Giambiagi: o que é a “boa educação”?

Fábio Giambiagi em um artigo no site do Instituto Millenium, embora conciso, revela em profundidade o que pensa a nossa elite econômica sobre o que seja uma boa educação.

Giambiagi é economista e superintendente da área de Planejamento e Pesquisa do BNDES, sendo também um dos maiores especialistas brasileiros nas áreas de finanças públicas e previdência social. Fábio Giambiagi faz parte do Departamento Econômico do Banco Nacional do Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) desde 1996. Entre 1993 e 1994, trabalhou no Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID), em Washington.

Com grande perspicácia, ele percebe que o que entendemos por boa educação depende das finalidades que nós atribuímos à educação. Percebe ainda, o alcance desta definição prévia, a qual afeta a “todas as classes sociais”. Ao invés de quebrar a cabeça com teorias da formação humana críticas, ele assume o pragmatismo corrente: a escola deve ensinar ao aluno o manual de sobrevivência no sistema capitalista, ou seja, veja o que é bom para sobreviver na atual sociedade e ensine isso a nossos alunos. Diz:

“Uma das razões do atraso brasileiro é o nível de nossa educação. O problema vai muito além do que supõe a maioria das pessoas. É muito comum que esse atraso seja associado a problemas como precariedade física das escolas, elevada evasão de professores, etc. Questões como essas são relevantes. Fazendo uso de uma antiga expressão, porém, “o buraco é mais embaixo”. Um dos maiores desafios que o país enfrenta – e que afeta todas as classes sociais – é algo que pode soar estranho aos leitores, mas que procurarei justificar no artigo: uma grande proporção dos brasileiros simplesmente não sabe como funciona o capitalismo. E isso começa pela elite.”

Aí está a finalidade da educação para ele: apreender a lógica do capitalismo. Ele diagnostica bem: o problema atinge a todas as classes sociais, pois é uma questão de “hegemonia”: o andar de cima deve conhecer para poder exercitar, e o andar de baixo deve conhecer para poder aceitar tais regras. Para fortalecer tal hegemonia, a escola deve atuar, portanto, nos dois polos sociais, reforçando a lógica tanto no andar de cima como no andar de baixo.

De partida, estão descartadas as visões alternativas sobre a realidade capitalista. Isto só geraria maniqueísmo (uma contraposição inútil entre o bem e o mal) e o adolescente acabaria concluindo que o atual sistema capitalista é injusto. Por este caminho, terminaria despreparado para enfrentar as exigências do sistema. Ou seja, para o autor, desenvolver uma visão crítica da realidade capitalista é considerada uma maneira equivocada de formar a juventude, pois por este caminho aluno em “cinco anos depois ele estará engrossando as passeatas contra a globalização e o neoliberalismo”.

“A realidade é que a maioria de nossas escolas não prepara os alunos e futuros adultos para encarar a realidade dura com a qual terão que conviver. O futuro cidadão aprende a se revoltar com o país e com o ambiente em que habita, mas sabe muito pouco sobre o que as nações fizeram para triunfar nesse mesmo mundo.”

A partir da finalidade geral que ele atribui à educação, ou seja, saber acriticamente como funciona o capitalismo, ele passa a detalhar o conteúdo específico que conduz à obtenção exitosa desta finalidade. Indica, então, o que as escolas devem, ensinar aos estudantes brasileiros:

  1. Aprender que a obediência à lei deve ser uma das bases da prosperidade;
  2. Aprender que o destino de cada indivíduo na vida dependerá em boa parte do esforço e da capacitação; e
  3. Aprender português, língua estrangeira, ciências e matemática.

Como corolário geral da proposta o economista dispara: “Em suma, se queremos que o pais seja mais competitivo, teremos que fazer que nossas escolas preparem os alunos para enfrentar a competição.”

Pelo menos ele é honesto e revela suas finalidades. Os reformadores empresariais da educação nem sempre são dotados de tanta franqueza em relação aos objetivos e finalidades que atribuem à sua reforma da educação, consubstanciada na Base Nacional Comum Curricular, incluídas aí as “habilidades socioemocionais”, como por exemplo, a questão da “resiliência” entre outras. A resiliência é a base da preparação psicológica do estudante para enfrentar a competição.

Não é por outra razão também que os americanos chamavam a sua reforma educacional até recentemente de “Corrida ao topo”, para a qual montaram o Common Core, uma espécie de base nacional comum apenas para leitura e matemática. Uma corrida que se revelou, de fato, ser “uma corrida para lugar nenhum”, ou melhor, uma corrida para o adoecimento de estudantes e professores, além de incentivar a privatização da educação americana.

Há quase 100 anos V. Shulgin, um teórico russo, refletindo sobre as condições a que estiveram submetidos os operários e camponeses daquele pais durante o czarismo, dizia que o czar enviava os piores professores para trabalhar nas piores condições para ensinar aqueles que menos sabiam. Ele dizia isso para ilustrar como interessava ao então sistema czarista manter o povo na ignorância. Era uma escola de mentirinha, uma farsa destinada a enganar o povo.

Após tanto tempo, agora sob a roupagem do capitalismo, as mesmas finalidades permanecem dirigindo a concepção de educação dos arautos da elite, de forma a garantir a manutenção de seus privilégios: uma “competição” que ao final da corrida legaliza, pela meritocracia, a própria segregação social existente antes da corrida – um jogo de cartas marcadas. A educação, inserida em um sistema com tal finalidade, deveria, segundo o autor, pragmaticamente, destinar-se a legitimar este jogo. Como se vê, o nosso problema ético vem das elites.

Sobre Luiz Carlos de Freitas

Professor da Universidade Estadual de Campinas - UNICAMP - (SP) Brasil.
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