava paulatinamente, no entanto, os esquemas de reforçamento geravam outros efeitos colaterais indesejáveis.
      No fundo está uma incompreensão em relação ao que leva o ser humano a se dedicar a um trabalho. E é isso que o texto alerta: não destrua a motivação interna existente com motivações externas artificiais que são, na verdade, um desrespeito à condição de um profissional. Abraço. Luiz

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